Economia

O futuro é agora


Um ciclo virtuoso de desenvolvimento tecnológico está chegando ao País. Ele se dá por uma longa série de conexões que vai obrigando companhias diferentes a se aproximarem cada vez mais para atender todas as demandas dos usuários de produtos de comunicação. Neste ciclo, a telefonia aumenta sua base de clientes na direção da internet, cujo maior patrimônio é o conteúdo. Este movimento, por sua vez, gera forte demanda por banda larga, entra na seara da televisão, se multiplica na forma de diferentes canais por assinatura, cruza o mundo com ajuda dos satélites e completa seu ciclo de desenvolvimento ao oferecer ao usuário do telefone uma renovada gama de serviços: telefonia, internet, banda larga, transmissão de dados e imagens, tevê, acesso a satélites etc.

?No passado, as empresas brasileiras perderam ondas de transformações tecnológicas, mas agora estamos prontos para aproveitar a chance aberta nesta era do conhecimento?, acredita o secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Paulo Lustosa. ?No modelo que estamos criando, Estado, sociedade civil e mercado vão atuar em convergência de interesses.? Na defesa deste novo modelo, Lustosa foi o primeiro palestrante do Fórum Telecomunicações ? Um Novo Salto, promovido pela Divisão de Seminários e Palestras da Editora Três e sua revista semanal de economia e negócios, a DINHEIRO. O Fórum reuniu dezenas de executivos de empresas de telecomunicações à volta de um elenco de palestrantes capazes de transmitir informações de primeira grandeza em primeira mão. ?O setor de telecomunicações é responsável por mudanças estruturais, comerciais e de comportamento no Brasil e no mundo?, registrou o editor e diretor responsável da Três Editorial, Domingo Alzugaray, ao abrir o encontro. ?O setor merece ser debatido de forma aberta, lúcida e democrática.?

Neste momento, um projeto de lei que modifica a regulação do setor de telecomunicações está em fase final de tramitação na Câmara dos Deputados. Em detalhes, o projeto foi esmiuçado durante a exposição do superintendente de Serviços Privados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Jarbas José Valente. ?O Ministério irá se fortalecer como órgão regulador do mercado?, frisou. Com números atualizados, Valente afirmou que a demanda por banda larga já pode ser vista como uma nova onda de crescimento da internet. Os 53 mil usuários de banda larga em 1999 passaram a ser, no ano passado, 1,19 milhão em todo o País. ?A tendência é uma queda nos preços do acesso, hoje numa média de 70 reais mensais. À medida em que isso acontecer, a banda larga crescerá com velocidade.?

A convergência de tecnologias esteve no centro dos debates. Um dos principais assessores técnicos do Ministério das Comunicações, Márcio Wohlers, destacou o movimento cada vez mais nítido de aproximação entre diferentes companhias privadas. ?Compartilhamento de redes e parcerias entre empresas de tecnologia e de conteúdo estão em alta?, frisou Wohlers. Ele acredita que esta é a forma que muitas companhias já descobriram para maximizar sua prestação de serviços e elevar o retorno para seus investimentos. ?A receita por usuário vai aumentar, haverá mais sinergia entre empresas e maturidade nos novos investimentos?, previu. Diante do baixo desempenho da economia nos últimos anos, alguns setores de telecomunicações apresentaram sinais de terem chegado às fronteiras do mercado. O número de assinantes de televisão a cabo, por exemplo, permaneceu em 3,6 milhões entre 2001 e 2003. Agora, com o crescimento do PIB apontando, em algumas previsões, para até 5% este ano, as possibilidades se renovam. ?A boa notícia é que o capital especulativo já passou pelo setor e, agora, quem está dentro quer ganhar mercado e receitas a partir de estratégias de conquista do usuário, e não por manobras financeiras?, disse Wohlers. Alexandre Annemberg, vice-presidente da Associação Brasileiras das Tevês por Assinatura, fez um improviso para afirmar que os canais pagos de televisão são os parceiros ideiais para as empresas de telefonia ampliarem seus modelos de negócios. ?Muita gente não tem televisão em casa para acessar a banda larga, mas todos têm aparelho de televisão. Basta partirmos
para uma política de adaptação?.

?Nunca é fácil encontrar respostas seguras para nossas principais dúvidas?, reconheceu à DINHEIRO o vice-presidente da empresa de telefonia Brasil Telecom, Jorge Jardim, um dos participantes do encontro. ?Audiências com autoridades costumam abordar questões específicas e nem sempre se tem clareza sobre os rumos gerais que vão sendo dados ao setor. Aqui isso ficou bem nítido?. Um dos representantes do mercado a ocupar a tribuna de palestras, o diretor-executivo da Acel Telecomunicações, Amadeu de Paula Castro Neto, tocou num ponto caro aos empresários. Ele lembrou que a carga tributária praticada no Brasil sobre as companhias de telecomunicações é uma das mais altos do mundo. ?Os impostos são um gargalo para o crescimento?, disse Castro Neto. ?Uma revisão tarifária pode ser muito útil para a universalização dos serviços de telecomunicações.? O economista Joelmir Betting encerrou o encontro, com uma exposição que abriu portas para muitas reflexões. ?A internet matou o dragão da inflação, ao transferir para o consumidor o poder de escolha sobre concorrentes que oferecem um mesmo produto?, comparou ele. ?Falta os executivos do Banco Central entenderem essa realidade.?