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O país do rentismo

O enfraquecimento da bolsa de valores é um mau sinal para o Brasil, que está trocando o capital produtivo pela riqueza da multiplicação sem riscos

O país do rentismo

Rentismo rima com comodismo, uma das piores combinações para um País que precisa aumentar sua produção. Nos últimos dois anos e meio, a taxa básica da economia brasileira subiu de 7,25% para 14,25% anuais. Antes disso, estávamos nos aproximando dos países de juros baixos, que exigem esforço para a multiplicação do capital. Assim, os recursos vão direto para o desenvolvimento. Enquanto o juro estava em baixa, o Brasil conseguia afastar do seu caminho os sedentários do mercado financeiro, que buscam o lucro sem praticamente assumir riscos.

Mas retrocedemos. E quando a riqueza se multiplica à sombra e água fresca dos juros altos é sinal de imobilismo – mais uma rima pobre. A bolsa de valores é a expressão de melancolia do momento atual. A BM&FBovespa, que já operou o maior pregão da América Latina, vem definhando e está próxima de perder a posição de principal mercado da região para a bolsa do México. Em 2011, a diferença entre elas chegou a US$ 1,1 trilhão em valor de mercado somado de todas as empresas listadas em cada uma. Agora, está próxima a US$ 150 bilhões.

Se de 2006 a 2010 o cenário era de festa na bolsa brasileira, com 174 ofertas inicias de ações realizadas, sem contar as dezenas de emissões secundárias, que serviram para reforçar o caixa das empresas – muitas delas, também, para engordar o bolso dos controladores, diga-se –, o panorama atual é de ressaca. Na semana passada, a fabricante de brinquedos Estrela, que estreou na Bovespa há sete décadas e chegou a ser uma das blue chips do pregão, decidiu fazer uma oferta pública para fechar seu capital.

O governo colocou o juro na casa dos dois dígitos e parece ter criado a bolsa fantasma. Como o Brasil voltou a ser o país da renda fixa, não é difícil para o investidor conseguir uma remuneração mínima de 1% ao mês. Esse cenário de retorno fácil tem provocado o enxugamento nos quadros das equipes de ações de grandes bancos brasileiros. Nas duas últimas semanas, uma das maiores instituições em atividade no País reduziu seu time de analistas. Eram 15 funcionários, ficaram dois.

A lógica é que não é preciso ficar de olho no movimento diário da bolsa de valores para conseguir entregar o retorno esperado pelo investidor e atingir a taxa de performance. Para monitorar um mercado sem movimento, poucos profissionais bastam. Trabalhar no mercado financeiro era o grande objetivo de muitos profissionais. Há alguns anos, vagas não faltavam, assim como bônus gordos para quem topava trocar, por exemplo, a engenharia por uma mesa de operações de ações.

Há muitos bons profissionais, especialistas em um setor importante da economia brasileira, com conhecimento profundo de empresas, que estão com o currículo na mão à espera de uma recolocação. Um deles me contou que não tem esperança de voltar para o mercado financeiro nos próximos dois anos. O departamento de relações com investidores das empresas era outra Meca. A soma de tantas companhias indo a mercado e o sonho de atrair milhares de brasileiros com a diversificação de seus investimentos na bolsa de valores provocou um movimento semelhante ao dos analistas.

Mas nem mesmo esses profissionais estão escapando do enxugamento das estruturas, seja a título de economia de gastos ou porque as companhias estão saindo da bolsa, como a veterana Estrela. A atração do capital improdutivo, para se aproveitar do rentismo, gera distorções financeiras. Buscar juros menores é uma maneira de injetar saúde na economia. Assim como ter uma bolsa de valores bem desenvolvida, porta de entrada para o desenvolvimento e negócios mais transparentes.