Economia

O Fome Zero mundial de Lula


Às 14 horas desta segunda-feira 20, o presidente Lula terá um palco grandioso. Na imponente Sala do Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas, e sentado ao lado do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, ele exercitará sua retórica contra a miséria no mundo, diante de uma platéia de notáveis. Lula falará para 60 presidentes e chefes de governo e irá apresentar a proposta de criação do Fome Zero Mundial. O documento que será lido por Lula, obtido com exclusividade pela DINHEIRO, contém 47 páginas e foi batizado de ?Ação Contra a Fome e a Pobreza?. Lá constam sete propostas. As principais são taxar as transações financeiras internacionais ? uma idéia que o economista americano James Tobin lançou na década de 70, Fernando Henrique Cardoso abraçou vinte anos depois e que ainda não saiu do papel ? e a criação de um imposto sobre a venda de armas. Além disso, entre outras coisas, Lula também irá propor o lançamento de um cartão de crédito em que os clientes aceitem doar parte dos recursos da anuidade para o combate à fome e uma autorização especial do FMI para que os países pobres possam sacar suas reservas externas para utilização em programas sociais.

Ao fim do discurso, Lula fará uma ressalva e uma exortação.  Há constrangimentos políticos para a adoção de novos mecanismos de combate à fome, mas a comunidade internacional não pode adotar uma atitude complacente?, dirá o presidente em Nova York. a prática, há grandes entraves à adoção das propostas do documento. Mas elas servem à diplomacia presidencial menos pelo resultado efetivo, e mais pelo efeito na opinião pública. Com seu discurso social, o presidente brasileiro terá espaço na mídia internacional e será retratado como um político criativo. Além disso, receberá elogios de líderes como o francês Jacques Chirac e o britânico Tony Blair, que aplaudirão suas propostas mas dificilmente aceitarão taxar as vendas de suas indústrias bélicas. O fato é que, para platéias externas, o discurso de Lula vem funcionando e angariando simpatias. ?A iniciativa em Nova York é interessante porque vem de um dirigente que já consolidou sua liderança política na América Latina?, avalia Santos Ruesga, vice-reitor de Relações Internacionais da Universidade Menéndez Pelaio, da Espanha. Lá, a Universidade Complutense de Madrid, ligada à Igreja Católica, chegou a criar um centro de análise das políticas sociais brasileiras. E até o papa João Paulo II, que recebeu as propostas de Lula das mãos do chefe de gabinete presidencial, Gilberto Carvalho, aderiu formalmente à causa.

Internamente, porém, Lula ainda enfrenta desafios para fazer o Fome Zero avançar. Com problemas de implementação, ele foi unificado a outros programas sociais, como o Bolsa-Família. No fim do governo FHC, havia 9 milhões de famílias recebendo ajuda financeira do Estado. Hoje, são 10,5 milhões. Além disso, mesmo com uma expansão econômica de 4% prevista para 2004, o Brasil ainda não cresce acima da média mundial. ?O discurso em Nova York representa apenas o velho assistencialismo, mas em escala planetária?, critica o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Paulo Kramer. ?Lula poderá até voltar ao Brasil com mais prestígio internacional, mas ainda falta fazer o dever de casa internamente?, avalia o professor Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas.