Artigo

O declínio da Motorola

Os celulares acima são dois ícones da empresa. Mas, desde então, ela não fez mais nada memorável e está pagando um preço alto por isso 

Existe uma geração de consumidores que jamais esquecerá do StarTac e do Razr, ambos celulares da Motorola. O primeiro é um aparelho lançado em 1996, pesando 88 gramas, que revolucionou o design em seu tempo. O segundo, apresentado em 2004, é um dos telefones móveis mais vendidos da história.

As estimativas indicam que ele chegou à marca de 110 milhões de aparelhos comercializados. O problema é que, desde então, não há muito a ser lembrado sobre a empresa, a não ser o grande buraco no qual ela se meteu.

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Nos últimos quatro anos, a Motorola amargou prejuízos de US$ 7,9 bilhões, boa parte em função do mau desempenho da divisão de celulares. Na semana passada, a venda de sua área de infraestrutura de redes para a Nokia Siemens, por US$ 1,2 bilhão, foi considerada o começo da reestruturação que deve levá-la a se dividir em duas a partir de 2011, separando a área de telefonia móvel da de equipamentos profissionais. Como a Motorola chegou a esse ponto? “Nós não vimos a tendência dos smartphones e da tecnologia 3G”, resumiu Greg Brown, que dirige a empresa em conjunto com Sanjay Jha, em entrevista para o jornal econômico inglês Financial Times, no ano passado. Há várias razões que explicam a queda da Motorola. A primeira é a ausência de um produto desejável pelos consumidores desde o Razr. A empresa também tentou investir em um sistema operacional próprio, baseado em Linux e Java. Os rivais foram mais simples e não nadaram contra a maré, usando o Symbian ou o Windows Mobile. E, por fim, a derrocada da Motorola foi resultado da tática de comprar participação de mercado nos países emergentes com celulares que custavam US$ 50 ou menos. Evidentemente, esse preço não bancava o custo. A última linha de seu balanço, a partir de 2006, começou a comprovar isso. Era preciso brecar essa estratégia suicida. O resultado foi o doloroso processo de encolhimento de sua operação. Os números mostram esse declínio. Em 2006, a empresa vendeu 217 milhões de celulares. Em 2009, 58,4 milhões. A sua participação de mercado, que era de 23,3%, diminuiu para 3% no primeiro trimestre de 2010. De segunda maior fabricante de telefones móveis, agora ela é a sexta, atrás de Nokia, Samsung, LG, RIM e Sony Ericsson. A companhia aposta agora, com todas as suas forças, no sistema operacional Android. Desde que começou a vender celulares com a plataforma do Google, alguns resultados começaram a aparecer. No primeiro trimestre de 2010, ela registrou um lucro de US$ 69 milhões, frente aos US$ 231 milhões que perdeu em igual período de 2009. Apesar de ver sua participação de mercado em celulares cair, ela cresceu no segmento de smartphones, com a venda de 2,3 milhões de aparelhos. Mas a competição neste segmento está cada vez mais intensa: Apple, RIM, Nokia, Samsung, LG e HTC também têm avançado nessa área. A história da Motorola é um exemplo de que só uma marca forte não salva empresas. É preciso investir em produtos que sejam desejados pelos consumidores e estar atento às rápidas transformações tecnológicas. A Motorola, que fez o primeiro celular comercial do mundo, em 1983, está fadada a ser um coadjuvante do mercado que ela ajudou a criar.