Economia

No fim da linha

Em novo ranking de competitividade, o Brasil aparece na penúltima posição, à frente apenas da Argentina. Caso ocupasse o primeiro lugar, seu PIB poderia crescer quatro vezes mais. Como mudar esse quadro?

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Foco na produção: mão de obra é considerada suficiente e barata. Falta melhorar a qualificação (Crédito: Divulgação)

Ao buscar uma proteção para a crise econômica que se avizinhava no Brasil, a subsidiária local da fabricante italiana de máquinas de centrífuga Pieralisi decidiu ampliar, em 2014, o foco na área de manutenção de equipamentos, para compensar uma esperada queda na venda de novas unidades. Os investimentos exigidos para adaptar a linha de produção à nova estratégia, porém, trouxeram um desafio: a dificuldade de obter crédito no País. A saída foi uma operação com a matriz, que ampliou a complexidade do planejamento e acrescentou o risco cambial à transação. Mesmo com os empecilhos, o grupo não se arrepende. “Os juros dos bancos brasileiros tornam impossível uma operação de crédito aqui”, afirma Estela Testa, diretora da Pieralisi Brasil. “Fui obrigada a conseguir verba com a matriz.” Com as mudanças feitas graças ao recurso extra, a filial conseguiu sustentar um crescimento de 10% ao ano.

Nem todas as companhias que atuam no Brasil têm o privilégio da ajuda externa. Elas são obrigadas a lidar com o alto custo de financiamento (leia na reportagem) e com uma série de outros obstáculos, que impactam a capacidade de competir mundo afora. No levantamento mais recente sobre competitividade feito pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), o Brasil é o penúltimo colocado numa lista de 18 países (confira ao final da reportagem). A comparação não é feita com potências como Estados Unidos e Alemanha, mas sim com economias de tamanho semelhante ou que tenham características parecidas, como a participação do comércio exterior.

Os dados são referentes a 2016, mas a foto ainda é parecida. O Brasil ficou à frente de Argentina e está atrás de Peru, Turquia e Tailândia. “Infelizmente, não conseguimos sair do penúltimo lugar”, afirma Renato da Fonseca, pesquisador-chefe da CNI. Se observados os quesitos individualmente, a cena parece até pior. O Brasil ficou em último em três dos nove itens avaliados. Caso ocupasse o topo do ranking, a previsão dos pesquisadores é a de que o crescimento do PIB brasileiro, calculado em 1% em 2017, poderia ser quatro vezes maior.

A luta contra os juros: Estela Estrela, da Pieralisi Brasil, precisou recorrer à matriz para financiar investimentos na fábrica (Crédito:Claudio Gatti)

DINHEIRO conversou com economistas e empresários de todo o País para identificar possíveis medidas para melhorar essa situação, a começar pelas barreiras do crédito, como o exemplo do grupo italiano. Nesse quesito, a principal queixa apontada é a falta de concorrência entre os bancos. O Brasil apresentou a maior taxa de juros real de curto prazo entre as economias pesquisadas, de 10,8%, muito acima da Rússia (3,3%), a segunda mais alta. O País também possui o maior spread bancário, de 39,7%, seguido pelo Peru (13,8%). “Há uma necessidade de um maior mercado de capitais, que possibilite a abertura de novos bancos”, diz Fonseca, da CNI.

Em infraestrutura e logística, o Brasil só ganha da Colômbia, onde os atrasos nesse item estão relacionados ao histórico de conflitos armados com o narcotráfico, incluindo as Farc. As dificuldades fazem parte do dia a dia da catarinense Coopercarga, dona de uma frota de quase 2.000 caminhões. A transportadora conhece bem a péssima qualidade das estradas nacionais. “Desistimos de participar de alguns projetos pelo alto custo das operações, especialmente no Nordeste”, afirma João Celso Ferreira, gerente de projetos da empresa. Não há apenas uma resposta para resolver essa questão. A mais imediata é uma abertura maior para a iniciativa privada, por meio de concessões. “É uma questão de o Estado deixar de ser operador, mas continuar sendo regulador”, afirma Antônio Corrêa de Lacerda, economista da PUC-SP. “As agências já existem, mas é preciso que não estejam submetidas aos interesses do governo da época.”

