Economia

OS REIS DO GADO

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Exposição de gado nelore: Matriz de uma indústria de exportação de US$ 1,5 bilhão

 

O recorde foi histórico. Aconteceu no dia 20 de setembro, em Uberaba, no interior de Minas Gerais. Naquele dia, 50% de todos os embriões que serão gerados por uma única vaca foram arrematados por R$ 1,4 milhão. Isso mesmo: os descendentes de um animal, antes mesmo de serem concebidos, podem valer o mesmo que 100 carros populares. A vaca em questão, da raça nelore, tem um nome estranho. Chama-se ?Pagina FIV? e pertence ao empresário Jonas Barcellos, dono da fazenda Mata Velha. Pagina FIV é considerada uma espécie de Gisele Bündchen do reino animal, um exemplar de elite. O lance milionário que seus embriões receberam, durante a Exposição Internacional do Nelore, é o lado mais espetacular de uma revolução que vem ocorrendo no meio rural. A disseminação de um DNA hiperprodutivo entre o rebanho nacional transformou o Brasil no maior exportador global de carne bovina, ultrapassando gigantes como Argentina e Austrália. A expectativa é que, em 2003, o País fature US$ 1,5 bilhão no
exterior. ?É uma fase extraordinária da pecuária brasileira, com um abate de 40 milhões de animais por ano?, festeja o ex-ministro Marcus Vinícius Pratini de Moraes, agora presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne. Com a expansão das exportações, o campo se firma como um dos únicos celeiros da prosperidade brasileira. Neste ano, a pecuária brasileira, com 170 milhões de cabeças de gado, deverá movimentar R$ 54,3 bilhões. É um setor sem crise e que faz despontar, em várias regiões do Brasil, novos milionários.

Um deles é Jonas Barcellos, de 65 anos. Há 31 anos lidando com bois e vacas, o dono da Brasif, rede de free-shops dos aeroportos brasileiros, orgulha-se de cuidar da fazenda como se administrasse sua cadeia de lojas. ?O setor nunca esteve tão profissional como hoje?, garante Barcellos. Um exemplo dessa modernização é a expansão da prática de melhoramento genético, com as transferências de embriões. Funciona como uma barriga de aluguel. Óvulos fecundados de uma vaca campeã são gerados no ventre de um animal menos nobre. O resultado é que os bezerros que nascem engordam mais rápido e isso encurta em mais de dois anos o tempo de abate. Ou seja: o retorno do investimento chega muito mais rápido. ?Os leilões estão democratizando a genética animal?, diz Barcellos. No último que promoveu, foram negociados R$ 15 milhões em embriões de 37 animais. Ele, que tem um jatinho Citation, embolsou quase R$ 7 milhões. Sua atividade no campo gera um faturamento anual de quase US$ 100 milhões e a fazenda Mata Velha, de 10 mil hectares, é tida como modelo de produtividade. Lá, Barcellos já recebeu o comissário europeu da agricultura, Franz Fischler, que veio ao Brasil em 2001 para averiguar as condições sanitárias da pecuária nacional. Voltou impressionado. Foi também pelas mãos do pecuarista que outros empresários entraram no mundo rural. João Carlos Di Genio, dono das redes de educação Objetivo e Unip, foi um deles. ?Minha família já estava nesse negócio há anos, mas, graças aos leilões, comecei a formar um gado de elite?, disse Di Genio.

 

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Alice Ferreira: “Venci preconceitos e conquistei meu espaço num mundo masculino”

 

A lógica de produzir mais, com qualidade de ponta e custos menores, contagiou os fazendeiros. ?Criar gado de corte é como tocar uma empresa, num mercado muito competitivo?, prega Benedito Mutran Filho, um dos maiores pecuaristas da região Norte do País, com um rebanho de 45 mil cabeças de gado, além de uma produção recorde de castanha do Pará. ?A única forma de lucrar é ter escala de produção?, reforça Antônio José Junqueira Vilela, que fatura por ano R$ 15 milhões com gado — são 65 mil animais nas fazendas de São Paulo e Mato Grosso. Seu plano é chegar a 100 mil cabeças nos próximos cinco anos. Com o melhoramento genético, a produtividade dos animais se multiplica. ?Antigamente, uma vaca tinha 10 crias durante sua vida, mas hoje pode gerar mais de 100 bezerros?, esclarece Luiz Mauro Valadão Queiroz, dono da Bio, uma empresa de transferência de embriões e fertilização in vitro, em Brasília, com clientes em todo o País. O mercado se aqueceu de tal forma que ele não tem agenda para novas transferências até o fim deste ano.

Hoje, a grande sensação da pecuária é a chamada criação de elite, que movimenta um vasto calendário de exposições por todo o País. Nelas, jamais faltam champanhe e uísque 12 anos. A cada semana, os pecuaristas estão em lugar diferente. Em Uberaba, na última exposição, houve até congestionamento de jatinhos no aeroporto local. Eram tantas aeronaves, 50 ao todo, que algumas tiveram de pousar em Uberlândia, a 100 quilômetros de distância. Nesse mundo dos leilões, circulam desde os mais tradicionais produtores do País até os chamados emergentes ? os fazendeiros que acabaram de desembarcar no agribusiness. Muitos têm sobrenomes poderosos. João Aguiar, neto do lendário Amador Aguiar, fundador do banco Bradesco, é um criador de tourinhos. A paixão pelo campo foi herança do avô, que nos anos 60 já investia em gado. Aguiar é ainda um pequeno produtor. Vende em média 200 touros por ano. Mas sua expectativa é faturar cerca de R$ 2 milhões por ano.

Sem preconceito. Nessa nova era da pecuária, até velhos tabus vêm sendo derrubados. As fazendas já não são comandadas apenas por homens. Alice Maria Ferreira, de 55 anos, pode ser considerada a musa do gado nelore. Ela é vice-presidente da Associação dos Criadores e uma entusiasta da raça e da ?família nelorista?. Há 18 anos, Alice cria gado e hoje dedica exclusivamente seu tempo às 2,5 mil matrizes. ?Sofri um certo preconceito, mas conquistei meu espaço?, diz ela, casada com Ronaldo Sampaio Ferreira, ex-controlador do grupo Bombril.

 

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Benedito Mutran Filho: “Criar gado de corte é como administrar uma grande empresa”

 

Apesar de todo o avanço recente, ainda há obstáculos a serem superados. Estados Unidos e Ásia protegem seus mercados e estão fechados à carne brasileira. A desculpa é o fato de o Brasil ser uma área livre de aftosa ? mas apenas com vacinação. Por trás da barreira sanitária estão os subsídios aos fazendeiros de lá. A expectativa de Pratini de Moraes, da associação dos exportadores, é que essas barreiras sejam derrubadas nos próximos anos. Há entraves também no mercado europeu. Na Suíça, por exemplo, cada vaca recebe uma quantia de US$ 5 mil por ano em subsídios. Na semana passada, Pratini esteve na Europa para ?vender? a carne brasileira. Passou por dezenas de supermercados para investigar se ela está ganhando mercado. Encontrou o produto nacional até nas prateleiras da Estônia. Hoje, os europeus estão cada vez mais interessados no produto do País. Depois do surto da vaca louca na Europa, em 2000, o boi brasileiro, alimentado no pasto, passou a ser visto com bons olhos. Foi nessa época que as exportações brasileiras tiveram um empurrão. Além disso, surtos de aftosa no Uruguai e na Argentina colocaram o País na linha de frente. E se depender dos novos reis do gado, e de seus investimentos em tecnologia, o Brasil vai continuar na liderança mundial por muitos e muitos anos.