Economia

O custo da aftosa

Oestrago da febre aftosa que se abateu sobre o gado no Rio Grande do Sul já pode ser aferido no termômetro da economia, mas é maior do que qualquer número. Há um drama humano difícil de mensurar, refletido na desolação de centenas de pequenos criadores, cuja sobrevivência se dá ora pelo corte, ora pela extração de leite. ?Vou ter de dizer a minha filha de 17 anos que no ano que vem ela não poderá cursar a Faculdade de Medicina?, lastimava Paulo Andreatta, produtor na localidade de São José, no município de Jóia, a 430 quilômetros de Porto Alegre. Neste período de entressafra, sua renda familiar costuma ser de R$ 1,8 mil, graças a produção de 200 litros de leite por mês por suas 50 vacas. Todas as reses, porém, foram abatidas. Pelos próximos seis meses, nem Andreatta nem os cerca de 2 mil pequenos agricultores vizinhos poderão comprar novas matrizes, até o risco da aftosa estar definitivamente afastado. ?Acho que só será possível mesmo sustentar a casa?, diz ele. Isso porque o governo gaúcho iniciou na semana passada o pagamento de indenizações, rendas compensatórias e distribuição de cestas básicas a cerca de duas mil famílias da região. Os pagamentos obedecerão a cálculos baseados na produção de julho, mas a preços até 50% abaixo do que os normalmente praticados pelo mercado. O custo para o Estado desses planos de amparo é calculado em R$ 2,5 milhões. Só em exportações suspensas pelos Estados Unidos e o Chile, que tinham encomendas de 29 mil toneladas de carne, a conta das perdas vai a US$ 51, 6 milhões. Há, além de tudo, danos à imagem do País, que não anunciava um caso de febre aftosa desde 1994 ? e nas duas últimas semanas teve de sacrificar 2.100 cabeças.

 

Na tentativa de controlar a epidemia, a Vigilância Sanitária deslocou 400 funcionários para a montagem de barreiras nas estradas em torno da cidade de Jóia. É impossível entrar ou sair de lá sem que o automóvel sofra um lavagem à base de detergente e iodo e tenha o porta-malas revistado. Qualquer pedaço de carne encontrado é apreendido. Há cuidados especiais em relação a homens, mulheres e crianças. Todos podem ser portadores nas cabelos ou nas roupas o vírus da aftosa, sem, no entanto, desenvolver qualquer doença. Os que estiveram próximos a reses contaminadas enfrentam período de isolamento de 72 horas.

Campanhas de vacinação contra a aftosa são realizadas todos os anos, há 36 anos, na região. O criador André Cereser, 48, busca na infância a lembrança de um caso de contaminação. ?Tinha uns 10 anos e meu pai comentou?, disse ele a DINHEIRO. Cereser, na semana passada, viu suas 50 cabeças de gado serem abatidas por veterinários da Secretaria da Agricultura, que detectaram 14 casos no rebanho. ?Eu não sabia nem quais eram os sintomas.? Agora, ele acredita que levará pelo menos quatro anos para atingir com o gado que pretende comprar a qualidade genética do anterior.

O caos econômico fez ressurgir velhas pendengas políticas. O ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, depois de ter declarado que não entendia do assunto, resolveu acusar o governo de Olívio Dutra, do PT, de displicência em programas sanitários. Auxiliares do governador, em contrapartida, apontaram falhas no sistema de vigilância utilizado pelo ministério, que exige do produtor apenas o certificado de compra de vacina para considerar o gado dele imune à doença. Houve, ainda, quem lembrasse que nos governos de Alceu Collares, do PDT, e Antônio Britto, do PMDB, nos anos 90, houve um processo de esvaziamento da Divisão de Proteção Animal da Secretaria da Agricultura. Antes, havia ali 2.600 funcionários. Hoje, há 1.100. ?Com esse contingente é impossível controlar a vacinação?, diz Nilton Rossato, veterinário e ex-chefe da divisão. Nesse fogo cruzado, é provável que todos estejam certos ? e certo que todos perderam.

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