Economia

Serra bom de briga

O ministro José Serra detesta fumaça. Com ele, briga boa é travada a ferro e fogo. Ainda nos tempos da presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1964, o paulista já se opunha a adversário que nada tinha a ver com os golpistas. O líder universitário discursava contra os fumantes nas reuniões. Trinta e seis anos depois, o ex-militante da UNE faz mais barulho do que nunca nas barricadas. Na condição de ministro da Saúde, vive o auge de suas brigas econômicas e políticas desde que tomou posse no cargo em março de 1998. Ele enfrenta com inabalável determinação a indústria tabagista, poderoso rival que fatura R$ 6,2 bilhões por ano, e o setor farmacêutico. Serra quer a proibição da propaganda de cigarro em jornais, revistas e televisão. O golpe final a seu favor deve ser dado pelo Senado, agora em setembro, quando será votado o projeto que trata desta restrição. Senador licenciado, ele acaba de vencer dura batalha ao assinar acordo com os laboratórios congelando os preços dos remédios até janeiro de 2001. Pôs mão-de-ferro num setor que movimenta R$ 14 bilhões anuais. De pouco mais de uma centena, apenas quatro empresas reajustaram preços: Merck Sharp & Dohme, Nova Química-Sigma, Siefel e Igefarma. Pós-graduado em Economia, Serra prega, agora, o ?ativismo governamental? como solução para os males do Estado. Comandante de um orçamento de R$ 20 bilhões, ele justifica o novo estilo de militância: ?Não sou favorável a governo grande, mas sim ativo?, conta ele, em entrevista exclusiva à DINHEIRO. ?Não há nisso nenhum viés antimercado, mas de um governo presente onde deve estar e com grande atividade.? Por isso, avisa: vai combater os laboratórios que reajustarem preço agindo como garoto-propaganda dos remédios mais baratos. ?Isso não é boicote, é mercado. Por que não posso fazer propaganda do produto mais barato?”

O ativista tem invadido, sem constrangimento, a área reservada a Pedro Malan, da Fazenda. Ex-ministro do Planejamento do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, Serra tem um olho em sua pasta e outro na inflação. ?O chamado congelamento não foi mais do que um acordo de manutenção de preços até o fim do ano. Não há nenhuma filosofia estilo planos Cruzado, Verão ou Collor nesta matéria?, garante. ?Tratou-se apenas de uma trégua necessária, porque há um fato indiscutível: o aumento dos preços dos medicamentos nos últimos dez anos esteve 90 pontos acima da inflação.? Na semana passada, ele adentrou terreno alheio com um bilhetinho ao ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, sobre o desmatamento na

Amazônia. ?Estou metendo o bico em outra área?, admitiu. Nos bastidores, articula com o Ministério da Ciência e Tecnologia a criação de um novo tributo sobre cigarros e bebidas alcoólicas. O dinheiro recolhido iria para um fundo de pesquisa na área de saúde. ?Temos de ouvir todos os argumentos sobre a contribuição, inclusive os da Fazenda?, pondera. O tributo seria o motivo de atrito com o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel. Em reportagem de DINHEIRO sobre a redução da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na venda de maços de cigarros, promovida pela Receita, Maciel denunciou armação no governo para aumentar os impostos deste setor. ?Não falo sobre o Maciel?, diz Serra.

?há uma trégua?
ATIVISTA
?Eu não sou favorável a governo grande, mas sim do ativismo governamental. O governo presente onde deve estar presente, um governo ativo. Isso aliás não é só o que a sociedade quer, mas o que o Brasil precisa. Essa posição, tenho certeza, é compartilhada pelo presidente. No caso da Saúde, nós estamos ativos.?
PLANOS
?O chamado congelamento não foi mais do que um acordo de manutenção de preços. Não há nenhuma filosofia estilo Plano Cruzado ou Plano Collor. Tratou-se apenas de uma trégua. Há um fato indiscutível: o aumento dos preços nos últimos dez anos esteve 90 pontos acima da inflação. As margens de lucro do setor têm sido três a quatro vezes maior, em média, do que o resto da indústria.?

PROPAGANDA
?Se um laboratório não aderir ao acordo (de congelamento de preços) e vender o produto dele mais caro do que outro, eu não terei dúvida de dizer: eu prefiro comprar o produto equivalente mais barato. Ora, não estamos em uma economia de mercado? Por que não posso fazer propaganda do produto mais barato? Isso não é boicote, é mercado.?

CONCORRÊNCIA
?Nos setores em que não há a concorrência perfeita, mas produz-se insumos e produtos críticos para a vida nacional, é razoável que haja sempre alguma interferência governamental. Isso acontece com eletricidade, com petróleo, com telefones. Em relação a medicamentos, a concorrência é muito limitada.?

PRESIDÊNCIA
?Em 2002, eu serei candidato a alguma coisa, porque eu não vou me retirar da vida pública.?

ACHÉ
?O problema do presidente do Aché (Adalmiro Baptista) é que ele não percebeu mudanças importantes. Quem não perceber isso vai ser superado.?

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