Economia

ENQUANTO BRASÍLIA DORMIA


Inebriada pela crise política, vivendo o pesadelo do caso Waldomiro, a capital do País passou a enfrentar dias de pressão econômica sem precedentes na era Lula ? que extrapolaram para pedidos de demissão do ministro Antônio Palocci, rebelião tributária de governadores, desacordo entre projetos de investimentos de ministros e inanição da política monetária. Os partidos aliados exigem mais cargos. Prefeitos fazem arrastão na capital atrás de verbas. Há uma ameaça generalizada de greve no serviço público, com pedidos de aumentos de até 84%, o que pode afetar o Tesouro em R$ 600 milhões. Na Esplanada dos Ministérios, aumentou nos últimos dias o debate dentro da base governista sobre a política econômica de Palocci. O ministro da Casa Civil, José Dirceu, apareceu diante de prefeitos do PT para anunciar que ressurgiu das cinzas. Aproveitou para dizer que a política econômica não muda sem a participação de Palocci. Mas deixou no ar a idéia de que poderia mudar, desde que com Palocci. Em Londres, o ministro da Fazenda defendeu sua própria cartilha para uma platéia de 400 empresários e investidores. ?A estabilidade macroeconômica cria as fundações que permitirão ao Brasil embarcar numa trajetória de desenvolvimento duradouro em 2004?, disse, repetindo seu habitual discurso ? mas sem explicar como, onde, quando ou por que. O problema maior desses discursos é que o governo não consegue avançar da oratória para a adoção de medidas que induzam a retomada do crescimento. Têm sido longas as noites de insônia em Brasília. Eis alguns fatos visíveis:

 

? Dois diretores da multinacional Gtech apareceram na Polícia Federal para contar uma istória escabrosa sobre um antigo assessor de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto. Chama-se Rogério Buratti e foi demitido há dez anos da Prefeitura sob suspeita de corrupção. Segundo os diretores da Gtech, Valdomiro Diniz indicou Buratti para intermediar a renovação do contrato de gestão das loterias que a empresa tem com a Caixa Econômica Federal. O ex-assessor teria pedido R$ 6 milhões pelo serviço. Não apareceu nenhum indício de que o ministro Palocci tivesse algo a ver com a história. Mas uma constrangedora suspeita começou a pairar sobre sua aura.

? Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, o partido do vice José Alencar, instaurou a anarquia na base governista. Aproveitou a cerimônia de posse do novo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, para pregar a demissão do ministro Palocci e de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. ?Palocci pode ser prefeito de Ribeirão Preto, não ministro da Fazenda?, disse. Foi um exagero. No dia seguinte, o PL soltou uma nota desautorizando Valdemar. Mas não retirou uma vírgula do que foi dito.

 

? Numa demonstração da inversão de valores, a política econômica acabou sendo defendida pela oposição. O senador Tasso Jereissati, do PSDB, subiu à tribuna para dizer que a todo o barulho em torno de Palocci é obra dos próprios governistas. ?Afirmo e advirto que a desestabilização do ministro Palocci acarretaria o mais absoluto caos neste momento?. O senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL, também saiu em defesa do ministro. ?A tentativa de desestabilizar Palocci é interna, no próprio governo?.

? Uma marcha de prefeitos passou três dias em Brasília exigindo aumento dos repasses de verbas para merenda escolar, transporte e programas sociais, num pacote que atingem os cofres federais em R$ 12 bilhões. Sitiaram o Congresso, pressionaram o deputado Virgílio Guimarães (PT/MG), relator da reforma, e conseguiram aumentar de 25% para 29% o repasse da CIDE, uma contribuição federal.

 

O governo parece estar sem rumo diante dessas pressões. Na quarta-feira 17, o Banco Central baixou a taxa oficial de juros em 0,25%, fixando-a em 16,25%, uma medida simbólica que não resolve em nada a paralisia da economia. Ao contrário, descontando-se a inflação anual projetada pelo IPCA, o juro real subiu de 9,88% para 10,32%, voltando aos dois dígitos. ?O corte não tem a intensidade que permita no curto prazo alterar esse estado de apatia do mercado interno?, disse Horácio Lafer Piva, presidente da Fiesp. ?Mesmo com a redução, meio ano já está perdido?, atacou o presidente da Abrinq, Synésio Batista da Costa. A primeira medida para que o governo possa produzir crescimento é colocar ordem na cozinha. Pelo menos nessa direção o governo Lula começou a agir e também a esboçar uma reação. ?A oposição é como um ex-marido, que torce para que tudo dê errado quando ele não está mais presente?, disse o presidente. Na terça-feira 16, surgiram indícios de que o núcleo duro do governo se reorganizou em torno do presidente. Dirceu vai segurar as críticas do PT contra Palocci; e Palocci promete flexibilizar sua cartilha ortodoxa. Talvez assim se possa dormir em paz.