Economia

Missão samurai


Em sua primeira visita ao Brasil, o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, chefe da segunda economia mais poderosa do mundo, com seu PIB de US$ 4 trilhões, cumpriu a tradição e plantou árvores no País. Primeiro, uma muda de pau-brasil, na terça-feira 14. No dia seguinte, Koizumi voltou a pegar na enxada e cultivou sementes de cedro, observado por empresários interessados em investir no Brasil e integrantes da Keidaren Nippon, a Fiesp de lá. Na quarta-feira, o premiê caiu em lágrimas durante cerimônia com imigrantes, em um gesto de emoção raro para um político de sua envergadura. Mas o grande foco da missão Koizumi, a primeira de um chefe de Estado japonês desde 1996, era comercial. Logo ao encontrar o presidente Lula, na quinta-feira 16, após um vôo de São Paulo a Brasília num jato Legacy, da Embraer, Koizumi disse a que veio. ?Não conhecia esse avião?, revelou. ?A Embraer deveria fazer mais propaganda dele no Japão.? Lula gostou e cutucou uma ferida comercial ? a restrição japonesa à importação de mangas brasileiras. Lamentou que os jogadores de futebol no Japão não podem comer da fruta 100% nacional. ?Pois já podem?, respondeu Koizumi. Pelas contas do chanceler Celso Amorim, há espaço para US$ 100 milhões a mais em exportações.

A naturalidade quase apressada com que Lula e Koizumi trataram de questões comerciais tem a ver com o declínio da relação bilateral entre os dois países. No começo do governo FHC, o Japão era o quarto parceiro comercial do Brasil ? no ano passado, porém, caiu para a 14ª posição. A balança é favorável ao Japão, mas o saldo japonês diminuiu para cerca de US$ 210 milhões, o menor valor desde que as negociações tornaram-se deficitárias para o Brasil, em 1997. Além disso, desde a posse do governo Lula, o Itamaraty demonstrou interesse crescente por mercados emergentes, como China, Índia e Rússia. ?Nos anos 90, a relação entre Brasil e Japão ficou estagnada por causa da crise econômica dos dois países?, admitiu Teiji Sakurai, da Câmara de Comércio japonês. Koizumi, porém, acredita que chegou a hora da virada. ?Nossas relações econômicas têm grande possibilidade de crescimento; este é o momento?, afirmou. O caso da manga foi um primeiro passo. As vendas da fruta para o Japão devem começar em outubro, depois de 27 anos de barreiras. ?Essa abertura é emblemática. A medida sinaliza uma nova fase das relações comerciais entre Brasil e Japão?, afirmou Roberto Rodrigues, o ministro da Agricultura. Além disso, antes de se encontrar com Lula, Koizumi passou por São Paulo e semeou novos negócios. Anunciou o interesse em importar álcool combustível e começou a cumprir a determinação, não obrigatória no Japão, de misturar 3% de álcool à gasolina. O Brasil já exporta álcool para bebidas, um negócio que deve render R$ 150 milhões este ano. Se passar a vender o álcool combustível, este bolo ir para R$ 1,8 bilhão por ano. O Banco Japonês de Cooperação Internacional, que já investiu R$ 753 milhões nas obras do rio Tietê, estuda a doação de US$ 600 milhões à produção de álcool e biodiesel.

Koizumi não tratou apenas de negócios. O primeiro-ministro aproveitou para visitar um primo que não via há 12 anos. Kenji Irio recebeu o primo político em um almoço privado, em São Paulo. Falaram de Palmeiras, feijoada e da apressada viagem do premiê. ?Pena que meu primo não poderá conhecer todas as plantações?, disse Iryo. O imigrante Iryo sabia que o primeiro-ministro plantaria mais uma árvore. Desta vez no México, onde assinaria um acordo de livre comércio.

Intercâmbio Comercial Brasil-Japão (em US$ bilhões)

Exportações brasileiras para o Japão

1999
2000
2001
2002
2003

2,192
2,472
1,986
2,097
2,310

Importações brasileiras do Japão

1999
2000
2001
2002
2003

2,575
2,959
3,063
2,347
2,520

Balança
comercial

1999
2000
2001
2002
2003

-0,383
-0,487
-1,077
-0,249
-0,210

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC)/Secretaria de Comércio Exterior (SECEX)