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O aço inoxidável que enferruja e a indústria brasileira

A indústria brasileira pode competir no mercado global se souber se diferenciar de empresários como Liu Zhongtian, que tentou driblar a alfândega dos EUA, e investir em qualidade e eficiência

O aço inoxidável que enferruja e a indústria brasileira

Há pouco mais de dois anos, uma amiga precisava urgentemente de um forno de microondas. Com as finanças apertadas, ela comprou um aparelho pequeno de uma desconhecida marca chinesa, em promoção em uma grande rede de varejo. Mesmo não sendo nenhum sinônimo de potência, o aparelho funcionou a contento nos primeiros seis meses, mas depois disso ele deu de enferrujar. A oxidação atingiu até as peças produzidas com aço inoxidável. E há poucos dias, totalmente carcomido, o chinesinho protocolou um afastamento definitivo de suas funções.

Algo parecido ocorreu com um conhecido que partiu para estudar nos Estados Unidos. Tendo de equipar a casa com pouco dinheiro, ele comprou vasilhames e talheres de aço inoxidável produzidos na China. Os utensílios renderam-se à ferrugem antes da conclusão do curso. O aço inoxidável foi patenteado em 1912, antes da Primeira Guerra Mundial. Ao pesquisar uma liga resistente ao desgaste, destinada ao uso militar, o engenheiro metalúrgico britânico Harry Brearley (1871–1948) descobriu que o aço com cromo era imune à corrosão. Nascido em Sheffield, famosa por suas facas, Brearley imediatamente pensou em utensílios de cozinha.

Desde então, o aço inox esteve presente à mesa e em boa parte dos eletrodomésticos. Garantida a quantidade correta de cromo na liga (10,5% a 11%), o material pode resistir a décadas de uso diário. Se mal-feito, porém, ele oxida rápido. A ferrugem do aço inoxidável é uma lição para a indústria brasileira, considerada pouco competitiva em relação à concorrência chinesa. As desvantagens existem, mas não decorrem apenas de custos mais elevados e do surrealismo tributário brasileiro. A perda de mercados, domésticos e internacionais, é fruto também das práticas comerciais. Os produtos “Made in China” conquistaram consumidores com jogo bruto.

As empresas chinesas inundaram os mercados-alvo com produtos de má qualidade, vendidos a baixo preço, e frequentemente ao arrepio da lei. Um exemplo didático é o do empresário Liu Zhongtian, dono de uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões, que ganhou as manchetes na primeira semana de setembro. Controlador da empresa de alumínio Zhongwang Holdings, uma das maiores da China, Liu estocou um milhão de toneladas métricas do produto em uma filial no norte do México, perto da fronteira americana. A intenção era que o estoque fosse discretamente enviado para os Estados Unidos, sob a proteção do guarda-chuva dos tratados de livre comércio, driblando as tarifas americanas sobre produtos chineses.

Descoberta a peraltice, o alumínio, avaliado em US$ 2 bilhões e suficiente para produzir 77 bilhões de latinhas de cerveja, foi barrado na fronteira e, mais tarde enviado ao Vietnã, para ser exportado, não surpreendentemente, para os Estados Unidos. Um empresário brasileiro que cumpre a lei não consegue enfrentar táticas comerciais desse tipo. No entanto, a indústria brasileira pode competir no mercado global se souber se diferenciar de empresários como Liu Zhongtian, apostando na qualidade do produto e na eficiência da produção. É algo que a siderurgia brasileira – cujo aço inox, aliás, não se oxida –, tem plena capacidade de fazer.