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Sobre mortadelas e coxinhas

Sugestão para quem quer que presida a República após a conclusão deste processo: governe para todos, não só para seus partidários. Ou o muro continuará

Sobre mortadelas e coxinhas

No momento em que escrevo este artigo, na quinta-feira 14, não é possível saber com segurança o que vai ocorrer em Brasília nos próximos dias. Ou seja, é possível que quando você estiver lendo este texto o Brasil tenha um novo nome na chefia do Executivo. Ou não. Ambos os cenários terão consequências profundas sobre a economia, os negócios e a entidade mítica conhecida como mercado, que nada mais é do que a reunião das expectativas de uma miríade de pessoas, empresas e profissionais que administram o dinheiro dos outros.

Como a incerteza é grande, não adianta tentar prever o que vai acontecer. Por isso, é preciso voltar nossa atenção para um problema sério, pouco discutido, e que terá de ser enfrentado por quem quer que ocupe a Presidência quando esse processo se concluir. Além da retração da economia e dos prognósticos ruins, será preciso curar as fraturas de uma sociedade que se dividiu. Nunca antes na história deste País, para usar uma expressão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tantos brasileiros detestaram não-cordialmente os seus conterrâneos.

O mito do “homem cordial” há muito já foi soterrado pelas estatísticas cruas da violência urbana. No entanto, o que era um efeito pontual de falta de policiamento, mudou de patamar. Agora, em tempos de espíritos exaltados e falta de diálogo de parte a parte, cidadãos de camisas amarelas atacam e são atacados por cidadãos de camisas vermelhas. O sanduíche de mortadela e a coxinha deixaram de ser meras ameaças à estabilidade do colesterol e se tornaram declarações políticas.

E a atuação da militância de sofá, com seu barulho nas redes sociais, só contribui para acirrar os ânimos. Sociedades divididas são instáveis, a menos que encontrem denominadores comuns. Há exemplos bons e ruins. Um bom exemplo é a Bélgica, cuja população é dividida entre os que falam francês, os que falam holandês e uma minoria que fala alemão. Há divergências entre os grupos, mas procurar brigas nas ruas belgas é uma tarefa árdua. Apesar das diferenças e separações, os belgas convivem e trabalham de maneira pacífica.

Na Espanha, a sociedade se dividiu no começo do século passado devido à guerra civil, que durou de 1936 a 1939. Quem acompanha os debates políticos espanhóis ainda nota certo ranço, mas o país funciona normalmente. O exemplo ruim é o de Israel, em que a conta das vítimas do conflito entre judeus e palestinos não para de crescer. Para entender esse caso, um dos melhores textos é o livro “Como Curar um Fanático”, do escritor israelense Amos Oz (Companhia das Letras, 104 páginas, R$ 29,90).

Em três conferências na universidade de Tubingen, na Alemanha, Oz discute o conflito não como uma luta do bem contra o mal, mas como uma tragédia: um conflito do bem contra o bem. Enquanto os dois lados não concordarem que terão de compartilhar o país em que vivem e trabalhar para um progresso comum, a violência não terá fim. Guardadas as devidas proporções, fica a sugestão para quem quer que presida a República após a conclusão deste processo: governe para todos, não só para seus partidários. Ou o muro erguido em Brasília continuará a nos envergonhar.