Economia

Quanto custa a insegurança

O Brasil tem um grande problema e ainda não se deu conta do seu tamanho. Pelas estradas do País rodam 1 milhão de caminhões, que transportam anualmente 324 milhões de toneladas. Estima-se que o valor dessa carga preciosa seja de cerca de R$ 200 bilhões, ou seja, um quinto do PIB nacional. Mas toda essa riqueza não circula impunemente por aí. De olho nela, estão quadrilhas especializadas em roubo de carga, fortemente armadas e amparadas por alta tecnologia. No primeiro semestre de 2000, elas foram responsáveis por um prejuízo de R$ 251 milhões para as poucas seguradoras que se aventuram no negócio. A conta para o País, porém, vai muito além disso. Ela pode, no limite, até mesmo pressionar a inflação. A criminalidade é tão grande que produtos como cigarros, pneus e medicamentos não são mais aceitos pelas seguradoras, tamanho o risco que eles representam. Cálculos da Câmara Americana de Comércio de São Paulo apontam que as perdas totais em 1999 foram de R$ 1,5 bilhão, incluindo os produtos rejeitados pelas seguradoras. ?O nível de insegurança é uma calamidade?, diz Paulo Panarello Neto, diretor da distribuidora de medicamentos que leva seu nome. A empresa de Goiânia gasta R$ 3,6 milhões por ano em segurança e criou verdadeiras fortalezas nos depósitos que estocam remédios: ?No setor de medicamentos, quem não tem sistemas de segurança fica na mão dos assaltantes?.

Para se defender, as transportadoras estão se armando até os dentes contra a pirataria do asfalto. É uma verdadeira guerra. Escolta armada, rastreamento de veículo por satélite e gastos com gerenciamento de risco estão se tornando comuns nas principais empresas de transporte do País. Todas as rotas são avaliadas. As viagens em rodovias como Anhanguera, Dutra e Régis Bittencourt, onde se concentra grande parte da violência, são cuidadosamente planejadas. E essas táticas não se limitam às estradas. Hoje, os crimes acontecem também nos centros urbanos e à luz do dia. ?Dependendo do valor do produto, a transportadora prefere dividir a carga em dois caminhões. Se uma for roubado, o prejuízo é menor?, diz José Francisco Cordeiro, gerente da KPMG, que acompanha de perto as agruras dos seus clientes. Mas todo esse aparato tecnológico e logístico tem seu preço. Os gastos com segurança das transportadoras já alcançaram 10% do faturamento das companhias, cujo movimento representa 3% do PIB nacional. Por enquanto, o consumidor final ainda não está pagando a conta. ?As empresas estão arcando sozinhas com a despesa, pois a concorrência no setor é muito acirrada?, diz Cordeiro. Hoje, são 12 mil empresas que movimentam 70% de tudo o que circula no Brasil. Mas essa situação não deve perdurar por muito tempo. Nos bastidores, as transportadoras pressionam para repassar os custos da segurança para seus clientes. Ainda não admitem isso publicamente, mas querem aumentar o preço dos fretes para compensar os novos gastos.

Se o aumento de preços dos transportes vier a ocorrer, a elevação resultante na cadeia econômica pode bater nos índices de inflação, que são o grande orgulho do governo. ?Esse tipo de situação é insustentável?, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp ?As empresas repassam os custos ou acabam quebrando.? Ele acredita que, além de gerar inflação, um aumento do frete vai incidir sobre o Custo Brasil ? tanto na exportação quanto na competição interna com os produtos estrangeiros. Pior, o gasto com segurança das transportadoras, diz ele, tende a ter contrapartida na evasão de impostos ? que desaparelha o Estado e realimenta a caldeira da insegurança.

Os gastos com segurança, na verdade, já transbordaram das transportadoras para os próprios produtores. Vários deles estão tendo de arcar com o custo adicional da distribuição. ?Eu não coloco carreta na estrada sem vigilância por satélite e escolta armada?, lamenta Adilton Sachet, produtor de algodão e soja no Mato Grosso. O empresário, um dos maiores plantadores do País, diz que 10% do seu custo de transporte vai para prevenção de roubos. No seu caso, o alvo principal dos bandidos é o algodão. Sachet já perdeu seis cargas de 27 toneladas, cada uma avaliada em R$ 70 mil. Das estradas, a mercadoria clandestina segue para as fiações por um preço abaixo do que é cobrado no mercado ? e penetra nas artérias da economia criando ramificações de criminalidade e dependência. ?Existe uma verdadeira economia paralela que opera em função dos roubos nas estradas?, afirma James Wygand, diretor da empresa de segurança Control Risks. O especialista sustenta que existem financiadores, operadores de logística, distribuidores e consumidores definidos e previamente acertados para as mercadorias roubadas. Nos EUA, diz Wygand, o crime nas estradas só diminuiu quando a polícia colocou em cheque a rede distribuidora de seus produtos. O risco no Brasil é que essa economia paralela escape ao controle e contamine as partes saudáveis da produção. ?Excluída a Colômbia, o Brasil é o país que mais gasta em segurança. É um custo enorme, que recai inteiramente sobre a iniciativa privada?, afirma o professor José Alexandre Scheinkman, da Universidade de Princeton.

Enquanto o custo do roubo de cargas não é repassado, as transportadoras continuam investindo pesado em tecnologia. Na lista das dez maiores do setor, com uma carteira de 62 mil clientes, a Rodoviário Ramos gasta mensalmente R$ 300 mil com procedimentos de proteção. Ou seja, 8% da receita da empresa vai para gerenciamento de risco e tecnologia dos seus 100 caminhões. A busca por segurança quase sempre é precedida por uma má experiência. A paulistana Transsivil, de Luiz Scappatura, especializada em transporte de equipamentos de telecomunicações, foi vítima de um assalto no qual perdeu uma carga avaliada em R$ 161 mil. O seguro cobriu o prejuízo, mas a desconfiança da seguradora e do cliente resultante do episódio pôs em risco o contrato. Não teve jeito: a empresa instalou sistemas de rastreamento nos dez caminhões da sua frota.

O governo está apavorado com o número crescente das ocorrências e convocou as partes envolvidas para discutir a dimensão do problema. Na semana passada, Ministério das Telecomunicações, Confederação Nacional dos Transportes e profissionais da área de rastreamento se reuniram em Brasília para discutir a situação. Paralelamente, arrasta-se no Congresso uma CPI do Roubo de Carga, que pretende investigar a conexão entre ela e o crime organizado ? sobretudo o tráfico de drogas. Romeu Tuma, que preside a CPI, é candidato à Prefeitura de São Paulo. Não tem dado a mínima para a investigação. Enquanto isso, motoristas e seguranças continuam a morrer nas estradas brasileiras. Dados de 1998 do Sindicato das Empresas de Segurança de São Paulo apontam a morte de 37 caminhoneiros no País em decorrência do roubo de carga. Sobre a morte de vigilantes em escolta, não há estatísticas. Sabe-se apenas que há um preço em sangue sendo pago pelo descaso público com a segurança das estradas.