Economia

Hora de liderar

Pela primeira vez desde que o Barão do Rio Branco imaginou a América do Sul integrada, há 100 anos, os 12 chefes de Estado da região reuniram-se. Foi em Brasília, na semana passada, e o tema central do encontro, em sintonia com o final do milênio, foi a economia. Discutiu-se integração de infra-estrutura, comércio e tecnologia ? sob a liderança brasileira e intensa admiração da platéia internacional. Na condição de maior economia ao sul do Rio Bravo, e de mentor da união econômica criada em torno do Mercosul, o Brasil de Fernando Henrique assumiu a regência de uma sinfonia cujo clímax pretende ser a integração dos mercados sul-americanos, em 2002. No horizonte de FHC está um relacionamento menos dependente com a grande economia do Norte, os Estados Unidos. ?Somos os 12 apóstolos da integração?, disse o presidente a seus hóspedes. ?Unida, a América do Sul defenderá com mais força seus interesses comuns?. No altar da integração regional, a diplomacia brasileira foi chamada a sacrificar parte dos interesses econômicos do País, e, aparentemente, concordou. ?O Brasil é hoje um país muito aberto e está disposto a ser ainda mais?, disse o ministro Luiz Felipe Lampréia. ?Claro, se receber reciprocidade.?

Num palavreado empolado, negociado e acertado antes do encontro pelos chanceleres dos 12 países, os presidentes da América do Sul coincidiram em que o processo de globalização pode gerar para a região benefícios como a ampliação do comércio, a expansão dos fluxos de investimento e a maior difusão do conhecimento e da tecnologia. Concordaram também sobre a necessidade de implementar políticas macroeconômicas consistentes, capazes de assegurar estabilidade interna e avanços continuados nos processos de interação. Ainda no papel, os países da América do Sul reafirmaram os compromissos em defender a democracia, ainda que entre os signatários estivesse o presidente do Peru, Alberto Fujimori. O encontro foi encerrado com a divulgação de três documentos, mas seu resultado mais importante foi a decisão dos presidentes de iniciar negociações para estabelecer, até janeiro de 2002, uma área de livre comércio entre o Mercosul, que já teria aí adesão do Chile, com a Comunidade Andina. ?Ou nos unimos para enfrentar a Alca ou sumiremos do mapa?, alertou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Ao final, saiu vitoriosa a proposta brasileira de adiar as adesões em torno da Alca, a área de livre comércio das Américas. O Brasil, de acordo com um diplomata, está esperando pelo resultado das eleições americanas: Se Al Gore for o escolhido dos americanos, a Alca continua como idéia de prateleira para americano ver; mas caso George W. Bush seja o ganhador, o governo brasileiro terá maiores dificuldades para se desvencilhar da criação da Alca, já em 2005. O mais curioso é que a reunião de integração sul-americana acontece no pior momento do Mercosul, o bloco econômico que a inspirou. Com problemas tarifários e políticas cambiais opostas, Brasil e Argentina vivem às turras com as dificuldades comerciais, provocadas pelas diferenças cambiais. O Chile não ingressou no bloco porque as tarifas que pratica estão bem abaixo das praticadas pelos países membros do Mercosul. Já a Argentina oscila entre o protecionismo mais selvagem e a boa vontade mais arrebatada em relação ao Brasil. Além disso, o narcotráfico e a guerra civil da Colômbia tornam ainda mais complexo o processo de integração da região. Jogando esse xadrez, FHC saiu fortalecido na disputa pela liderança regional que trava com o presidente do México, Vicente Fox. A diplomacia brasileira chegou a comemorar a arrancada, sobretudo o plano de integração de infra-estrutura financiado pelas instituições financeiras multilaterais.

Seria ingenuidade, porém, imaginar que o encontro serviu como declaração de independência da parte pobre da América, a do Sul, da sua vizinha rica, a América do Norte. Pelo contrário. Os Estados Unidos acompanharam a gênese do processo de integração sul-americana e até incentivaram o Brasil a assumir a liderança. Há dois anos, em Camp David, o presidente Bill Clinton e Fernando Henrique conversaram longamente sobre a situação da América e do Caribe. Da conversa, FHC saiu convencido de que era possível assumir a dianteira do processo de integração regional, preparando a América do Sul para um salto desenvolvimentista em que o Brasil, como maior economia da região, pode ser o maior beneficiado. É nisso que ele aposta. Contra ele, está a dura realidade sul-americana, uma das mais perversas e desiguais do planeta.

 

Veja também

+ T-Cross ganha nova versão PCD; veja preço e fotos

+Conheça os 42 anos de história da picape Mitsubishi L200

+ Remédio barato acelera recuperação de pacientes com covid-19

+As 10 picapes diesel mais econômicas do Brasil

+ Avaliação: Chevrolet S10 2021 evoluiu mais do que parece

+ Grosseria de jurados do MasterChef Brasil é alvo de críticas

+ Cozinheira desiste do Top Chef no 3º episódio e choca jurados

+ Governo estuda estender socorro até o fim de 2020

+ Pragas, pestes, epidemias e pandemias na arte contemporânea

+ Tubarão-martelo morde foil de Michel Bourez no Tahiti. VÍDEO

+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?