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A Revolta da Vacina, cem anos depois

As medidas autoritárias erradicaram a febre amarela e a dengue e colocaram o Rio de Janeiro no mapa do comércio internacional

A Revolta da Vacina, cem anos depois

No começo do século XX, havia um ditado entre os marinheiros espanhóis. “Ir ao Rio de Janeiro é cometer suicídio.” As causas da morte quase certa eram a febre amarela e a dengue. As principais empresas de navegação anunciavam claramente que seus navios não iriam aportar no Rio, e muitos dos imigrantes que aqui desembarcavam eram vitimados por essas moléstias. Doença infecciosa causada por um vírus, a febre amarela provoca, nos casos mais graves, a falência das funções do fígado, deixando o doente amarelado.

Não surpreendentemente, é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que hoje dedica-se a espalhar os vírus da dengue, da zika e da chikungunya. As causas da persistência da febre amarela no começo do século passado coincidem com as causas das epidemias de zika e dengue de 2016. As deficiências do saneamento e a ausência de políticas públicas estruturadas e eficazes ajudam na proliferação do mosquito e contribuem para que o quadro se agrave. A situação só melhorou nos anos 1910 quando o governo federal atuou de forma quase ditatorial.

As autoridades instituiram a vacinação obrigatória e colocaram equipes de mata-mosquitos nas ruas, limpando casas e erradicando focos do Aedes por meio de campanhas coordenadas pelo sanitarista Oswaldo Cruz. A aplicação das medidas foi pouco democrática e, em alguns casos, violenta. Contou até com a aplicação do hoje banido DDT, e levou à Revolta da Vacina em novembro de 1904. Entre os dias 10 e 16, a população do Rio fechou ruas, incendiou bondes e depredou lojas. Pode-se questionar o obscurantismo dos que se revoltaram contra medidas de saúde pública.

Pode-se questionar, igualmente, o autoritarismo de governantes que implementaram políticas sanitaristas ditatoriais. No entanto, essas medidas autoritárias erradicaram a febre amarela e a dengue, e colocaram o Rio de Janeiro no mapa do comércio internacional. O descaso das autoridades, porém, anulou esse progresso. Há três décadas, a dengue voltou a ameaçar a população urbana. Agora, mais de um século depois da Revolta da Vacina, o vírus zika ganha status de ameaça global pela Organização Mundial de Saúde (OMS), devido a uma associação com a geração de bebês com microcefalia. Isso sublinha o fato de que certos problemas brasileiros mudam de forma, mas não de conteúdo.

O mosquito permanece integrado à paisagem brasileira, mas a forma como o setor público o trata mudou bastante desde o começo do século passado. Em 1904, o presidente Rodrigues Alves empossou Oswaldo Cruz e lhe deu carta branca para tomar medidas impopulares. Em 2016, Marcelo Castro, ministro da Saúde, admitiu que o governo está perdendo a batalha contra o Aedes. O pitoresco chegou ao ponto de ele ter emitido uma orientação terapêutica às brasileiras que, se seguida à risca, vai despovoar o País no longo prazo: “não engravidem”. Isso seis meses antes da abertura dos Jogos Olímpicos, que colocarão o País nos holofotes. Um vexame.

O Brasil contou com um Oswaldo Cruz em 1904. Agora, as autoridades de saúde e do saneamento – federais, estaduais e, principalmente, municipais – têm sido incapazes de atacar o mosquito, seja pelo uso de novas tecnologias como o bem-sucedido mosquito transgênico, testado e aprovado em Piracicaba, seja pela adoção de técnicas eficazes de gestão dos recursos da Saúde. Não se recomenda o uso de métodos ditatoriais para virar esse jogo. Mas um pouco mais de cérebro faria bem aos governantes atuais.