Economia

A EMPREITEIRA DO PODER


O nome é pequeno, Via, um monossílabo entre gigantes como Andrade Gutierrez e Odebrecht. Mas há uma década que a Via Engenharia vem sendo a sensação das empreitadas. Com sede em Brasília e obras em 14 Estados, o grupo cresce a taxas de 15% ao ano, feito único no problemático mercado da construção. Com excelentes relações no poder, a Via criou um braço para administrar concessões de rodovias e acabou sócia em 7% da CCR, a holding gigante formada pelas seis maiores empreiteiras do País para administrar a Via Dutra, a Anhangüera-Bandeirantes e a Ponte Rio-Niterói. O grande salto ocorreu em 2001, quando fechou uma sociedade em 50% com a Dragados, a maior construtora da Espanha e terceira da Europa. Hoje a Via-Dragados é a oitava empreiteira do País e toca 45 grandes obras, como o metrô de Belo Horizonte e o Anel Viário de Campinas. Pois a empresa cresceu tanto que agora está se dividindo. Na semana passada, depois de 24 anos juntos, os dois sócios fundadores, Fernando Queiroz e José Celso Gontijo, começaram a trabalhar em construtoras diferentes. Queiroz ficou com a marca Via, que agora se chama Via Empreendimentos Imobiliários e já nasce como a 12ª maior do País no ramo. ?Vamos crescer uns 25% este ano?, anuncia Fernando Queiroz. Gontijo recebeu do antigo parceiro cerca de R$ 240 milhões e fundou uma nova empresa, a J.C.Gontijo Engenharia. ?Para mim, a crise vai passar longe?, festeja Gontijo. Os dois serão concorrentes no mercado de imóveis de luxo, mas permanecem sócios na Via-Dragados, 25% para cada ? o comando fica com os espanhóis.

 

A cisão da Via surpreendeu o mercado ? especialmente porque o divórcio não está sendo amigável. ?Tivemos brigas e discussões, como qualquer casal que está junto há mais de 20 anos?, confessa Gontijo. Queiroz acrescenta, já como concorrente: ?Se você joga no Flamengo, tem que meter o ferro no Vasco.? As duas novas empresas foram inauguradas no mesmo dia, quinta-feira 25. Cerca de 500 convidados, entre autoridades da República e socialites da corte, desdobraram-se para aparecer nas duas festas. Os dois empreiteiros combinaram contar em público a versão de que a separação se deu por conta dos filhos de ambos. Queiroz tem dois filhos engenheiros, ambos com vocação para obras. Gontijo tem três filhas. Além disso, os dois estão encarando de forma oposta a chegada à terceira idade. Queiroz tem se dedicado cada vez mais a cuidar das 25 mil cabeças de gado que mantém nas imediações de Brasília. Saboreia bons vinhos, charutos e leilões de arte. Gontijo, por outro lado, cultiva a fama de workaholic. ?Minha mulher reclama que eu não tiro férias?, diz. Segundo os amigos, a postura pessoal de um estaria incomodando o outro. O ponto que mais pesou, contudo, é a forma como cada um está encarando as relações com o poder. Queiroz estaria com horror de governo, qualquer que seja ele. Já foi muito bom nisso. ?Agora só quero me dedicar a obras privadas?, diz. Já Gontijo continua ligado nas grandes obras públicas. Durante as negociações para levar a concessão da Anhangüera-Bandeirantes, por exemplo, durante o governo de Mário Covas, Gontijo vendeu por preço simbólico quatro apartamentos de quatro quartos, em Brasília, para o corretor José Lírio Aguiar, que na época freqüentava a intimidade do Palácio dos Bandeirantes. A gota d?água da separação foi a construção da Ponte JK, que liga a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ao bairro do Lago Sul. Ao longo de 2002, a dupla construiu a ponte a toque de caixa. Receberiam R$ 170 milhões pela obra, mas o governo teve que atrasar os pagamentos por problemas no orçamento. Gontijo quis tocar a obra com dinheiro da própria empresa; Queiroz foi contra. Gontijo então tirou R$ 28 milhões do bolso. ?Não gosto de deixar meus compromissos no meio do caminho?, disse Gontijo. Ao falar do episódio, Queiroz não confirma, nem desmente. ?Se o José Celso contou isso a vocês, é problema dele.?

Queiroz e Gontijo têm grandes planos para 2004. Ano passado Queiroz lançou 495 apartamentos de luxo ou para a classe média em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Vendeu R$ 173 milhões. Para este ano, prepara o lançamento de mais 1.316 unidades nas três cidades. Espera faturar R$ R$ 276 milhões. À frente da nova construtora, Gontijo quer buscar o nicho da classe média alta. Só este ano, vai lançar quatro empreendimentos. Há um condomínio na Barra da Tijuca, Rio, com investimentos de R$ 100 milhões. O lançamento mais ousado é um condomínio fechado a 15 minutos de Brasília, um complexo de 15 torres e 85% de área verde, inspirado nos empreendimentos de luxo de Miami. Mesmo separados, tudo indica que vão continuar em alta.