Economia

O caso misterioso de Perez

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Preso há mais de uma semana em um presídio do Rio de Janeiro, depois de tentar embarcar em um avião com US$ 80 mil em espécie, o executivo americano Richard Perez explodiu dias atrás: ?Se o problema é esse dinheiro, que fiquem com ele. Eu deixo ele aqui. Só quero voltar para os Estados Unidos?. O desabafo de Perez, vice-presidente da MCI-WorldCom, o grupo americano que controla a Embratel, revela a falta de perspectiva diante de um caso, que desde o primeiro momento, transformou-se em um imenso mar de indagações e dúvidas. Nem mesmo os autos do flagrante aos quais a reportagem da DINHEIRO teve acesso são capazes de esclarecer a história.

 

Existem nos documentos e no episódio todos os elementos para envolver Perez em um manto de mistério e suspeitas: depoimentos contraditórios, troca repentina de advogados, versões desencontradas, aplicação rigorosíssima da lei e, sobretudo, um surpreendente silêncio e distanciamento da MCI e da Embratel. O caso ganha dimensão extraordinária por Perez ser executivo de primeiro escalão de um dos gigantes de telecomunicações do mundo. Até semana passada, viajava de primeira classe, hospedava-se nos mais luxuosos hotéis do mundo e comia nos melhores restaurantes. Hoje, está detido no Presídio Ponto Zero, no subúrbio carioca de Benfica, onde divide uma pequena cela com três outros prisioneiros. Seu estado de espírito oscila entre um desânimo profundo e o inconformismo. ?Tenho toda uma vida dedicada ao trabalho, todo meu dinheiro foi ganho honestamente e confio na Justiça brasileira?, disse ele à DINHEIRO. ?Não sou um criminoso.?

 

Aos 57 anos, Perez fez uma carreira exemplar na MCI, onde trabalha há 12 anos. Formado em Engenharia, é responsável pela transferência de tecnologia da matriz para as operações fora dos EUA. Seus vencimentos anuais são de US$ 500 mil. Só neste ano, entre salário e bônus, embolsou US$ 762 mil, segundo Carlos Machado, um de seus advogados. ?A quantia de US$ 80 mil é totalmente compatível com sua renda?, afirma Marcelo Barandier, outro de seus defensores.

 

 

A quarta justificativa surgiu nos últimos dias: Perez pensava em adquirir um apartamento no Rio. ?Em função de questões pessoais e familiares, desistiu da compra?, diz o advogado Machado. Nenhum dos argumentos parece ter convencido a Justiça e a PF. Tanto que dois pedidos (um de habeas corpus e outro de estabelecimento de fiança) foram negados ? apesar de o crime ser afiançável. A PF, depois de deter Perez por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, estuda até mesmo a possibilidade de estender a investigação para o campo do crime organizado. A PF também busca conexões entre a prisão de Perez e um outro evento rumoroso no qual ele teve participação ativa. Em maio deste ano, a Embratel, Ericsson, Nortel e Marconi organizaram (e pagaram) uma viagem para Nova York de 12 juízes do Superior Tribunal de Justiça e 3 do Supremo Tribunal Federal, onde assistiram um seminário sobre telecomunicações ? investimento de US$ 200 mil. Perez foi o coordenador da parceria entre as empresas. ?Desconheço o caso?, diz Barandier. ?Não vejo relação entre os dois assuntos.? Outro caminho de investigação pode ser a recente demissão de funcionários do setor de compras da Embratel, área sob a responsabilidade de Perez. Fontes de mercado apontam que eles teriam sido afastados sob suspeita de favorecimento a fornecedores. A empresa, consultada pela DINHEIRO, negou as demissões. Depois voltou atrás e alegou reestruturação do departamento.

 

Em todo desenrolar do episódio, a ausência das empresas em relação a prisão de Perez também tem chamado a atenção da PF. Era de se esperar que um executivo de sua importância fosse imediatamente assistido por um batalhão de profissionais de uma grande banca de advocacia. Nada disso ocorreu. Até agora, representantes da MCI ou da Embratel não o visitaram. Apenas dois colegas americanos apareceram na PF. Ficaram alguns minutos, esclareceram que estavam ali em caráter pessoal e partiram para o aeroporto, onde apanhariam um vôo para os EUA. Em certo momento, um agente da PF comentou que a MCI não assumira que a presença de Perez em território brasileiro fosse oficial. O executivo ficou contrariado. Apanhou o telefone, fez um 21 e falou com seus empregadores. Ao final, parecia conformado.

