Economia

Nos números do mercado, a condenação

Bolsa, juros, dólar e risco-Brasil mostram que investidores esperam uma eleição sem chances para o ex-presidente Lula

Crédito: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images

Investidor analisa cotações no pregão da B3: fluxo de recursos vultuoso nos primeiros dias de janeiro (Crédito: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images)

Índice Bovespa batendo recorde nominal, a 80 mil pontos. Dólar a R$ 3,21, menor cotação em quatro meses. Juros futuros para janeiro de 2019 a 6,905% ao ano – percentual que, pouco acima dos 6,75% da taxa Selic, indica calmaria à frente. Risco-Brasil, medido pelo índice Embi, a 222 pontos-base (centésimos de ponto percentual), valor comparável ao de junho de 2014, pouco antes da explosão da operação Lava Jato. Sem exceção, todos os números importantes para o mercado financeiro mostram que os profissionais que vivem de tomar decisões sobre dinheiro, próprio ou dos outros, consideram Luiz Inácio Lula da Silva praticamente alijado do pleito de outubro.

Essa convicção pode ser comprovada com mais números. Tradicionalmente, janeiro é um mês de entrada de recursos externos no mercado acionário brasileiro. Depois de realizarem os lucros do ano encerrado em dezembro, os gestores de recursos de fora costumam refazer suas posições em janeiro. Em 2017, a entrada líquida de recursos, considerando a diferença entre entradas e saídas, foi de US$ 6,2 bilhões. Nos 15 primeiros dias de 2018, segundo estimativas de analistas independentes, o total está em US$ 4,5 bilhões, ou 72% do total do ano passado. Claro, o exuberante manancial de recursos do mercado externo, e os prognósticos de que os juros permanecerão perto de zero nos Estados Unidos e na Europa também ajudam. No entanto, as condições do mercado internacional não são radicalmente diferentes de há dois anos, pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff, quando o dólar superava quatro reais, o índice Bovespa estava em 37 mil pontos e o risco-Brasil era de 512 pontos-base.

O que vem animando os investidores é o julgamento de Lula em segunda instância, marcado para começar na quarta-feira, dia 24 de janeiro. Nessa data, três desembargadores da 8ª turma do Tribunal Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, vão definir se mantém ou não a condenação do ex-presidente a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva, sentença expedida pelo juiz Sérgio Moro em julho do ano passado. Na balança da Justiça está o destino das eleições. Condenado, Lula teoricamente fica impedido de participar do pleito de outubro.

A condenação é dada como certa pela maioria do mercado. O que suscita dúvidas são os números: se será uma decisão unânime dos três juízes, representando uma derrota de três a zero, ou se o placar será de dois a um contra o ex-presidente. Na segunda hipótese, os advogados de Lula poderão entrar com embargos infringentes. Se a condenação for unânime, só cabe recurso nos tribunais superiores. Para a equipe de análise política da XP Investimentos, o resultado deve ser uma condenação unânime. “O desembargador Carlos Eduardo Thompson, presidente do TRF da 4ª Região, já disse que considera a sentença de Moro que condenou Lula uma peça histórica”, diz Richard Back, analista político da XP.

Tudo está razoavelmente garantido até o julgamento. O problema dos investidores é o que fazer a seguir. O mercado financeiro funciona à base de expectativas, e elas são pouco claras para além do dia 24 de janeiro. A questão não de um, mas de vários bilhões de dólares, é: qual será a estratégia de Lula depois da decisão do TRF? Político experiente, com uma enorme capacidade de articulação e liderança folgada nas pesquisas, o ex-presidente e o PT não podem ser considerados cartas fora do baralho eleitoral. Mesmo confiante na condenação, Back, da XP, diz não acreditar na prisão do ex-presidente. “Lula sabe o que faz, e, mesmo com uma decisão desfavorável, deve continuar em campanha”, diz o analista. “Se ele estiver no palanque, o mercado cada vez mais vai prestar atenção no seu discurso e na sua atuação, o que deve aumentar a volatilidade dos ativos”, diz Back.

Há muitos outros pontos a avaliar. Ainda que não suba aos palanques como candidato, Lula deverá apoiar outro postulante ao cargo e seu potencial para transferir votos não é desprezível. Como cabo eleitoral, elegeu um pouco conhecido Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo em 2012, sem falar da eleição e reeleição de Dilma, em 2010 e 2014. “O PT está só esperando o julgamento para oficializar uma candidatura”, diz o analista Pedro Galdi, da Corretora Magliano. “Por enquanto, não temos como traçar uma estratégia de investimentos precisa.”

Galdi diz acreditar que só será possível definir uma alocação dos investimentos quando o quadro eleitoral ficar claro. “Se houver um candidato reformista à frente nas pesquisas, a bolsa deve passar de 100 mil pontos, pela certeza de que o País terá uma política fiscal responsável”, diz ele. Na outra ponta, porém, o cenário é bem menos previsível. Se um candidato petista tiver possibilidades concretas de ser eleito, haverá uma queda brusca dos preços dos ativos (leia reportagem aqui). “Fica difícil estimar o patamar de recuo”, diz Galdi.