Economia

INVERNO EM NOVA YORK

Há algo de Buenos Aires em Nova York nestes dias. Em qualquer esquina da maior metrópole dos Estados Unidos, as faixas estão coladas nas vitrines: ?Going out of business, everything must go? (Estamos fechando, queima total, não percam). São lojas e mais lojas quebrando e liquidando seu estoque. Elas estão em downtown, a área mais próxima de onde ficava o World Trade Center, mas também em endereços nobres como a 5ª Avenida e a Madison. Os descontos, em muitos casos, chegam a 70%. Mesmo as tradicionais megalojas de departamento, como a Macy?s, a Bloomingdale?s e a Barney?s, anunciavam promoções de até 75% totalmente fora de época, às vésperas de uma das mais importantes datas do comércio americano: o Valentine?s Day, ou Dia dos Namorados, em 14 de fevereiro. Um dia antes, o novo prefeito da cidade, Michael Bloomberg, revelou seu orçamento para 2002. Para zerar um déficit de US$ 4,76 bilhões, que surgiu com a recessão, Bloomberg pretende cortar gastos em US$ 1,9 bilhão em todas as áreas do governo. Ele irá demitir 1,6 mil policiais e até mesmo reduzir o orçamento do corpo de bombeiros, a instituição mais popular de Nova York depois do 11 de Setembro. Além disso, Bloomberg aumentará impostos em US$ 800 milhões e emitirá novos títulos da divida de NY. ?Não estamos atingindo ninguém de forma fatal, mas sim espalhando a dor?, disse Bloomberg, numa de suas primeiras conferências de imprensa depois de assumir a Prefeitura. Apesar do discurso, o orçamento de Bloomberg entrou para a história como o massacre do Dia dos Namorados. A recessão de 2002 carrega os traços de Nova York: é multirracial e multicultural. Atinge indiscriminadamente os tubarões de Wall Street, que vêm perdendo seus empregos com a estagnação do mercado financeiro americano, até os imigrantes menos qualificados de origem hispânica, asiática ou árabe. Na Big Apple, o desemprego hoje é de 7%, bem acima da média de 5,8% nos EUA. E nem mesmo os US$ 20 bilhões liberados pelo governo de George W. Bush para reconstruir a área do World Trade Center ou a menor taxa de juros em 40 anos, fixada por Alan Greenspan, parecem capazes de resolver o problema. A tese levantada por alguns economistas de que a economia americana terá a forma de um V, com uma queda rápida seguida de uma aceleração também veloz, não parece convencer quem acompanha o dia-a-dia de Nova York.

