Economia

GUSHIKEN FOI SÓCIO DE WALDOMIRO


Desde que eclodiu o escândalo Waldomiro Diniz, o governo Lula tem se esforçado para demonstrar que o ex-assessor do Palácio do Planalto, flagrado em vídeo pedindo propina a um bicheiro, é uma espécie de estranho no ninho do PT, que teria chegado ao poder de forma acidental. No entanto, documentos obtidos com exclusividade pela DINHEIRO revelam que, dez anos atrás, Waldomiro já mantinha relações societárias com um dos homens fortes do partido. Em 1994, ele foi sócio do ministro Luiz Gushiken, titular da Secretaria de Comunicação Estratégica (Secom), numa fazenda avaliada em R$ 650 mil. Naquela época, Waldomiro e Gushiken faziam parte da Associação Fraterna Mundo Novo, cujo objetivo era criar uma sociedade alternativa, próxima à natureza e aos valores espirituais. Seus membros se tratavam como ?irmãos?. Em 1986, a Associação comprou terras na cidade de Cavalcante, em Goiás, onde foi criada a Comunidade Mundo Novo, numa fazenda de 605 alqueirões, que equivalem a quase três
milhões de metros quadrados. Em 1994, a associação contava
com 19 sócios. Entre eles, Gushiken e Waldomiro. Hoje, restam apenas oito e as atas das reuniões da sociedade estão registradas
no livro B-3 de Registros do Cartório de Títulos e Documentos
de Cavalcante. A escritura pública da compra da fazenda é a de número 1.3421, de 13 de fevereiro de 1986.

 

Luiz Gushiken é o terceiro membro do chamado ?núcleo duro? do poder a ter seu nome associado ao caso Waldomiro Diniz. O primeiro foi o ministro da Casa Civil, José Dirceu, responsável pela nomeação do assessor. Depois, foi a vez de Antônio Palocci, da Fazenda, quando se revelou que Waldomiro havia pedido a representantes da multinacional Gtech a contratação de um ex-secretário do ministro por US$ 20 milhões. Gushiken, ao saber dos documentos obtidos pela DINHEIRO, sorriu. Disse a um de seus assessores que isso faz parte de um passado distante, em que ele ainda tinha os cabelos compridos. ?Era minha fase de loucura?, disse o ministro. No entanto, ele não quis comentar a presença de Waldomiro na sociedade e pediu a Emerson Menin, atual presidente da Associação Mundo Novo, que explicasse o caso. ?O Waldomiro foi nosso sócio durante um curto período?, disse Menin à DINHEIRO.
Ele explicou que Waldomiro comprou uma cota por US$ 3 mil, mas pagou apenas um terço do total. Como não honrou os compromissos, acabou excluído da sociedade. ?Ele era muito querido entre nós e,
se tivesse pago sua cota integralmente, seria nosso associado até hoje?, disse Menin. ?Mas o Gushiken nunca soube que o Waldomiro
era sócio porque não fazia parte da diretoria.? Menin afirma que a fazenda não é um negócio, mas sim um clube, e disse que os sócios não têm qualquer responsabilidade se um dos membros ?rouba ou mata?. O ministro Gushiken, por sua vez, associou-se à comunidade em 1990, quando era presidente nacional do PT. Desde então,
nunca deixou de honrar uma única mensalidade, hoje em R$ 400,00.
O que mais atrai Gushiken à fazenda de Cavalcante, localizada
na Chapada dos Veadeiros, são as monumentais cachoeiras da
região, que formam o Vale da Lua. Em 2004, o ministro já foi
ao local para se banhar três vezes.

