Edição nº 1083 17.08 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Paulo Leme, presidente do Conselho de Administração da Vinland Capital

Nenhum dos cenários eleitorais extremos está precificado pelo mercado

Calebe Simões / Ag. IstoÉ

Nenhum dos cenários eleitorais extremos está precificado pelo mercado

Gabriel Baldocchi
Edição 10/08/2018 - nº 1082

Nos próximos meses, os alunos da Universidade de Miami que passarem pela disciplina de finanças internacionais terão acesso a uma visão privilegiada do Brasil. Como professor estreante, o economista Paulo Leme realizará o seu sonho de dar aulas fazendo o que, na prática, já fazia há um bom tempo: explicar a conjuntura econômica a um grupo de interessados. Até então, as lições eram voltadas exclusivamente a investidores e clientes do Goldman Sachs, banco no qual foi presidente para o Brasil até o início deste ano, depois de passar pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Dos Estados Unidos, onde atualmente preside o Conselho de Administração da gestora Vinland Capital, Leme conversou com a DINHEIRO sobre as projeções para a economia brasileira e para as eleições. Confira:

DINHEIRO – Começamos o ano falando num PIB de 3% e agora estamos próximos de 1%. O que aconteceu? Há algum problema estrutural?

PAULO LEME – Os economistas foram otimistas demais. Os desafios e os riscos eleitorais durante 2018 foram subestimados. Fatores combinados, como a greve dos caminhoneiros e as eleições, levaram para uma projeção abaixo do que pareceria realista no começo do ano, de 2%. Hoje gravita mais em torno de 1% ao ano. Em termos estruturais, tem uma deficiência enorme de poupança, que está abaixo do nível de países africanos, uma taxa de investimentos muito baixa e uma produtividade da ordem de zero. Esse número vinha próximo a 2%, então quer dizer que o PIB potencial, que já foi de 4% e 4,5%, está muito mais próximo de 1,5% e 2%. Sem uma quantidade de reformas na parte fiscal, vai ser muito difícil sairmos desse patamar de 2%. Para 2019, eu acho que o PIB está mais próximo de 2% ou 2,5%.

DINHEIRO – O senhor já havia alertado para o problema da poupança numa entrevista em 2013. Aprendemos a lição? Esse tema deve ser tratado no debate eleitoral?

LEME – Me surpreenderia muito se o debate político fosse de alto nível técnico em matéria de economia. Não vejo isso. Com um nível tão baixo de poupança doméstica, ou se tem um entrada gigantesca de fluxos de capitais ou um processo de ajustes. Quando se tem um déficit primário acima de 2% do PIB, a primeira medida que tem de ser feita é um ajuste fiscal nos quatro anos, da ordem de 4%. Pode fazer metade nos dois primeiros anos e a segunda metade, nos outros. Nem tudo isso precisa vir de corte de despesas. Com reformas estruturais profundas e abrangentes poderia se ter um aumento de produtividade, uma alta no investimento e, com isso, o crescimento do PIB. A receita preencheria o resto desse hiato fiscal.

DINHEIRO – O risco político já foi totalmente precificado pelo mercado ou ainda veremos mais volatilidade nos índices?

LEME – No começo do ano tinha a questão das eleições, mas praticamente estava definido que a Faria Lima queria um candidato reformista e que ele ia ganhar com relativa facilidade, seja lá quem fosse. Depois, concluiu-se que estava muito difícil chegar a uma coalizão por um nome forte no centro. O mercado vendeu e trocou de posição. Teve queda forte da Bolsa e afetou o câmbio. Quando definiu quem é o candidato do centro, o Geraldo Alckmin, o mercado comprou essa opção. Eu diria que nenhum dos cenários eleitorais extremos está precificado pelo mercado. Uma vitória do Alckmin poderia levar a um nível de Bovespa mais próximo a 95 mil pontos e uma apreciação do câmbio a R$ 3,50. Uma vitória do Alckmin não está no preço, como não está no preço o Bolsonaro ou Haddad ganhando, que seria uma queda da Bolsa. O mercado trataria de maneira diferente os dois, mas não otimista. O fato de que o Centrão está em volta de um candidato só é positivo, mas acho que tem muita coisa para acontecer até outubro para ter uma reprecificação dos ativos e isso se traduz em volatilidade.