Procuradas por DINHEIRO, as empresas emitiram comentários lacônicos. Rick Philips, porta-voz da MCI, hesitou durante a conversa que manteve com a reportagem. ?Estamos investigando o caso?, afirmou.

? Que tipo de assistência estão dando ao sr. Perez?
? Estamos cooperando com seus advogados no Brasil.
? Foi a MCI que contratou esses advogados?
? Não tenho essa informação.

A Embratel seguiu o mesmo tom. ?O sr. Richard Perez não é empregado da Embratel. As perguntas devem ser dirigidas à MCI ou aos advogados do sr. Richard Perez?, escreveu a assessoria de imprensa. Perez é funcionário da MCI que, por sua vez, é acionista majoritário da Embratel. Nos últimos meses, Perez desembarcou mais de 15 vezes no Brasil, sempre para trabalhar na Embratel. Entrava e saía da sede da empresa, no Rio , à hora que quisesse. Participava de reuniões com fornecedores e clientes em nome da companhia. Sua presença no Brasil era tão constante que, há um ano, um flat foi alugado para abrigá-lo durante as estadas. Localizado em Ipanema, o apartamento, com cerca de 100 metros quadrados, tem um aluguel superior a R$ 8 mil mensais.

Sem apoio das empresas, Perez foi acompanhado, logo após sua prisão, pela dupla de advogados Domingos Moreira e Priscila Cotrim. Moreira trabalha em um escritório de aproximadamente 20 metros quadrados atulhado de papéis, localizado no centro de Niterói. Não há recepção. A porta de entrada leva diretamente à sala que ele divide com dois outros profissionais. Priscila mantém seu escritório no edifício ao lado. Como eles chegaram ao caso? ?Recebi um telefonema de um funcionário da PF que não se identificou?, contou Moreira à DINHEIRO. ?Como trabalhei anos junto ao Ministério Público, sou conhecido.? Moreira atuou no caso até sábado, 2, quando recebeu telefonemas de Barandier e Machado. Os dois informaram que, a partir daquele momento, conduziriam o assunto, a pedido da família de Perez. A primeira providência foi um pedido de liberdade provisória, o que significa aguardar o final do processo sem sair do País. O julgamento do pedido pode acontecer a qualquer momento. E o caso segue misterioso.

Colaboraram Luciano Dias e Fernando Thompson

 

Tudo poderia ser simplicado se os próprios participantes da história jogassem mais luzes sobre o assunto. Aos fatos: no dia 30 de agosto, vestido com um bermudão, sapatos e meias, Perez chegou ao Galeão para embarcar em vôo da American Airlines rumo ao México, com escala em Miami. Sua visita ao Brasil durara apenas três dias. Perez carregava uma pasta de mão e uma pequena mala de couro com roupas. Ao entrar na sala de embarque, a funcionária Telma de Vasconcelos, operadora do aparelho de Raio X do aeroporto, identificou na pasta ?material orgânico?, conforme o auto de apreensão da PF, lido pela DINHEIRO. Por ?material orgânico?, entenda-se maços e maços de notas de US$ 100, cuidadosamente arrumados embaixo de um notebook. Havia também uma série de cópias de cheques de bancos mexicanos, além de um extrato bancário de sua conta no Bank of America, mostrando um total de US$ 611 mil.

 

A partir daí, Perez iniciou uma série de explicações. Foram quatro versões para a preciosa bagagem. Primeira: alegou que desconhecia a lei brasileira que impede o transporte de quantias acima de R$ 10 mil sem declarar à Receita Federal. Segunda: Perez disse que havia na maleta US$ 40 mil que pertenciam a um amigo. A contagem realizada revelou que o valor era exatamente o dobro. Logo depois, em depoimento a um delegado da PF, veio a terceira explicação: a dinheirama fazia parte de seu salário de US$ 500 mil anuais. Em suas freqüentes viagens ao Brasil, trazia US$ 2 mil a US$ 3 mil para despesas. Como gastava muito pouco, as sobras eram recolhidas ao cofre do flat que mantinha em Ipanema. Segundo agentes da PF, Perez colocou uma pitada de sexo na história. Havia raspado o cofre, porque não confiava na namorada brasileira, uma dançarina da boate Barbarella, casa noturna localizada em Copacabana. Essa versão não aparece nos autos e os advogados negam sua veracidade. A PF disse que, em suas primeiras investidas, não conseguiu localizar a tal namorada.

 

 

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