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Neymar e o vexame da desculpa patrocinada

A única forma de recuperar a credibilidade é a dar tempo ao tempo, não tentar engabelar árbitros e adotar postura de atleta de alto nível

Neymar e o vexame da desculpa patrocinada

Um dos mais conhecidos provérbios chineses diz que a “palavra é como prata, o silêncio vale ouro.” Na semana passada, o jogador Neymar Jr. e um de seus patrocinadores, a Gillette, marca de produtos de barbear da americana P&G, perderam a oportunidade de praticar a nobre arte do silêncio diante das críticas geradas pela postura teatral do camisa 10 da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Rússia. Três semanas depois da eliminação do Brasil, uma surpreendente desculpa patrocinada foi ao ar no intervalo do Fantástico, da Rede Globo, ajudando a piorar o que já estava ruim: a reputação do atacante. “Trava de chuteira na panturrilha, joelhada na coluna, pisão no pé. Você pode achar que eu exagero, e às vezes eu exagero mesmo. Mas a real é que eu sofro dentro de campo. Agora, na boa, você não imagina o que eu passo fora dele”, disse Neymar, em um trecho da campanha publicitária.

O desabafo decorado de Neymar, que provavelmente não despertou sentimento de pena em ninguém, só não foi pior porque ele admitiu seus exageros cometidos durante o torneio, disse que aprendeu com os erros e que adotou um novo comportamento, sob o slogan “um novo homem todo dia”. O problema é que, pelo discurso vitimista, a repercussão foi extremamente negativa na sociedade, na imprensa internacional e nas redes socais. “O vídeo de Neymar, feito por um patrocinador, foi fiel ao seu estilo patético”, atacou a revista alemã Der Spiegel. “O vexame pessoal de Neymar em 2018 é equivalente à vergonha coletiva do Brasil em 2014, ao perder de 7 a 1 para a Alemanha”, comparou do jornal argentino Clarín. A bola fora de Neymar e da Gillette fez com que os autores do desastroso pedido de perdão cogitassem buscar estratégias para tentar minimizar os efeitos negativos para a carreira do jogador e para a imagem das empresas. Mas, no final, decidiram que a campanha será mantida.

Ainda não se sabe quanto tempo levará para que a reputação do jogador seja restaurada. O certo é que Neymar ficou um pouco mais rico com a campanha. Ele teria recebido algo em torno de R$ 1 milhão para participar do comercial da última semana.
O contrato da Gillette com o jogador está estipulado em R$ 26,2 milhões, por dois anos. “O comercial, como foi abordado, pode prejudicar ainda mais a carreira do jogador”, diz o consultor em marketing esportivo Ricardo Mathias. “A imagem dele está desgastada com a opinião pública e isso é reflexo da atuação na Copa do Mundo.”

É consenso que a única forma de Neymar recuperar sua credibilidade é a dar tempo ao tempo, não tentar engabelar árbitros com suas faltas simuladas e adotar uma postura madura de atleta de alto nível. Seu desempenho no Barcelona e, atualmente, no Paris Saint Germain tem mostrado que não falta capacidade e talento para o jogador dar a volta por cima dentro de campo.