Artigo

O conselho que Dilma Rousseff não ouviu

Dilma deveria ter apoiado “Uma ponte para o futuro”, delegando o ônus do ajuste para Michel Temer

O conselho que Dilma Rousseff não ouviu

O economista carioca Paulo Guedes é conhecido por sua verve e pela despreocupação em proferir frases polêmicas. Em uma entrevista concedida em novembro do ano passado, ele disse que a então presidente Dilma Rousseff tinha dois destinos possíveis. Para Guedes, Dilma poderia ser “sarneyzada”. Ela teria o destino do ex-presidente José Sarney, que encerrou seu governo como um refém do Congresso. Ou, então, ela poderia ser “collorizada” e sofrer um processo de impeachment. A entrevista repercutiu junto a uma leitora muito especial.

Dias depois, em dezembro, a própria Dilma convidou Guedes ao Palácio do Planalto para uma conversa ao pé do ouvido. Participou do encontro o ministro Jacques Wagner, então a cargo da Casa Civil, segundo relatou Guedes (leia entrevista aqui). Dilma abriu a conversa. Confidenciou que iria substituir Joaquim Levy, já desgastado na Fazenda. Guedes diz ter sentido o começo de uma eventual sondagem para o cargo. Pelo minueto palaciano, o candidato ao ministério é sondado pelo presidente ou por um interlocutor gabaritado, depois é cotado, mais tarde é formalmente convidado e só então confirmado.

Guedes não se mostrou disposto a alongar o assunto da sondagem. Ofereceria, porém, sua avaliação da situação econômica e alguns conselhos. Em quatro horas de conversa, o economista apresentou à então presidente um panorama desafiador. Para ele, tanto a crise econômica quanto a crise política ficariam mais graves ao longo do primeiro semestre, e teriam sua solução antes das eleições de outubro de 2016, mas depois do fim do primeiro trimestre. Era o tempo, avaliou Guedes, para as condições econômicas se deteriorarem a ponto de pressionar por uma solução política.

Para ele, não era preciso fazer milagres, mas simplesmente aproveitar o que já estava disponível. A saber, o documento oficial do PMDB “Uma ponte para o futuro”, que havia sido publicada no fim de outubro, seis semanas antes da conversa no Palácio. Um trecho do documento havia chamado a atenção de Guedes. “Nunca antes na história deste país”, disse Guedes, “um documento partidário deixava tão claro que o ajuste era uma tarefa também do Legilativo, e não apenas o Executivo.” Assim, sugeriu o economista, Dilma deveria apoiar o documento.

Ela reagiu à sua maneira. “Eu não sou uma política convencional e não vou apoiar o documento do Michel Temer, que está conspirando contra o meu governo”, disse a presidente. Guedes voltou a argumentar. Para ele, o programa era sólido. Dilma não deveria apenas apoiar a ponte para o futuro. Ela teria de ser uma entusiasta do programa. “Presidente, se a senhora não atravessar essa ponte, o vice-presidente Temer, o PMDB e boa parte do Congresso vão atravessá-la e deixar a senhora sozinha do lado errado do rio”, disse ele.

“Demonstre seu apoio ao programa, chame-o de Plano Temer, e delegue ao vice-presidente a tarefa de conseguir a aprovação do Congresso. Se der tudo certo, a senhora colherá os louros e o vice-presidente ficará com o ônus político.” Jacques Wagner aplaudiu. “Presidenta”, disse ele, “é uma ideia brilhante.” O problema, concluiu Guedes, é que Dilma é uma pessoa extremamente teimosa e não ouviu o conselho. O resto é história.