Gushiken não é o único petista a fazer parte da comunidade esotérica que, dez anos atrás, teve Waldomiro como sócio. O próprio Emerson Menin foi assessor de Gushiken durante a Assembléia Constituinte de 1988. Hoje, ocupa o cargo de coordenador de Gás e Energia na Petrobras, mas está lotado em Brasília e despacha na Secom. Outro membro da Associação Mundo Novo, José Vicentine, é também assessor de Gushiken. E o ?irmão? Luiz Antônio de Mello Rebello, por sua vez, assessora o senador Aloizio Mercadante (PT/SP). Para os líderes da oposição, que há dois meses tentam em vão instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso para apurar o caso, a revelação
da sociedade entre Waldomiro e alguns membros do PT deu-lhes um novo ânimo.
?Isso prova que o Waldomiro é um operador e uma peça central no esquema de poder do governo Lula?, acusa o deputado Jutahy Magalhães (PSDB/BA).

A Associação Mundo Novo começou a ser concebida na cidade de Porto Ferreira, no interior de São Paulo, onde Emerson Menin e José Vicentine residiram no passado. O mentor do grupo era o médium espírita Antônio Marcelino, que, em 1984, fundou uma sociedade chamada Associação Fraterna Filhos da Mesma Luz. Marcelino chegou a morar em Cavalcante, mas depois se desapontou com o ?materialismo? que havia tomado conta do grupo. Hoje, ele administra uma loja de brinquedos e cuida de um asilo, o Solar dos Jovens de Ontem, em Porto Ferreira. Outro empresário da cidade paulista, o fazendeiro de laranjas Osmar Giacon, também foi um dos precursores da Associação Novo Mundo. ?Saí de lá quando percebi que os valores já não eram os mesmos?, disse Giacon à DINHEIRO. Em vez de um aprimoramento espiritual, os sócios estariam, segundo Giacon, mais interessados em criar gado e ganhar dinheiro. ?Nem quis receber de volta o que eu tinha investido na fazenda.?

Quando os conflitos entre os sócios tornaram-se mais freqüentes, já em 1994, ano em que Waldomiro Diniz fazia parte do grupo, a Associação Mundo Novo aprovou uma curiosa mudança em seu estatuto social. Aprovou artigos coerentes com a linha de um partido de comando centralizado. Deliberou-se que ?nenhum sócio pode falar mal de outro em sua ausência?. Além disso, ?qualquer sócio que tiver posse de informação comprometedora contra outro sócio ou dependente, deverá procurar a outra parte interessada para esclarecer e dirimir as dificuldades?. Por último, definiu-se que, não havendo entendimento entre as partes, ?o sócio deverá encaminhar o problema ao conselho?. O descumprimento das regras sujeitaria o associado à expulsão da comunidade.

 

Ocorrência policial. Situada a 320 quilômetros do centro de Brasília, a fazenda Mundo Novo é uma rota obrigatória para todos os turistas que vão à Chapada dos Veadeiros. Por lá, passam dois grandes rios e há dezenas de nascentes. Como algumas das principais cachoeiras ficam dentro da propriedade, muitos turistas pagam uma taxa simbólica para entrar na fazenda. Na virada do ano, alguns deles recusaram-se a pagar o valor e alegaram que teriam sido ameaçados por Menin. Prestaram queixa na delegacia local. Menin também registrou um boletim de ocorrência. ?Estou esperando que as vítimas voltem a Cavalcante para dar andamento às investigações?, disse à DINHEIRO o delegado de Cavalcante, Victor Marin. ?Não sofri nenhuma pressão política para abafar o caso.?

Luiz Gushiken, embora não se envolva diretamente com o dia-a-
dia da fazenda, ainda mantém os ideais religiosos do passado. O ministro é adepto de uma prática de fé iraniana, derivada do zoroastrismo persa. Além disso, durante o Carnaval, o ministro viajou com a família a Israel para uma peregrinação mística. Os antigos sócios da Associação Mundo Novo de Porto Ferreira que o conheceram recordam-se de um homem calmo, quase zen, disposto a criar uma sociedade igualitária. Quanto ao ?irmão? Waldomiro Diniz, ficou apenas a lembrança de um calote.