?A retomada será muito mais lenta do que as pessoas imaginam?, conta Daniel Nascimento, vice-presidente da Otec.com, hoje a principal firma de recrutamento de talentos para a área tecnológica da cidade. Brasileiro, mas radicado há 20 anos nos Estados Unidos, ele conhece o mercado de trabalho de Nova York como poucos. Sua empresa, que ocupa um andar inteiro na rua 40, focou-se na contratação de executivos de tecnologia para o mercado financeiro. Entre seus clientes, há gigantes como Morgan Stanley, UBS, Lehman Brothers e Merrill Lynch. Mas, depois do 11 de Setembro, tudo mudou: ?Foi a desculpa que muitas companhias usaram para demitir.? Em média, a Otec.com, com agentes em Nova York, Boston e São Francisco, colocava no mercado 30 executivos por mês, com salários médios entre US$ 85 mil e US$ 100 mil por ano, gerando um faturamento anual para a empresa de US$ 18 milhões. Mas de um ano para cá, o quadro de pessoal foi reduzido em 65% e a meta e fechar 2002 com uma receita de US$ 8 milhões. ?Os bancos de investimento estão em crise e, mesmo na retomada, serão mais enxutos?, diz Nascimento. O mercado de trabalho é apenas um exemplo da recessão em Nova York. Na área imobiliária, pela primeira vez desde 1994, quando os anos dourados da era Clinton começaram a brilhar, os preços dos aluguéis caíram. Um apartamento de um quarto numa área nobre de Manhattan baixou de US$ 3 mil para algo em torno de US$ 2,3 mil: uma redução próxima a 25%. Só agora, cinco meses após o ataque terrorista, os principais corretores começam a detectar os primeiros sinais de reação no mercado de compra e venda. ?Há uma escassez de oportunidades de investimentos e as pessoas estão voltando a pensar em imóveis?, conta Maria Paula, vice-presidente da Corcoran Group, uma imobiliária com vendas superiores a US$ 2 bilhões por ano em Nova York. ?Em alguns negócios, as pessoas estão tirando dinheiro do mercado de ações e comprando à vista.? Mas seu argumento revela que o mercado de compra e venda começou a reagir não em decorrência de uma retomada econômica. Há uma crise de confiança nos EUA e os jornais estão repletos de especulações sobre quem será a próxima Enron. Afetada por um mercado de trabalho contraído e pela desconfiança que cerca Wall Street, Nova York tem mais um componente na crise: a Big Apple foi duramente afetada pela retração do turismo. A cada ano, a cidade recebia 6,8 milhões de turistas, que gastavam US$ 5,4 bilhões. Mas, depois do 11 de Setembro, o fluxo caiu pela metade. Foi um golpe fatal para setores importantes da economia de Nova York, como os hotéis e restaurantes. Na área mais nobre do Waldorf Astoria, as Waldorf Towers, as suítes não custavam menos do que US$ 400, mas hoje se negociam pacotes pela metade do preço. Na Broadway, diversos espetáculos são vendidos com desconto de até 50% ? a única exceção é The Producers, a peça mais premiada do ano, que ainda custa US$ 150 e tem fila de espera. Restaurantes badalados do TriBeCa, como o Bouley, o Tribeca Grill, de Robert de Niro, e o Montrachet, antes exigiam reservas. Hoje, praticamente estendem as mãos aos clientes.

Trabalho duro. ?Em média, o movimento dos restaurantes diminuiu 30%?, diz Ernani Lima, dono do Focaccia, na 1st Avenue. Sua receita para manter o faturamento foi ampliar os serviços de catering para grandes empresas farmacêuticas. Com dois restaurantes em Nova York e dois quiosques, Lima fatura US$ 1,5 milhão por ano. Ele faz parte do grupo de 2.425 empresários estrangeiros na cidade. ?Nova York era de fato uma cidade repleta de oportunidades?, diz Lima. ?Era só trabalhar duro que o negócio prosperava, mas hoje não é mais assim.? A redução do turismo também atingiu diretamente o negócio do empresário Gilberto Leoncio que há 13 anos deixou uma carreira na Vasp para abrir sua empresa de transporte em Nova York. Com uma frota de seis carros, entre limusines e vans, ele faturava US$ 25 mil por mês. Agora, dois carros vendidos, a receita caiu para US$ 15 mil. ?Mesmo no feriado de Ação de Graças, as viagens nos Estados Unidos caíram 45%?, diz Leoncio. O Thanksgiving, comemorado em novembro, é o principal feriado americano. ?A fantasia acabou.? Ainda que aos poucos, as pessoas estejam perdendo o medo dos aviões e do terrorismo, as perspectivas não são animadoras. Ainda é muito desconfortável viajar nos EUA. No aeroporto de La Guardia, de onde partem vários vôos de Nova York para outras cidades americanas, os aviões saem vazios. Não atingem sequer 40% dos assentos. Ainda assim, os passageiros, americanos ou não, são submetidos a filas intermináveis. Todas as malas são abertas e revistadas e há grande risco de que não cheguem no mesmo vôo. Companhias como a AirTran fazem promoções antes inimagináveis. Depois de três viagens, ganha-se um novo trajeto. E nos saguões de desembarque, quando os passageiros preparam-se para deixar os aeroportos, há grandes faixas com a bandeira americana e os dizeres: ?Obrigado por viajar?. Mas nem o apelo patriótico parece funcionar.

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