Economia

SEGREDO NUCLEAR

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Usina nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro

 

 

A tensão disparou à meia-noite do sábado 3. Num telefonema urgente de Washington para sua casa em Brasília, o chanceler brasileiro Celso Amorim soube que os Estados Unidos haviam dado início à mais ousada emboscada econômica dos últimos tempos. Inquietos para descobrir os segredos industriais de um equipamento brasileiro capaz de produzir urânio enriquecido ? a fonte de energia mais controlada, temida e cobiçada do mundo ?, os americanos estavam prontos a traves-
tir uma questão essencialmente comercial num caso militar de dimensão internacional. Eles querem ver de perto as ultracentrifugadoras desenvolvidas por cientistas brasileiros ao
longo dos últimos 27 anos. Criados com talento, suor e o equivalente a US$ 1 bilhão em investimentos públicos, esses aparelhos estão aptos a fazer com que o País ingresse no exclusivo clube dos produtores mundiais em escala industrial de urânio enriquecido. Em 2001, segundo o Nuclear Fuel Cost Calculator (NFCC), da Holanda, esse mercado movimentou US$ 18 bilhões de dólares e está em franco crescimento. Na busca dos segredos da mais brilhante conquista da ciência nuclear nacional, os americanos parecem dispostos a tudo. Nessa semana, o secretário de Energia dos EUA, Spencer Abraham, desembarca em Brasília para insistir na reivindicação de ver as máquinas brasileiras. Até onde eles podem ir?

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URÂNIO ENRIQUECIDO Aparelho inventado no Brasil produz combustível atômico para as usinas de Angra dos Reis


 

 

No domingo 4, confirmando o que o chanceler Amorim soube na véspera, o governo dos Estados Unidos disparou o primeiro artefato. Mesclando fontes anônimas do Departamento de Estado e especialistas em questões atômicas ligados à Casa Branca, uma reportagem de primeira página do The Washington Post lançou uma nuvem de suspeitas sobre os fins pacíficos do programa nuclear brasileiro. ?Se não queremos este tipo de instalações no Irã ou na Coréia do Norte, não deveríamos querer também no Brasil?, comparou uma das fontes do jornal. Naquele momento, foi como se o chamado ?eixo do mal?, instituído pelo presidente George W. Bush para justificar a invasão do Iraque, ganhasse seu quarto integrante.

 

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Em 1978, o almirante Othon Luiz (abaixo) Pinheiro foi encarregado de reunir cientistas para inventar uma ultracentrifugadora. Deu certo. Hoje, a máquina enriquece o urânio em forma gasosa na velocidade do som, tem baixo consumo de energia e demanda manute

 

Nas 48 horas seguintes as autoridades brasileiras entraram em estado de alerta. A partir de uma ação combinada entre executivos do governo americano e técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Brasil se viu pressionado a mostrar suas ultracentrifugadoras à primeira inspeção. ?Não. Elas são um patrimônio nacional que precisa ser preservado, sem prejuízo de estarmos absolutamente dentro das regras de desenvolvimento de um programa nuclear pacífico?, reagiu à DINHEIRO o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos. Nas severas normas internacionais de controle atômico, não existe nenhuma regra que obrigue um país a revelar segredos industriais deste tipo.

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Desenvolvimento da máquina nacional levou 27 anos e US$ 1 bilhão em pesquisas

 

 

Na terça-feira 6, o chanceler Amorim soltou uma nota dura. ?É inaceitável?, resumiu. Na capital americana, porém, o Departamen-
to de Estado retrucava. Um porta-voz que pediu anonimato à imprensa local definiu o alvo dos Estados Unidos. Na Europa,
uma fonte da AIEA fez o mesmo. Esse alvo é Resende, mais especificamente a sala em que operam as cerca de 200 ultracentrifugadoras na sede das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Para impedir espionagem industrial, elas são protegidas por um fino tapume. No entanto, todo o processo de entrada e saída do urânio em gás, antes e depois do enriquecimento, pode ser medido em todos os detalhes. ?Não somos obrigados a mostrar nossas máquinas?, reagiu Carlos Bezerril, diretor de enriquecimento de urânio da INB. ?Mas prestamos todas as contas necessárias.?

