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Mea culpa, nostra maxima culpa

A “conversão” de Kerviel já era esperada. O que ninguém espera são regras rígidas para impedir que seu exemplo se repita

Mea culpa, nostra maxima culpa

A bênção que o papa Francisco concedeu-lhe, no dia 19 de fevereiro, mudou a vida do operador de mercado francês Jérôme Kerviel. Foragido da Justiça, por conta de uma condenação de três anos de prisão, ele resolveu voltar para casa e se entregar. “Falar com o papa me fez ver a luz”, disse ele logo após o encontro com Sua Santidade. Contrito, retornou à França e foi preso ao cruzar a fronteira. Sua contrição, porém, não implicou uma disposição ardente pela punição. Kerviel só seria preso três meses depois, no domingo 18. A demora explica-se: ele retornou de Roma a pé para a França. “Resolvi caminhar como um protesto contra a tirania dos mercados financeiros”, disse ele no início da jornada, em que foi seguido por poucos amigos e muitos jornalistas.

Sua biografia é o melhor exemplo de como o modelo disfuncional do mercado financeiro não apenas impede as crises, como também as gera e as nutre até o ponto em que se tornam incontroláveis. Kerviel nunca foi uma pessoa notável. Nascido em Pont-l’Abbé, uma cidade de menos de dez mil habitantes na Bretanha, filho de um ferreiro e de uma cabeleireira de bairro, ele se graduaria em economia e faria um mestrado em finanças em uma universidade de segunda linha, em Lyon. Logo depois, iria trabalhar no departamento administrativo do banco de investimentos francês Société Générale, a léguas de distância da adrenalina e das remunerações milionárias das mesas de operação.

Retraído e tímido – chegou a ser indicado para concorrer a um cargo político em sua cidade natal, mas não se sentia confortável para fazer campanha –, Kerviel, porém, era ambicioso. Com muito esforço, foi promovido à mesa de operações com derivativos. Um belo dia, ele assumiu uma posição arriscada que garantiu ao banco um lucro de US$ 1 milhão. Recebeu um tapinha nas costas do chefe e um pequeno bônus. A busca pelos tapinhas seguintes o fez assumir riscos cada vez maiores, até que, em 2008, na esteira da crise financeira americana, o banco teve de reconhecer prejuízos de quase € 5 bilhões.

Demitido do Société Générale, Kerviel jura por Santo Ivo e Santa Ana, padroeiros de sua terra natal, que seus sócios estavam a par de tudo o que ocorria na mesa de operações. O banco, claro, garante que Kerviel agiu sozinho. Ambos estão mentindo. É impossível que um único operador assuma tantos riscos, a ponto de o valor de sua aposta ser superior ao valor do banco sem que ninguém perceba. Tampouco é crível e possível que qualquer executivo financeiro acompanhe a totalidade dos milhares de transações realizadas por seus operadores. No entanto, o que está em jogo aqui são os tapinhas nas costas.

Eles – e a promessa implícita de bônus cada vez mais polpudos que os acompanha – fornecem o combustível para uma ganância estrutural que visa a ganhos cada vez maiores, independentemente dos riscos. A “conversão” de Kerviel era previsível, assim como seus próximos passos daqui para a frente. Ele já publicou um livro de memórias que deve ser adaptado e chegar às telas dos cinemas em 2016. Após sair da cadeia, partirá para uma carreira política, incorporando o papel de detrator profissional do mercado financeiro, cobrando para ser entrevistado. Ou, então, optará por se transformar em um bem pago consultor, financeiro ou motivacional. O que não está previsto nesse roteiro, ainda, é a punição para qualquer um de seus chefes, ou regras mais duras para impedir um novo Kerviel.