Economia

‘Nosso principal problema hoje é fiscal’, diz Bracher

O presidente do Itaú Unibanco, Cândido Bracher, está otimista com as perspectivas de curto prazo para o Brasil. Segundo ele, o País entrou, em 2018, em condições favoráveis – com inflação baixa, juros em queda e a possibilidade de crescer 3% -, mas com a dívida pública aumentando de forma insustentável. Em Davos, para participar da reunião do Fórum Econômico Mundial, o novo presidente do maior banco da América Latina disse que o desafio econômico mais premente do Brasil é resolver a questão fiscal, mas para crescer no ritmo de outros emergentes o País precisa cuidar do problema estrutural da produtividade e, portanto, da educação.

Para Bracher, o governo precisa indicar ao mercado a disposição de conter a dívida pública – e o maior símbolo dessa disposição, no momento, é a reforma da Previdência. “Não creio que o mercado ainda aposte numa reforma neste ano. A expectativa, agora, é de aprovação no próximo ano.”

A economia mundial, segundo Bracher, está num bom momento, com inflação baixa, taxas de juros muito moderadas e crescimento generalizado. Falta saber se a valorização dos ativos é uma bolha. Mas os preços, acrescenta, parecem justificados quando se considera a perspectiva de juros subindo moderadamente e de inflação ainda contida apesar da recuperação do emprego.

Nesse quadro, o banco se prepara, de imediato, para um crescimento da demanda por crédito e produtos financeiros em geral, depois de uma fase de estagnação. O ambiente de risco é bom, com inadimplência bem comportada, comenta Bracher. Para o médio prazo, o objetivo mais importante é a adaptação às transformações culturais em curso no mundo.

Dirigentes do Itaú Unibanco têm participado habitualmente da reunião do Fórum Econômico, no final de janeiro. A agenda de Cândido Bracher inclui um jantar oficial com o presidente Michel Temer, nesta quarta-feira, 24. A seguir, os principais tópicos da entrevista ao Estado.

Panorama global. “O momento é bom, com baixa inflação, juros baixos e crescimento generalizado. Resta a pergunta: em que medida se pode falar de uma bolha? A situação não está clara, mas há bons elementos para achar que os preços dos ativos se justificam. A perspectiva de juros subindo moderadamente se consolida na medida em que não há sinais de pressões inflacionárias, mesmo com o desemprego em queda. Terá a inflação ficado menos sensível à criação de empregos? A relação pode ter mudado e é possível que, em algum momento, a inflação se manifeste.”

Retomada no Brasil. “Começamos 2018 em situação favorável, com inflação baixa, os juros mais baixos que temos visto, perspectiva de crescimento de 3% e desemprego começando a ceder. Vemos no banco um início de recuperação da demanda de crédito. A inadimplência diminuiu entre empresas e entre pessoas. Fato importante é a boa situação das contas externas, com grande superávit comercial, déficit moderado nas transações correntes e reservas de US$ 380 bilhões. Sem problema cambial as pressões são muito menores.”

“Em oposição a isso há problema fiscal. A dívida pública tem crescido. Em pouco tempo subiu de pouco mais de 50% para 75% do PIB e aumenta de forma insustentável. O governo precisa indicar ao mercado a disposição de conter o avanço da relação dívida/PIB – e o maior símbolo dessa disposição, hoje, é a reforma da Previdência.”

“Se os preços dos ativos estão firmes, hoje, é porque se acredita que o problema será enfrentado. Não creio que o mercado aposte numa reforma ainda neste ano. Mas há a esperança de que ocorra no próximo. O mercado aceita essa perspectiva e isso é comprovado pelos preços dos ativos. Além disso, juros menores ajudam a moderar o aumento da dívida em relação ao PIB.”

Os maiores desafios. “O principal problema econômico, hoje, é o fiscal. É uma questão política – de vontade política e de possibilidade de fazer no Congresso as costuras necessárias para a reforma da Previdência e para outras mudanças necessárias.”

“Mas o problema fiscal depende de medidas simples e conhecidas. Resolver essa questão permitirá um crescimento de uns 3% ao ano. Para o País crescer como outros emergentes, será preciso cuidar de questões estruturais, como a produtividade. Isso dependerá de várias mudanças, como a reforma política, para tornar o sistema mais racional e menos dependente de negociações como as que temos visto, e a reforma tributária.”

“Algumas inovações de grande efeito já foram aprovadas, como a trabalhista, a da TLP (taxa delongo prazo para financiar investimentos) e a do ensino médio. Também na área da educação é preciso cuidar da inclusão digital, desenvolvendo habilidades, aumentando o acesso aos meios eletrônicos e cuidando da segurança cibernética.”

O banco e o novo cenário. “No curto prazo, nos preparamos para um ano de crescimento da demanda de crédito e de outros produtos financeiros, depois de longa estagnação. O ambiente de risco é bom, com inadimplência bem comportada. Os juros mais baixos afetarão a rentabilidade, mas isso será compensado pela maior atividade.”

“Mas isso é o dia a dia do banco. Nosso objetivo mais importante de médio prazo é a adaptação às transformações culturais do mundo. O trabalho será baseado em três pilares: 1. esforço maior de compreensão das necessidades dos clientes, hoje expostos a oferta mais ampla de serviços; 2. atenção à tecnologia. Isso envolverá o desenvolvimento de produtos digitais mais adequados às necessidades dos clientes e, ao mesmo tempo, o aperfeiçoamento dos processos internos do banco, para ganhos de eficiência e qualidade; 3. gestão de pessoas, com incentivos ao desenvolvimento e avaliação baseada em meritocracia.”

“Outros pilares de transformação devem ser a gestão de riscos (incluídos os cibernéticos), a busca de rentabilidade baseada em oferta ampla de serviços, com menor dependência de crédito, e ênfase à internacionalização, especialmente da regionalização na América Latina.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.