Economia

CADÊ O MEU EMPREGO?


Na manhã de quarta-feira 24, o Dieese, responsável pelo mais conhecido levantamento sobre emprego em São Paulo, divulgou um novo recorde negativo da economia brasileira. Em fevereiro, informou o instituto, o desemprego na região metropolitana de São Paulo atingiu 19,8% da população economicamente ativa. Em números absolutos, são 1,9 milhão de pessoas desempregadas no centro dinâmico da economia do País. É o pior número para um mês de fevereiro desde que as pesquisas começaram, em 1985. Este tipo de recorde, que já está se tornando corriqueiro, veio acompanhado, desta vez, de um timbre adicional de alarme. É que uma outra pesquisa, desta vez patrocinada pela secretaria de Trabalho da Prefeitura de São Paulo, mostrou que o desemprego agora atinge em cheio um grupo que se sentia imune a esse drama ? a classe média. De acordo com os números divulgados pelo secretário Marcio Pochmann, que se baseiam em dados nacionais do IBGE, o desemprego na classe média alta cresceu 50% entre 1992 e 2002. Isso nunca tinha ocorrido antes. ?A explicação para o desemprego costumava ser a falta de qualificação?, diz Pochmann. ?Agora, essa justificativa já não serve.? Para cada trabalhador analfabeto sem emprego em São Paulo, há três universitários procurando trabalho,
diz o secretário paulistano. Outro estudioso do assunto, o professor José Pastore, da USP, percebe a mesma mudança. ?O desemprego está subindo a escala social?, diz ele. ?Os dados mostram que engenheiros, arquitetos, economistas e advogados também já não encontram colocação.?

Instalou-se na classe média a mesma sensação de insegurança e falta de perspectiva que povoa a vida dos mais desqualificados há pelo menos uma década. ?Procuro emprego todos os dias há 14 meses?, diz o publicitário Rodrigo Moreno. ?Imaginava que tendo curso superior eu nunca teria esse tipo de dificuldade, mas me enganei.? Aos 25 anos, Moreno nunca teve um emprego fixo. Vive de trabalhos temporários desde que deixou a faculdade e conta que, da sua turma na escola, a metade está como ele. A explicação para esse fenômeno, dizem os especialistas, está na mudança do perfil do emprego no Brasil. Segundo o estudo de Pochmann, de cada dez postos de trabalho abertos no País, sete são para empregos que exigem baixa qualificação (como serviços domésticos), que pagam baixos salários. Os empregos mais qualificados ficam no exterior, em países com maior nível tecnológico e, conseqüentemente, maior produtividade. Para o secretário, o Brasil sofre com uma nova divisão internacional do trabalho. ?Países que investem mais em tecnologica geram mais postos de trabalho, com mais qualidade e salários melhores?, afirma Pochmann. Essa diferença aparece com clareza nos indicadores mundiais de emprego. Dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que, embora o desemprego mundial tenha saltado de 45 milhões para 160 milhões nos últimos 20 anos, a participação dos países mais ricos no desemprego global caiu de 27,5% para 11,5%.

 

Os cortes de vagas atingiram, indiscriminadamente, todos os setores da economia. A indústria automobilística, um dos motores do desenvolvimento brasileiro, tinha 140 mil empregados no início dos anos 80 e uma capacidade de produção de 1,5 milhão de veículos. Naquele tempo, não havia mais do que dez montadoras instaladas no Brasil. Hoje são 49 fábricas, de 19 marcas diferentes, com uma capacidade de produção de 3,2 milhões de veículos. Entretanto, o número de empregos na indústria não chega a 92 mil. Nem mesmo o setor bancário, que encheu seus cofres nos últimos anos, manteve o número de postos de trabalho. Segundo dados da consultoria de recrutamento de executivos Fesa, a indústria bancária tinha 1,2 milhão de empregados no início dos anos 90. Atualmente, emprega 400 mil. ?Os cortes aconteceram em todos os níveis?, diz Alfredo Assumpção, presidente da Fesa. ?Nem mesmo quem tinha uma posição de alta ou média gerência ficou de fora?. É o caso do ex-bancário Ulisses Suzano, de 45 anos, demitido do Banespa há cerca de um mês. Suzano trabalhou durante 26 anos no banco. Começou como escriturário, foi caixa, chefe de serviços, supervisor, gerente e, nos últimos tempos, trabalhava como assistente de diretoria. Casado, com três filhos, Suzano tinha um salário bruto de R$ 5.800 ? que, pelos critérios do IBGE, garantia o status de classe média alta no Brasil. Ainda se recuperando do trauma da demissão, ele sabe das dificuldade de conseguir uma recolocação. ?Vou tentar um novo emprego, mas sei que o mercado está difícil?, afirma Suzano. ?Se não conseguir, vou buscar uma nova alternativa?.

Muitos não conseguem. Nas agências de emprego e recolocação, a fila de interessados é bem maior que a lista de vagas. ?Estou atendendo atualmente 80 executivos, número 30% maior que há dois anos?, diz Gutemberg Macedo, presidente da Gutemberg Consultores, empresa especializada na recolocação de executivos. A grande maioria desses desempregados, aponta o consultor, é de profissionais com boa formação acadêmica, na faixa entre 40 e 45 anos, fluente em dois ou três idiomas. Muitos têm MBA e experiência profissional no exterior. Mesmo assim, têm dificuldades de conseguir um novo emprego. ?A realidade não é de queda, mas de aumento das demissões em função dos avanços da tecnologia e da exportação de empregos para outros países?, observa Macedo.

A chamada exportação de empregos nada mais é do que o fechamento de postos de trabalho em um país e sua transferência para outro, a custos mais baixos e com ganho de produtividade. De acordo com o professor Pastore, esse é um problema ainda incipiente por aqui, mas já há sinais de que deve se agravar nos próximos anos. ?Já há exportações de serviços gráficos do Brasil para o Chile e Hong Kong?, afirma Pastore, que avalia o fenômeno como uma conseqüência da globalização. ?Se o mundo se globalizou, por que o mercado de trabalho ficaria de fora??, questiona. A situação do emprego no País, que não é nada boa, ainda pode piorar.