Economia

SEM PLANO B


Em seis horas de debates na Comissão Econômica do Senado, na terça-feira passada, o ministro da Fazenda exibiu as virtudes que já se conhecem. Articulado, sereno, Antônio Palocci discorreu inteligentemente sobre a economia e resumiu seu depoimento com uma frase lapidar: ?A política econômica não vai mudar, não pode mudar e não deve mudar?. A visão do ministro é que a repetição da virtude fiscal e da austeridade monetária levará o País, cedo ou tarde, ao crescimento que a economia reclama. Qualquer mudança de rumo seria fatal. ?O compromisso fiscal é o pilar fundamental?, repisa. Em outras palavras, o ministro diz que não há Plano B. O que o País terá no futuro é o que ele tem no presente. ?Quando o Palocci diz que não haverá mudança, apenas aumenta o custo que o mercado imporá na hora que ela vier. A mudança é inevitável?, critica o economista Ricardo Carneiro, da Unicamp.

Parece que o ministro Palocci e o presidente Lula não enxergam outra saída para o Brasil além da confiança cega nos mercados. Juram que isso é um plano de longo prazo, mas a experiência dos últimos quatro anos de FHC sugere que não passa de uma crença e, na verdade, talvez não seja mais que um palpite. O fato incontestável é que o Brasil, sob o atual modelo, não tem controle sobre o seu destino. É um País que vive ao sabor dos ventos. Não é por outra razão que, entre uma desculpa e outra, há cinco anos o Brasil não consegue reduzir os juros e voltar a crescer. No ano passado, com novo presidente e a mesma política, a economia brasileira encolheu 0,2%. Na semana passada soube-se que o PIB brasileiro, que FHC sonhava levar a um trilhão de dólares, estacionou em um e meio trilhão ? de reais, equivalente a meio trilhão de dólares. A economia brasileira, que já foi a 8a do mundo, estava na semana passada em 16o lugar, e descendo. Claro, porque enquanto o Brasil definha, outras economias florescem. Enquanto outros aceleram, o Brasil anda para trás. Fomos ultrapassados por Espanha, Índia e Austrália, para citar três países que costumavam ser menores que o Brasil. Estamos rapidamente a caminho de nos tornarmos uma economia de terceira classe. Até a pobre Argentina, usada como espantalho nas eleições brasileiras de 2002, vai fechar este ano crescendo 15% ? é isso mesmo, 15%. Pode-se alegar que isso se deve ao declínio do PIB argentino nos anos anteriores, mas o fato é que o Brasil, que teve redução de PIB em 2003, cresceu apenas 0,9% no primeiro trimestre de 2004. Uma miséria. E os economistas do BC avisam que se as taxas de juros caírem como espera o mercado financeiro (chegando a 14% no final do ano), será impossível cumprir a meta de inflação de 5,5%. A mensagem embutida nessa conta é que não haverá novas quedas de juros. Espremam-se, dizem os sadomonetaristas.

?Este ano deveríamos trabalhar com a margem de 2,5% da meta, em vez de ficar presos ao núcleo?, sugere Horácio Piva, presidente da Fiesp. ?Isso não pode ser tratado como coisa sagrada.? Admirador de Palocci, defensor do superávit de 4,25% (?temos um Estado que gasta demais?), o líder dos industriais paulistas está no barco dos que pedem ousadia ao ministro. Na outra ponta da representação de classe, Luiz Marinho, presidente da CUT, dá o mesmíssimo recado. ?Modelo econômico de sucesso é o que gera emprego e aumenta a renda. O resto é paliativo?, diz ele. O sindicalista exige para o crescimento e o emprego a mesma prioridade que os modelos econômicos da Fazenda dedicam à inflação. Em outras palavras,
o que agentes econômicos estão dizendo ao governo é que no
final do arco-íris da recessão só há o pote de ouro dos banqueiros. E que o resto do Brasil também quer ser feliz.