Economia

Copom 100


Uma vez por mês, do 20º andar de uma construção brasiliense feita em concreto e vidro opaco, sai um número. À sua espera, o Brasil pára. Na última semana, isso aconteceu pela centésima vez, com mais uma reunião do Comitê de Política Monetária. Foi uma ocasião emblemática, que convida a um balanço. O rito secreto de número 100, do qual participaram o presidente e sete diretores do Banco Central, demonstrou como a economia brasileira vem sendo gerida desde 1996, quando o Copom foi criado ? com um misto de desinformação, impotência e mistificação. Às vésperas da reunião, houve a tradicional gritaria, apelidada pelo presidente Lula de ?tensão pré-Copom?. O porta-voz da insatisfação, desta vez, foi o ministro da Casa Civil, José Dirceu. ?Devo obediência ao governo, mas não sou robô?, afirmou, numa palestra em São Paulo.

?Não vejo pressão de preços, mas a decisão é do Copom?, disse Dirceu. Era a impotência. Um dia depois, empresários subiram o tom das críticas. Mas na noite da quarta 15, quando os diretores do BC deixaram a sala do Copom, decorada com a tela Descobrimento do Brasil de Cândido Portinari, o País viu mais do mesmo. Os juros voltaram a subir e a Selic, taxa do BC, foi elevada de 16% para 16,25%. Isso deu ao País a segunda taxa de juro real do planeta, atrás apenas da Turquia. E mais: o BC deixou claro que o aumento foi apenas o primeiro de uma série destinada a ajustar a inflação à meta de 2004 ? e que praticamente já estourou. O presidente do BC, Henrique Meirelles, mais forte do que nunca no núcleo da economia, está convicto de que nada nem ninguém pode desviar a instituição da missão de combater a carestia. E, no seu entender, a pressão recente de preços exigia uma calibragem.

Na sala secreta do Copom, onde os diretores passam horas movidos a água, café e pão de queijo, os números explicam quase tudo. É a mistificação, que tem como principal personagem um software chamado pelos diretores de ?Modelo?. Ele realiza complexas simulações matemáticas e detém entre os devotos do monetarismo a função de oráculo. Define o ritmo de atividade econômica compatível com a meta de inflação. Em 2004, a meta é de 5,5%, mas há uma margem de tolerância que permitiria ao BC fechar o ano com uma inflação de 8%. O problema é que, como a alta de preços já bateu em 7,18% este ano, o Modelo do BC apitou. ?O aumento de juros foi até tímido?, disse Sérgio Werlang, criador do regime de metas e atual diretor do Itaú. Tanto assim que, dos oito diretores, três votaram por um aumento maior, de 0,5 ponto percentual. Na média, o mercado financeiro, de onde saem e para onde vão nove em cada dez diretores do BC, aplaudiu a decisão.

O problema básico do Copom ? ou do Brasil ? é que um modelo matemático tem pouca serventia para explicar a realidade econômica. Hoje, 90% da inflação é causada por tarifas públicas e pela alta de produtos com alta demanda externa, como aço e minério de ferro. Em vez de agir sobre problemas localizados, o governo preferiu esfriar toda a economia. ?Isso pode jogar por terra planos de investimento?, disse Horácio Piva, presidente da Fiesp. ?Ninguém investe numa economia com medo de crescer?, reforçou Delfim Netto. Para analistas que se preocupam com a economia real, é mais importante atrair investimentos que fechar as equações do Modelo.

A obsessão dos integrantes do Copom pela matemática tem produzido barbaridades. Exemplo disso aconteceu em outubro de 1997, auge da crise asiática, quando o BC convocou uma reunião extraordinária, a de número 18. Dois membros do comitê, o diretor Francisco Lopes e o presidente Gustavo Franco, estavam no Rio de Janeiro e voltaram às pressas para Brasília. Entre o aeroporto Santos Dumont e a sala da presidência do BC, os dois perderam duas horas em trânsito. Franco abriu seu computador e viu que as reservas cambiais do País evaporavam: ?Puta que pariu! Perdemos US$ 6 bilhões?, exclamou. Naquela reunião, a taxa subiu de 20,69% ao ano para 44,4%. Um ano depois, a mesma sala do BC foi palco de outro momento de tensão. A crise da vez era da Rússia e o Brasil continuava perdendo reservas. Chico Lopes, mais uma vez, propôs subir os juros para 40%. Franco relutou. Achava melhor impor controles cambiais e restringir a saída de dólares. Um dos membros do Copom, o diretor Cláudio Mauch, alertou: ?Se quiser fechar, tem que fechar tudo?. Por conta disso, a proposta de Lopes prevaleceu.