No ano passado, a fábrica da INB recebeu seis equipes de inspeção da AEIA. Nenhuma constatou qualquer irregularidade. Numa delas, um técnico da agência chegou a encostar o rosto no chão para olhar por baixo da barreira visual. ?Eles ficam intrigados com o fato de as máquinas trabalharem em absoluto silêncio?, assinala o ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral. Em setembro, o governo começou a ser instado a assinar um novo protocolo internacional liberando o acesso a toda e qualquer instalação nuclear. Leia-se: a sala em que ficam as ultracentrifugadoras. Em dezembro, uma carta da AIEA protocolou o pedido. ?Os motivos para tanta pressão são puramente comerciais?, diz Amaral. Sob a penumbra dos segredos sobressai um consenso científico de que as máquinas brasileiras são capazes de enriquecer urânio a um custo até 70% menor do que o obtido pelos equipamentos existentes nos Estados Unidos, na França e no Canadá. Técnicos brasileiros acreditam
que a tecnologia nacional está pelo menos cinco anos à frente da estrangeira. Enquanto as máquinas francesas precisam de duas usinas nucleares atrás de si, e uma terceira de reserva, para terem força suficiente para enriquecer o urânio em escala industrial, as brasileiras não gastam praticamente energia nenhuma. ?O ar-condicionado da sala puxa mais energia
do que mil das nossas máquinas?, compara o almirante da reserva Othon Luiz Pinheiro da Silva, o principal criador dos equipamentos. Com preço reduzido para o enriquecimento, e tendo no subsolo uma das maiores reservas de urânio do planeta, a médio prazo o Brasil pode se tornar um exportador do combustível atômico com ampla vantagem competitiva sobre os países mais ricos. Em setembro,
a fábrica de Resende estará em condições de fornecer o combus-
tível para as usinas de Angra dos Reis. Passará a ser apenas uma questão de investimentos em escala o aumento da produção
a ponto de o País poder exportar.

O mercado para o urânio é pulsante. O mundo produz cerca de 2,5 milhões de gigawatts/ano em energia nuclear. Oitenta por cento da energia consumida pela França, por exemplo, tem origem atômica. Os Estados Unidos, com cerca de 100 usinas nucleares atualmente, já anunciaram a construção de outras 18 nos próximos anos. Ao mesmo tempo, o governo Bush lançou um plano de US$ 300 milhões para aprimorar as suas ultracentrifugadoras. Nesta hora, a revelação do segredo brasileiro viria a calhar. Lá, mais de dez empresas privadas controlam a geração de energia nuclear. Isso tudo significa que o Brasil, hoje comprador da matriz energética do Canadá, ao preço estimado de US$ 2,3 milhões por tonelada, terá amplo mercado
ao se tornar produtor. O País tem permissão para fazer o enriquecimento de urânio em até 20%, o que é suficiente para produzir energia capaz de mover usinas nucleares, acionar submarinos atômicos e dar base a inovações nas indústrias da medicina e da alimentação. A 99%, o urânio acende a bomba atômica. Jamais qualquer inspeção internacional concluiu que houve, aqui, uma ultrapassagem dos limites determinados.

Os estratagemas dos Estados Unidos na semana passada uniram a comunidade científica brasileira. ?Eles querem nosso segredo a todo custo?, concorda o brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, um dos primeiros brasileiros a fazer pesquisas atômicas no Centro de Tecnologia Aeroespacial (CTA), nos anos 70. Depois que o Brasil comprou sua primeira usina nuclear da Alemanha, em 1975, durante o governo do então presidente Ernesto Geisel, o chamado clube atômico, liderado pelos EUA, bloqueou ao País o acesso à tecnologia do combustível nuclear. A saída foi montar um programa próprio. ?Tivemos de reinventar a roda, redescobrir o fogo?, define o brigadeiro. Deu certo. Certíssimo. O trabalho que uniu o melhor da ciência nacional somou esforços do CTA, do Instituto de Pesquisas Nucleares (Ipen) e do Centro de Aramar, da Marinha. ?Ninguém pode querer levar, de bandeja, os segredos obtidos após 27 anos de pesquisa?, contra-ataca Ronaldo Fabrício, secretário-executivo da Associação Brasileira de Desenvolvimento Nuclear. ?Nunca vi uma centrífuga estrangeira, por que eles poderiam ver as nossas??, pergunta o doutor Cláudio Rodrigues, superintendente do Ipen.

 

O caso é ainda mais extemporâneo porque já fazem mais de doze anos que o Brasil é um diligente participante do Tratado de Não Proliferação Nuclear. ?Assinei o tratado pela convicção de que, para um país como o Brasil, sem inimigos, a bomba representaria gastos desnecessários de bilhões de dólares?, disse o ex-presidente Fernando Collor à DINHEIRO. Depois disso, o programa nuclear foi vítima de uma série de cortes orçamentários. Até hoje, o governo não decidiu se conclui ou não a usina de Angra III, cujos equipamentos, avaliados em US$ 500 milhões, estão comprados desde os anos 80. Só para acondicioná-los adequadamente gastam-se US$ 20 milhões por ano. Para concluir a usina seriam necessários mais US$ 1,8 bilhão. A partir de setembro, para animar a idéia de Angra III, as ultracentrifugadoras brasileiras passam a produzir urânio enriquecido em escala industrial. É o que deixa os americanos mordidos.

Colaborou: Gustavo Gantois