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Esperando Godot: o BC e o dólar a R$ 4,00

Nesse teatro do absurdo, Tombini deixou a taxa explodir. Pode-se argumentar que o câmbio é flutuante.  O problema é que dólar mais caro significa inflação e juros mais altos

Esperando Godot: o BC e o dólar a R$ 4,00

O ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen dizia que “a inflação aleija, mas o câmbio mata”. Tinha razão. Pena que seu conselho ecoe palidamente no atual governo, mais precisamente no Banco Central (BC) e no Palácio do Planalto. Na última semana o brasileiro viu perplexo o dólar disparar acima da barreira dos R$ 4,00, um recorde desde o Plano Real. Como tudo na vida, há os que comemoram enquanto outros dilaceram-se ao ver a moeda nacional só acima da divisa russa, o rublo, como a mais desvalorizada no planeta nos últimos doze meses.

Reclamou quem importa, tem dívida em dólar ou planejava viajar para fora. Achou muito bom quem exporta e ganha competitividade com o seu produto no exterior. No caixa do governo, pelo menos sob um ponto de vista, o País agradece por dever menos nas chamadas contas correntes com o dólar a R$ 4,00. Hoje, segundo dados do BC, esse déficit estimado para o ano é de US$ 65 bilhões, inflado por uma melhora nas nossas exportações. Há três meses, esse mesmo déficit projetado era de 25% maior. Mas como diz o provérbio, o diabo mora nos detalhes.

E eles são relevantes quando se faz um raciocínio simples, de lógica econômica: há um componente de inflação escondido em um dólar em disparada. Um incêndio cujo bombeiro, o BC, tardou a apagar. Somente na última semana a administração de Alexandre Tombini, presidente do BC, resolveu fazer leilões novos de dólar no mercado futuro, os chamados leilões de swap cambial. Trocando em miúdos, intervir no mercado de câmbio para tentar acalmar os ânimos e derrubar a cotação. Não fazia isto desde março.

Assistiu-se de braços cruzados o câmbio explodir em meio a um cenário complexo. Leia-se aqui a perda do grau de investimento do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, o agravamento da crise política e econômica, um rombo declarado de mais de R$ 30 bilhões no orçamento do governo. Nesse teatro do absurdo, pode-se argumentar que o câmbio é flutuante e que o BC deixou a poeira assentar. O problema é que, lá na frente, dólar mais caro significa pontualmente inflação mais alta.

Isto porque muitos dos insumos usados pela indústria são importados, caso da farinha de trigo no pão francês. E o remédio amargo para se domar a inflação é conhecido de todos: aumentar a taxa de juros. Não seria mais fácil, e barato, que o BC tivesse arregaçado as mangas e evitado o dólar disparar? Usado os chamados leilões de swap ou queimado um pouco dos US$ 371 bilhões que tem em reserva? São perguntas que deveriam ser respondidas pelo sr. Tombini. Alguns analistas pontuam que, com a economia desaquecida como está, o efeito do câmbio na inflação é comedido.

Isto é, não se transfere toda a conta. Mas ela chega, sem dúvida. E em um momento ruim, onde as expectativas de inflação estão já bem acima do teto da meta de 6,5% ao ano. Quem visita a página do BC na Internet pode ler em letras garrafais sua missão: “Assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente”. Com o câmbio e a inflação morro acima, vamos todos morrer precocemente se o ex-ministro Simonsen estiver mesmo certo.