Economia

TRT, O DELÍRIO DE PORTAS ABERTAS


Depois de 12 anos de gestação, ganha forma final nesta segunda-feira 22 e começa a operar o elefante branco que consumiu US$ 197 milhões dos cofres públicos e elevou o juiz Nicolau dos Santos Neto à condição de símbolo número uma da corrupção nacional. Está pronto, finalmente, o Fórum das Mil e Uma Noites, apadrinhado por Lalau. O nome oficial do tribunal é Ruy Barbosa, mas em cada um de seus 19 andares de concreto aparente, vidros espelhados e telhado translúcido ele lembra o estilo nababesco de seu criador.

Com mais de 50 metros de altura, o novo Fórum é a maior construção que pode ser observada num raio de dois quilômetros à sua própria volta, no humilde bairro da Barra Funda, em São Paulo. Em tudo ele destoa da paisagem de galpões abandonados, terrenos baldios e residências mal conservadas das vizinhanças. Outro paradoxo é que, com todo a pompa que irá abrigar à chegada dos juízes das 79 Varas de Justiça Trabalhista em suas dependências, o edifício foi feito para servir a milhares de trabalhadores humildes e desempregados crônicos que para lá terão de se dirigir, obrigatoriamente, no momento de reclamar seus direitos. ?Todo o processo de construção deste prédio foi uma vergonha?, reconhece a juíza Maria Aparecida Pellegrina, que hoje ocupa a presidência do Tribunal Regional do Trabalho, o mesmo TRT a partir do qual Lalau aplicou seu golpe de desvio de verbas. ?O que aconteceu no passado foi lamentável, mas a partir de agora esta passa a ser a casa do trabalhador?.

GRANDIOSIDADE Ferro e
vidro decoram o teto do prédio
E que casa! Seu custo total, após todo o escândalo e a retomada das obras, é de R$ 422 milhões. Significa que o metro quadrado do prédio ficou em R$ 4,8 mil. ?Caríssimo?, define o engenheiro Eduardo Zaidan, vice-presidente do Sindicato da Construção Civil de São Paulo. Para efeito de comparação, um metro quadrado de construção residencial de padrão médio na capital paulista tem seu preço final estimado em R$ 820 pelo Sinduscon, ou seis vezes mais barato do que o valor final encontrado no fórum. Uma construção média comercial fica ainda mais em conta, R$ 627. Em benefício do trabalho policial em torno do escândalo, sabe-se que cerca de R$ 2,4 milhões do produto do desvio de verbas foram recuperados aos cofres públicos. Um dinheiro recebido pelo leilão, dois anos atrás, de um apartamento em Miami arrematado por US$ 825 mil dólares. Era lá que Lalau costumava passar suas férias. Todo o restante dos R$ 197 milhões desviados continuam ao vento, longe do arresto da justiça brasileira. Essa briga entre a União e os cinco personagens acusados pelo roubo, entre os quais o empreiteiro Luiz Estevão, não tem previsão para terminar.

O novo fórum foi concebido para bater todos os recordes de uso de mármore travertino e granito de primeira tão ao gosto dos tribunais trabalhistas espalhados pelo País. Exatamente para suavizar esta imagem, os engenheiros da construtora OAS, vencedora da licitação aberta dois anos atrás para a retomada da obra, receberam ordens expressas dos técnicos do Banco do Brasil, que fiscalizou a fase final da construção, para economizar em materiais de acabamento. A tarefa foi apenas parcialmente cumprida. Por fora, com seus ferros contorcidos à frente de centenas de placas de vidros espelhadas, não há, definitivamente, nenhuma possibilidade de ver nele um prédio espartano ou, como prefere a juíza Pellegrina, ?franciscano?. Por dentro, para alguns, ele desperta a lembrança das grandes repartições públicas, com forração básica nas salas de audiência e divisórias de gesso entre os cômodos. A iluminação é embutida no forro e comandada, assim como o ar condicionado, por um sistema de liga-desliga automático. O Fórum do Lalau abre as portas dividido entre a opulência dos gastos na sua estrutura e a sisudez na decoração. A Justiça para os trabalhadores tem nova casa.

TRT: AS OBRAS FORAM INICIADAS EM 1992
20.000 PESSOAS
deverão visitar diariamente o
novo fórum em São Paulo
79 VARAS serão alocadas
a princípio nos 19 andares do
prédio da Justica do Trabalho
R$ 422 MILHÕES é o
gasto total, incluindo a primeira
e a segunda fase da obra