Artigo

O perigo vem da Europa

O italiano Matteo Renzi foi derrotado nas urnas e vai deixar o governo. O rastro é o agravamento da crise política e econômica no Velho Continente

O perigo vem da Europa

Donald Trump é o retrato da pobreza política global. Faltam líderes carismáticos e decididos a tomar decisões difíceis e impopulares. E a renovação política, que o mundo tem assistido, tem como base esse vazio. Um vazio, é bom salientar, ideal para o surgimento de extremistas. Um perigoso cenário que, no século passado, criou ditaduras tanto de direita como de esquerda. É assim que nasce um Trump. Ou uma Marine Le Pen, na França; um Geert Wilders, na Holanda; e um Norbert Hofer, na Áustria.

Mas os austríacos mostraram que é possível combater os radicais, ao elegerem o independente Alexander Van der Bellen à presidência. Com isso, eles ficaram mais longe das influências separatistas e abafaram os golpes contra a União Europeia. É um sinal de esperança na Europa, onde a fraqueza de lideranças está mais exposta que em todo o mundo. A rejeição dos italianos à proposta de reforma constitucional é o melhor exemplo dessa carência de líderes. Hoje, eles são tão inseguros que empurram para a população algumas importantes resoluções em plebiscitos ou referendos. Com uma ameaça: se a minha posição não sair vencedora eu abandono o cargo.

O Brexit mostrou como é constrangedor fazer esse tipo de promessa. O britânico David Cameron foi derrotado no referendo e se disse incapaz de conduzir o Estado ao desligamento da União Europeia. Mas deveria ter tido a grandeza de cumprir o seu papel, conforme a população determinou a seu pedido. O mesmo caminho do britânico seguiu o italiano Matteo Renzi. Ele queria o consentimento para uma ampla reforma da Constituição, a maior desde a Segunda Guerra Mundial. Foi massacrado nas urnas e disse que pegaria o boné – aceitou ficar no governo mais alguns dias para aprovar o Orçamento 2017. Renzi deveria saber que estava a frente de um país em que a instabilidade política é a regra: foram 63 governos em 70 anos de democracia.

O grande problema de mais uma crise institucional é a fraqueza do sistema financeiro italiano. Há dois anos, o Banco Central Europeu (BCE) apertou a fiscalização às instituições financeiras de todo o Continente. O resultado foi uma enxurrada de erros administrativos e de gestão, além da falta de garantias para cobrir calotes. Todos tiveram dois anos para se adaptar. Mas os bancos da Itália, que detêm € 360 bilhões de créditos emprestados sem cobertura, foram os que não conseguiram resolver a maior parte dos seus erros. Com o fracasso do referendo, o UniCredit, maior instituição financeira italiana, viu seu projeto de capitalização de € 13 bilhões ser posto em xeque. 

O perigo, porém, está no Monte Dei Paschi di Siena, o terceiro maior do país, que não passou no teste de estresse promovido pelo BCE e precisará de uma capitalização de € 5 bilhões. O socorro é urgente, mas o governo italiano está pedindo uma extensão do prazo até meados de janeiro. O Tesouro já é o maior acionista e está tentando encontrar soluções para não ter de arcar com essa bolada sozinho. Se a extensão do prazo não for aprovada, o temor é de um contágio em todo o sistema financeiro europeu, principalmente na Espanha e em Portugal, os mais fragilizados. Renzi perdeu e vai sair de cena, deixando um rastro de bancos deficitários para alguém sanear.