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O Dia Nacional do Poderoso no Xadrez

A prisão de Luiz Estevão rompe um acordo de que cavalheiros estavam a princípio dispensados de enfrentar algo desagradável como a cadeia

O Dia Nacional do Poderoso no Xadrez

No futuro, a data que comemora o Dia Internacional da Mulher também poderá marcar outra celebração, especificamente brasileira. Na terça-feira 8, depois de uma década de protelações e adiamentos, o ex-senador Luiz Estevão foi preso. Então cumprindo mandato pelo PMDB do Distrito Federal, Estevão foi cassado em junho do ano 2000. Foi o primeiro senador a perder o mandato por quebra de decoro parlamentar. Hoje parece história antiga, mas Estevão foi condenado em 2006 por ter participado do esquema montado pelo juiz Nicolau dos Santos Neto. Ironicamente apelidado de “Lalau”, o juiz foi condenado por desviar R$ 170 milhões em verbas públicas destinadas à construção do Fórum Trabalhista de São Paulo, entre 1994 e 1998. 

O imponente edifício erguido na Barra Funda, zona oeste da capital paulista, foi o primeiro grande monumento à corrupção depois da redemocratização. “Lalau” foi condenado a 26 anos de cárcere. Hoje com 88 anos de idade, ele cumpre prisão domiciliar devido à saúde frágil. Já Estevão permaneceu livre por quase dez anos após sua condenação, graças a uma bateria de 34 recursos protelatórios impetrados por seus advogados em diversos tribunais superiores. No entanto, em fevereiro, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a permitir as prisões após a condenação em segunda instância. Traduzindo: o réu já condenado pode continuar recorrendo da decisão indefinidamente, mas terá de fazer isso atrás das grades.

Essa mudança havia começado no ano passado, quando o juiz Sergio Moro começou a despachar, sem a menor cerimônia, políticos e empresários para as espartanas acomodações da carceragem da Polícia Federal em Curitiba. O xilindró dos empresários está a anos-luz de distância dos medievais cárceres brasileiros. Mesmo assim, o fato de seus ocupantes – que até pouco tempo atrás desfilavam nas colunas sociais – terem de marchar em fila indiana, de cabeça baixa e com as mãos para trás, representa uma mudança drástica na sociedade brasileira. 

Por aqui havia um acordo de que cavalheiros não enfrentavam o xadrez. Políticos, empresários ou ricos e poderosos de modo geral estavam, por princípio, dispensados de enfrentar algo desagradável como a cadeia. Quando delinquiam e, por azar, eram pegos, uma falange de advogados bem-pagos (e a benevolência das instâncias superiores do Judiciário) garantia que a vida prosseguisse mais ou menos do mesmo jeito, independentemente da sentença proferida em juízo.

Agora, isso mudou. As condenações que ocorrem em primeira instância, em geral, são confirmadas pela segunda. E, a partir de fevereiro, essa decisão tem obrigado os condenados a vestir o uniforme dos sentenciados. Por isso, a prisão do ex-poderoso senador, cuja lista de malfeitos vem de longa data, pode ser considerada um marco. Na manhã da terça-feira 8, Luiz Estevão se entregou à Polícia Civil do Distrito Federal. Seu endereço mudou do Lago Sul, região nobre de Brasília, para o Complexo Penitenciário da Papuda, que abrigou condenados no esquema de corrupção do Mensalão e ainda poderá hospedar políticos e empresários. Por isso, a partir de agora, o dia 8 de março deverá ter duas comemorações. Uma, global: o Dia Internacional da Mulher. A outra, bem brasileira: a partir de 2017, 8 de março deverá ser o Dia Nacional do Poderoso no Xadrez.