Economia

PROCURA-SE UM GOVERNO


 

O Brasil viveu a semana passada em estado de perplexidade. A tempestade começou na segunda-feira quando o ministro José Dirceu, principal articulador do governo, deu uma entrevista disparando para todos os lados (veja reportagem à pag. 32). No mesmo dia, Luiz Furlan, do Desenvolvimento, queixou-se da burocracia do governo diante de uma platéia paulista e foi ovacionado ? dias depois do outro ministro-empresário de Lula, Roberto Rodrigues, da Agricultura, ter impunemente chamado de ?vagabundo? seu colega do Planejamento, o economista Guido Mantega. Na ausência de uma voz de comando que impusesse ordem, recrudesceram sem controle as greves nos aeroportos, na Receita Federal e no INSS. A oposição sindical, sentindo cheiro de sangue, ganhou as ruas exigindo mudança, enquanto o Planalto, estupefacto, era incapaz de reagir quando a rebelião no porto de Paranaguá ameaçou lançar as estradas do Sul em anarquia. Àquela altura, o vetusto Financial Times, de Londres, achou por bem registrar que o bate-boca em Brasília havia atingido padrões de jardim da infância. Parecia que o governo, que desde a denúncia do caso Waldomiro movia-se em câmara lenta, agora estava caído de bruços a menos da metade do seu mandato.

 

Na quarta-feira, quando se imaginou que o fundo do poço tinha sido alcançado, deu-se uma mudança de qualidade da crise: ela saltou da política para a economia, tornando-se ainda mais grave. Isso ocorreu com a divulgação de uma declaração do PMDB ? o partido mais numeroso da base do governo ? condicionando a continuidade do seu apoio à mudança da política econômica. O documento do partido, redigido por economistas, pediu redução da carga tributária, correção da tabela de imposto de renda, queda mais rápida dos juros e definição de um programa de investimentos. Parecia, e era, um pedido para que o governo efeivamente começasse. A ele, num frenesi de reivindicações, seguiram-se as exigência dos outros partidos que dão apoio ao PT. Estes queriam liberação de verbas para atender emendas parlamentares e um naco mais generoso dos cargos federais. O governo assentiu, liberando uma quantia que pode ser superior a R$ 1 bilhão. Antes, porém, numa evidência de que a aliança parlamentar que sustenta o governo estava fazendo água, foi retirada da pauta a medida provisória que proíbe o funcionamento dos bingos. Havia a suspeita de que ela seria derrotada. Quando a quarta-feira negra terminou, haviam ocorrido cinco reuniões na sala de Lula, o ministro Dirceu estivera muito perto de ser demitido e os mercados, excitados com os boatos, tinham derrubado a Bolsa, levantado o dólar e elevado em 33% o risco Brasil. Às duas da manhã de quinta-feira, ao apagar-se a luz na sala do presidente Lula, pairava sobre o Brasil a sensação paradoxal de falta de governo. ?Se há uma crise, a crise é de autoridade. E se pudermos dar nome à ela, o nome da crise é Lula?, resumiu, à queima-roupa, o senador Jorge Borhaunsen, do PFL.