O governo mudou, mas o perfil das pessoas que hoje definem o rumo da economia é tão conservador ? ou mais ? do que antes. Os dois principais nomes do Copom, além de Meirelles, são os diretores Afonso Bevilacqua, de Política Monetária, e Eduardo Loyo, de Estudos Especiais. Formados na PUC do Rio, são daqueles que acham que juro e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Os dois são vistos pelo mercado como as âncoras do conservadorismo, secundados por Alexandre Schwartsman, da área internacional. Os demais diretores, que cuidam de áreas menos afeitas à política econômica, geralmente acompanham o voto desses colegas.

O grande idealizador do Copom foi o economista Francisco Lopes, que se inspirou no Bundesbank alemão. Antes do comitê, a decisão de aumentar ou reduzir juros era feita informalmente na mesa de operações do BC. Podia acontecer a qualquer momento. A idéia de Chico Lopes foi criar um ritual, para institucionalizar a política monetária. No seu tempo, as reuniões eram até gravadas, mas Armínio Fraga suspendeu a prática. Embora o ritual do Copom seja hoje o ponto culminante de tensão na economia, o modelo brasileiro não copiou práticas saudáveis de outros países. Aqui prevalece a desinformação. Nos Estados Unidos, por exemplo, Alan Greenspan vai ao Congresso todos os meses para justificar suas decisões. Ele passa mais tempo se explicando do que decidindo. Intramuros, participa também de um intenso diálogo, muitas vezes ríspido, entre os desejos da administração e as cautelas do Federal Reserve. Greenspan e seus subordinados não operam no vácuo. Devem explicações e têm como missão prover o crescimento e o emprego. Aqui não. No Brasil, mesmo com desemprego batendo em 11% e uma demanda que mal começa a se recuperar, o BC não só subiu os juros como adotou viés de alta. Com isso, acrescentou R$ 1 bilhão nas despesas com a dívida interna. Para um governo que parece não ter muita convicção sobre o que deseja na economia, a existência de um conselho superpoderoso, que paira acima do País, acaba sendo conveniente. Vira bode expiatório. ?O político sempre poderá dizer que a culpa pelos juros altos é daqueles loucos do Banco Central?, disse Francisco Lopes à DINHEIRO. ?Na prática, graças ao Copom, o BC acabou ficando independente.? Chico Lopes tem razão, mas será que isso é bom para o Brasil?

16,25% a taxa atual é a segunda maior do mundo, atrás apenas da vigente na Turquia

15,25% É a estimativa de sandálias Havaianas pirateadas no Brasil. No exterior, outras seis milhões são copiadas

45% foi o pico dos juros no Brasil, em março de 1999, após a megadesvalorização

QUEM É QUEM NO COPOM
Os sete diretores com direito a voto, além do presidente Henrique Meirelles


Afonso Bevilacqua
Diretor de Política Monetária interino, vem
da PUC do Rio e é um dos mais conservadores.


Alexandre Schwartsman
Ex-Unibanco, ele chefia a área internacional
e é Ph.D pela Universidade de Berkeley.


Paulo Sérgio Cavalheiro
Diretor de fiscalização bancária, é técnico de carreira e geralmente acompanha o voto de Meirelles.


João Antonio Fleury
Diretor de Administração, está no BC desde 1987 e entrou para o Copom há um ano.


Sérgio Darcy
Diretor da área de normas, é o único que participa do Copom desde a sua criação.


Eduardo Loyo
Diretor de Estudos Especiais, vem da PUC-Rio e é visto como uma das âncoras dos juros altos.


Antonio Gustavo do Vale
Diretor da área de liqüidações e desestatização, fez carreira em bancos estatais antes do BC.