Economia

O PLANO MENDONÇÃO

Na sala íntima do seu escritório na Vila Olímpia, em São Paulo, o engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros senta-se para fumar seus cachimbos numa ampla poltrona de couro sob dois pequenos quadros: um auto-retrato e um folheto emoldurado em que se comemora a maior privatização da história da América Latina, a da telefonia brasileira. São seus troféus. Nos últimos anos, ninguém vendeu tantas estatais quanto ele. Privatizou o sistema Telebrás, quando esteve no Ministério das Comunicações, e várias distribuidoras de energia, na época em que chefiou o BNDES. Na telefonia, quase tudo deu certo. A oferta cresceu e o Brasil recebeu bilhões em investimentos. Na energia, o resultado foi desastroso. As tarifas dispararam, os serviços pioraram, os investidores perderam dinheiro e alguns, como a americana AES, já não pagam mais suas dívidas. Diante desse quadro, Mendonção, que se define como um homem prático, tem a solução na ponta da língua. ?A saída é dar um passo atrás e reestatizar o setor?, disse à DINHEIRO. Para Mendonção, mesmo que o BNDES acabe sendo forçado a contabilizar perdas financeiras, não há outra saída. ?O que não tem solução, solucionado está?, avalia. ?Os bancos nem sempre acertam; às vezes ganham, às vezes perdem.? Sua tese parte do princípio que os compradores desembolsaram nos leilões muito mais do que as empresas valiam. Por isso, não colocarão dinheiro novo no setor, nem pagarão o que devem ao governo. Outros investidores privados dificilmente aparecerão. ?Como o Brasil não pode ficar no escuro, só tem um jeito: voltar tudo para o Estado?, avalia.

Como se trata de uma saída pragmática, Mendonça de Barros
diz que o governo Lula não deve se intimidar diante de
possíveis reações negativas no mercado internacional. ?Eles
têm de dizer lá fora que estão solucionando um estrago feito
por um governo de direita?, diz Mendonção. Na sua avaliação, o grande erro da era FHC foi confiar a gestão do setor elétrico
ao PFL, especialmente ao núcleo comandado pelo senador baiano Antônio Carlos Magalhães. ?Misturaram ideologia com fisiologia, livre mercado com acarajé?, avalia. O modelo do setor acabou sendo desenhado pela consultoria Coopers & Lybrand, que tentou reproduzir no Brasil um desenho institucional que também fracassou nos Estados Unidos. Depois, com a crise do apagão, em 2001, o consumidor mudou seus hábitos, economizou, e o mercado das empresas de energia encolheu em 30%. Por fim, a disparada do dólar foi o golpe final num setor em que grande parte dos insumos ? como a energia comprada de Itaipu ? é dolarizada.

Embora o caminho proposto por Mendonção seja parecido com o que vem sendo desenhado pelo governo Lula, o ex-presidente do BNDES mantém a língua afiada e não poupa críticas aos técnicos do PT. A ministra Dilma Roussef? ?Tem uma visão muito ideológica e não sei se possui a compreensão real do problema.? Carlos Lessa, do BNDES? ?Não conseguiu sequer pagar a conta de luz da UFRJ quando era reitor.? Seu temor é que o PT reestatize o setor desordenadamente, sem criar um novo marco regulatório que seja capaz de incentivar mais investimentos no setor. ?O momento é riquíssimo para que o governo aprenda com os erros do passado e desenhe um modelo mais eficiente.?

Na prática, Mendonção também tem tentado influir diretamente
nos rumos do setor. Conselheiro informal do governador Geraldo Alckmin, foi ele quem lançou a idéia de São Paulo entrar na disputa pela Eletropaulo. Antes da privatização, a empresa era administrada pelo governo estadual. Hoje, pertence à americana AES. Porém, caso o BNDES execute suas garantias, a empresa será federalizada. Irá para a Eletrobrás. ?O governo de São Paulo não pode ficar de fora das discussões, porque se trata de uma empresa vital para o Estado.? O secretário estadual de energia, Mauro Arce, apóia a proposta. ?Estamos à disposição do BNDES para gerir a Eletropaulo?, disse à DINHEIRO.