Os impostos brasileiros são um destaque negativo. A alíquota de 34% sobre o lucro corporativo fica ainda mais defasada num momento em que países como os Estados Unidos reduzem a carga tributária às empresas. A questão essencial é uma reforma tributária que permita taxas menores, diminua a complexidade e acabe com distorções como a experimentada pela fabricante chinesa de painéis solares BYD. A companhia imaginava que seria mais vantajoso fabricar por aqui. Mas descobriu que era exatamente o contrário. “No total, o painel fabricado localmente paga em média 44% de imposto e o importado só 12%”, afirma Adalberto Maluf, diretor de relações governamentais da BYD Brasil.

Segundo dados do Banco Mundial, as empresas brasileiras gastam quase 2.000 horas para pagar os impostos, mais do que o dobro da Venezuela, a segunda pior na avaliação da instituição. “As empresas têm de pegar tributaristas que saibam se algum imposto não está sendo esquecido”, afirma Sérgio Firpo, economista do Insper. Estrela, diretora da Pieralis, percebe a distorção em seus contatos com outros grupos estrangeiros. “A minha empresa tem quatro vezes mais funcionários da área tributária do que as europeias.”

Não há muito a comemorar mesmo nos itens em que o Brasil está um pouco melhor. Em inovação e tecnologia, a posição é superior aos outros latino-americanos, mas aquém dos asiáticos. Mais uma vez, o que pesa é um cenário de instabilidade. “Inovação exige pesquisa, contratação de pessoas. Se os juros são altos, se o câmbio muda, se a burocracia é grande, não se cria um ambiente favorável à inovação”, afirma Corrêa, da PUC-SP. Uma solução seria ampliar políticas de incentivo. “São necessárias formas de desonerar o investimento à inovação”, diz o economista.

MÃO DE OBRA Na comparação sobre os trabalhadores, a conclusão é a de que há profissionais disponíveis, a um custo baixo. O problema é a produtividade, pois o trabalhador brasileiro produz menos riqueza por hora trabalhada do que os de alguns países mais bem colocados. Na Austrália, por exemplo, um operário produz o equivalente a R$ 137 de riqueza por hora. No Brasil, R$ 59, menos da metade. No campo da qualificação, o ensino é a solução mais óbvia. Enquanto o Brasil tem menos de 5% dos alunos do ensino médio em cursos profissionalizantes, países como Argentina e México apresentam mais de 10%. “Há um descolamento entre o que se aprende na escola e o que é útil no mercado de trabalho”, afirma Firpo, do Insper. “É preciso saber gerar habilidades produtivas nos alunos”

Pior do que as questões individuais é a cena brasileira, quando se avaliam o ambiente de negócios (confiabilidade dos empresários em leis e instituições), a competição e a escala do mercado doméstico. “Para esses pontos, só haverá resultados positivos em longo prazo, o que depende de políticas de governo”, afirma Pedro Dutra Fonseca, economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Medidas para tornar as leis mais claras e perenes, reformas para diminuir a dívida pública e o aumento da transparência do governo têm de ser tomados com urgência, na opinião dos especialistas. “O mais importante para a iniciativa privada é a adoção de um marco regulatório claro para a atração de novos investimentos e o incentivo à livre concorrência”, afirma Benjamin Baptista Filho, presidente da ArcelorMittal. Nessa corrida, a CNI deixa um alerta: “O Brasil melhorou, mas outros países têm melhorado mais”, afirma Fonseca. “É preciso não só fazer o dever de casa, mas fazer isso mais rápido.”