No cadinho da crise que assola o País parece haver mais do que a suposta falta de liderança do presidente. A rigor, o que está ocorrendo é uma confluência de problemas que começaram antes mesmo do 13 de fevereiro, quando explodiu a denúncia contra o assessor de Dirceu. A insubordinação dos ministros-empresários, por exemplo, reflete a impaciência das chamadas classes produtivas com a lentidão do governo. Furlan, o paladino das exportações, não consegue apoio em seus pleitos de modernização de infra-estrutura e redução de cargas tributárias. Tromba o tempo todo com o fiscalismo da Fazenda, que prevalece. Rodrigues, capitão da área que mais cresce na economia, não tem autonomia para desfazer a greve de fiscais sanitários que paralisou exportações de soja ? e por isso perdeu a paciência com Mantega. O próprio Lula, ao discutir com seus auxiliares o destempero de Rodrigues, lembrou que ele ?vinha da iniciativa privada, e tinha pressa?. O governo, está ficando claro, sofre de baixa qualidade de gestão e de deficiência de quadros. Na semana passada, por exemplo, a ministra Dilma Rousset anunciou que ?até o final do ano? estará pronto o marco regulatório que definirá os urgentes investimentos no setor de energia. Se o prazo for cumprido, terão sido dois anos para preparar algo de que o País precisava para ontem. E há mais exemplos desse tipo. A política industrial não saiu, as Parcerias Público Privadas não avançam, os planos para criação de empregos derrpam ridiculamente ? isso para não falar das políticas sociais, que se transformaram no Calcanhar de Aquiles da gestão do PT. ?O País está sofrendo com a inexperiência do governo?, disse à DINHEIRO, na semana passada, um grande empresário nacional. ?As coisas não andam porque, quando se trata de gestão, falta instrumental ao próprio presidente.? Este mesmo empresário, habitué do Planalto, diz que José Dirceu e Palocci são exceções em um ministério sem luzes. Por isso, a presente debilidade de Dirceu faz tão mal ao País. ?Os investimentos em infra-estrutura estão totalmente paralisados?, reforça Adilson Primo, presidente da Siemens. ?Falta uma posição clara do governo de como investir em infra-estrutura.? Na semana passada, quando a dissensão explodiu na Esplanada, o governo tentou substituir com centralismo leninista a ordem natural dos organismos que funcionam. Luiz Gushiken, secretário de Comunicação, saiu dizendo que as pessoas, ao converterem-se em ministros, deveriam fazer voto de silêncio e abrir mão da capacidade crítica. Para superar a crise, ele prometeu ao presidente gastar R$ 8 milhões adicionais — em propaganda.

PROTESTO A oposição sentiu a apatia do governo e ganhou as ruas, reforçando a sensação de vácuo no poder
Luiz Carlos Mendonça de Barros, o economista e empresário tucano, diz que o PT está colhendo os frutos de um erro brutal de diagnóstico. O partido, segundo ele, deu muita atenção à formação de uma base parlamentar e esqueceu-se de duas coisas igualmente vitais: um plano claro de governo e a montagem de uma estrutura administrativa capaz de executá-lo. ?A base parlamentar é necessária, mas não suficiente para tocar o governo?, diz ele. Outro observador experiente, o ex-ministro Delfim Netto, urge o governo a ?esquecer o Banco Central? e ?retomar uma visão de crescimento?. Isso significa atrair investimentos externos e usar o BNDES com eficiência, para estimular as vantagens comparativas da indústria brasileira. ?Está faltando imaginação ao governo?, lamenta o deputado. Os números recorde de desemprego e da queda de renda divulgados na semana passada (veja reportagem à pág. 38) mostram que falta, também, uma estratégia macroeconômica que produza felicidade. Enquanto ela não existir, enquanto não houver crescimento, o governo Lula seguirá à mercê de qualquer Waldomiro que apareça por aí.

O BRASIL QUE NÃO ANDA
Caminhões parados e greves por
toda a parte. Eis o retrato do País
FILAS NO PORTO
A greve em Paranaguá produziu uma fila de 6,5 mil caminhões, que chegou até Curitiba. Os navios não conseguiram atracar e os prejuízos foram superiores a US$ 50 milhões. Impacientes, caminhoneiros ameaçaram despejar a soja na estrada.
CAOS NOS AEROPORTOS
Em greve há mais de duas semanas,
os policiais federais produziram filas
nos principais aeroportos do País. Executivos que viajam a negócios e turistas esperaram horas para embarcar.

GREVE NO INSS
A paralisação nacional dos funcionários do INSS, que pedem um reajuste salarial de 47,1%, deixou 73 mil idosos nas filas em todo o País. Nenhum deles conseguiu sacar os recursos das pensões e aposentadorias.