Economia

O poder sindical


Os punhos cerrados voltaram. Sob o empuxo da economia aquecida, começa agora a maior safra de campanhas salariais do ano, com mais de 1,5 milhão de empregados nos setores industrial, comercial e financeiro em busca de ganhos econômicos até a virada do ano. Da negociação à greve, tudo vale. Nada menos que 208 categorias profissionais, de um universo de 262 com data-base no primeiro semestre, conseguiram este ano reajustes salariais com índices iguais ou acima da inflação. No feito mais recente, os metalúrgicos de São Bernardo, ligados à CUT, obtiveram na mesa de negociação com as montadoras um reajuste de 9,1% em seus salários. Em Curitiba, as fábricas cederam até 10,9%. Na semana passada, em São Paulo, os bancários recusaram uma proposta da Fenaban que continha aumento real, descontada a inflação, variável entre 2% e 6%. Preferiram a greve para conseguir mais. A mesma disposição para a briga se verifica entre os 100 mil metalúrgicos de São Paulo, organizados pela Força Sindical. Exigem de 18% sobre os atuais salários. Nesta terça 21, os sindicalistas prometem colocar pelo menos 5 mil metalúrgicos diante do prédio da Fiesp para mostrar que não estão para brincadeiras. Em seguida será a vez de têxteis, químicos e comerciários paulistas, todos com data-base até 1o de dezembro.

?A hora é essa?, avisa o presidente da Força, João Carlos Gonçalves, o Juruna. ?Fazia muito tempo que as condições para obter ganhos não eram tão boas.? Em 1989, o Brasil registrou o maior índice de greves do planeta, com 4 mil paralisações. A partir dos anos 90 se deu um apagão sindical. A combinação de estabilidade relativa de preços e diminuição do emprego formal colocou os sindicatos na defensiva. A cada ano, neste período, não se verificaram mais de 500 greves. Um número que, convergem os analistas, será superado em 2004. ?A primavera de negociações do primeiro semestre tende a se tornar um verão de mobilizações e greves agora?, afirma o economista Márcio Pochmann, secretário do Trabalho da cidade de São Paulo. As condições de temperatura e pressão na economia são ideais para a agitação. Nos primeiros setes meses do ano, a produção industrial cresceu em média 7,8%, com picos de 24,5% no setor de bens duráveis e 24,9% no de bens de capital. Enquanto isso, aumentou em 5,3% a taxa de emprego formal. A inflação, tradicional combustível para movimentos reivindicatórios, chega a 6,8% nos últimos 12 meses, segundo o IBGE.

Em agosto, os preços livres apurados pelo mesmo IBGE tiveram alta de 0,6%. O sucesso dos trabalhadores pode realimentar o dragão inflacionário? ?Não creio?, responde o economista Edward Amadeo, da Tendências Consultoria. ?As empresas podem compensar os aumentos com ganhos de produtividade?. Para o consultor sindical João Guilherme Vargas Neto, a disputa em São Paulo tem dimensão nacional. ?Essas campanhas terão repercussão sobre categorias profissionais de todo o País?, diz ele.

Os 100 mil metalúrgicos de São Paulo querem reajuste de 18%