Artigo

Quero um presidente que enterre Vargas

Chegou a hora de acabarmos com a legislação criada por Vargas 

Daqui a três meses os brasileiros vão escolher o novo presidente. Não com o meu voto. Nenhum dos candidatos me satisfaz. Minha pessoa física quer votar em um presidente que enterre Getúlio Vargas, que promova o desemprego e que retire os direitos dos trabalhadores, para que muitas pessoas físicas possam tornar-se pessoas jurídicas. A razão é simples: dinheiro. As finanças melhoraram quando minha pessoa física passou a ser uma pessoa jurídica. Ao se tornar uma pessoa jurídica, minha pessoa física passou a pagar metade do imposto. A mordida do Leão – um dinheiro cuja destinação é um mistério – foi de 16% dos ganhos da minha pessoa jurídica. Na minha pessoa física, essa mordida teria sido de 33%. Além do imposto, há a Previdência Social e o imposto sindical, religiosamente descontados. Minha pessoa física quer votar em um presidente que crave a estaca final no coração de Getúlio Vargas e acabe com a legislação trabalhista, a Previdência Social e a estrutura sindical. Comecemos pela legislação trabalhista. Ela impede contratações e desanima pessoas jurídicas  a empregar mais gente. Minha pessoa física quer o fim da Previdência Social, com seu rombo de mais de R$ 50 bilhões por ano, e crescendo. Minha pessoa física optou, há anos, por não depender da Previdência Social, daí o planejamento cuidadoso da minha aposentadoria. Seria bom se todas as pessoas físicas também  pudessem escolher o que fazer com seu dinheiro.
 

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Finalmente, o imposto sindical. Minha pessoa jurídica tem de pagar uma taxa  para o sindicato patronal, estabelecido por Vargas. Os boletos de cobrança chegam e são religiosamente pagos. Já uma carta do sindicato oferecendo serviços nunca chegou. Minha pessoa física quer um presidente que acabe com esse resquício da era Vargas e elimine a obrigatoriedade de contribuir para os sindicatos, pois eles não têm nada a oferecer em troca do pagamento obrigatório. A vida da minha pessoa jurídica não é perfeita. Ela tem de pagar taxas surpreendentes. A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, cobra uma taxa para fiscalizar o meu estabelecimento comercial. Minha pessoa pessoa jurídica paga, apesar de nenhum fiscal da Prefeitura jamais ter aparecido na sede social. Se vier, pode até ficar para almoçar, pois a pessoa jurídica e a pessoa física dividem o mesmo imóvel. Minha pessoa física quer votar em um presidente que acabe com todos os cartórios. O problema não são os R$ 3,15 gastos para que um funcionário entediado bata um carimbo e faça um rabisco em uma folha de papel. O problema é que minha pessoa jurídica não pode contratar um contínuo para ficar levando papéis de um lado para outro e, portanto, minha pessoa física perde 45 minutos em cada visita ao cartório. O presidente dos meus sonhos permitiria que tudo fosse resolvido pela internet. Minhas duas pessoas, a física e a jurídica, realizam transações bancárias assim há anos sem problemas. Nem Dilma Rousseff nem José Serra, que têm mais probabilidade de ganhar a eleição, citaram esses assuntos. Assim, minha pessoa física imagina que essas preocupações estejam longe de suas agendas. No que depender deles, o cadáver putrefato de Vargas vai continuar nos assombrando. Por isso, mesmo sendo isoladamente incapaz de definir a eleição, o voto da minha pessoa física não vai para nenhum dos dois.