DINHEIRO – Vai depender um pouco das pesquisas de intenção de voto.

LEME – Para um candidato que sairia vencedor em outubro, a posição inicial do Alckmin é muito desconfortável. Não é que ele vai conquistar corações e mentes, mas pode crescer mais pelos erros dos opositores. Não é uma vitória fácil. Tem praticamente metade dos eleitores que não se focaram nas eleições ou 25% que votariam em branco ou nulo. O cenário é ainda de difícil definição, mas está praticamente entre quatro candidatos: Alckmin, Haddad, Bolsonaro e Marina, ainda no páreo.

DINHEIRO – O mercado financeiro abraçou o Bolsonaro?

LEME – Não, não acho. Existe uma dispersão muito grande de opiniões. Há entusiasmo com o Paulo Guedes, que é um excelente economista. Seria muito positivo ter alguém como ele em Brasília, mas temo que isso é subestimar o que é necessário a partir de 2019. Há dois diferentes desafios, uma bela condução da política econômica, com bons economistas, mas uma reforma política, uma recondução do processo político e a capacidade de gestão no Congresso. A governança é tão importante quanto a política econômica e não me parece que o Bolsonaro preenche esses quesitos. É um candidato que tem de ser considerado como possível para o segundo turno, mas que apresenta riscos para o mercado, para a economia e para o processo político brasileiro também.

DINHEIRO – No processo de escolha de vices, ele já enfrentou algumas dificuldades.

LEME – As primeiras declarações de seu vice não foram realmente das mais felizes.

“Bolsonaro apresenta riscos para a economia e para a política brasileira”Em debates e sabatinas, o candidato vem tentando reforçar a mensagem de que as ideias do guru econômico Paulo Guedes serão integralmente adotadas (Crédito:Mateus Bonomi)

DINHEIRO – Como os estrangeiros enxergam o país?

LEME – O investidor olha muito mais risco-retorno. A realidade que se apresenta é a seguinte. O carrego, que é o ganho com juros, ajustado por câmbio, no Brasil, despencou: foi de 14% para 6%. E, nos EUA, a situação foi oposta, tem uma taxa de juros que está subindo e uma moeda se valorizando. Qual é a melhor das duas opções, estar exposto em real ou em dólar? Tem de apresentar um caso de crescimento ou de juros muito favorável para compensar o risco político. No momento, é difícil deixar para trás uma bolsa americana que sobe, uma economia que cresce acima de 4%, com uma taxa de juros em alta, com um câmbio se valorizando. Na margem, o investidor estrangeiro, que se afastou dos emergentes no segundo trimestre, agora criou um vetor de preços mais interessantes para voltar a entrar. Está olhando de volta os emergentes para realocação de carteiras no 4º trimestre. Se fizermos o dever de casa e apresentarmos uma proposta decente de programa econômico, não vejo porque não ser um destino importante e o investidor voltar ao Brasil.

DINHEIRO – Os dados de crescimento nos EUA mostram um ritmo muito forte. Esse nível é sustentável? O que isso significa para o resto do mundo?

LEME – A taxa de 4,1% é realmente muito impressionante, mas não é sustentável para os EUA. Está mais próximo de 2,5% ao ano do que dos 4%.Essa disparada é resultado do estímulo fiscal, não só da redução dos impostos, mas pelo aumento do gasto público. A taxa de desemprego de 3,6% é a mais baixa dos últimos 50 anos. A maior ameaça à sustentabilidade ao crescimento americano é o próprio governo. Na medida em que vai sobrestimulando uma economia que não precisa de estímulo fiscal e continua gastando e aumentando o déficit, eventualmente o que está contratando é a necessidade de aumentar as taxas de juros para mais do que o mercado espera. O risco é sobrestimular e forçar um freio via Fed (banco central americano), o que sempre leva a uma recessão. E a escalada de uma guerra comercial é bastante desencorajadora porque sabemos que é uma receita certa em que todos perdem.

DINHEIRO – O Brasil está preparado para a guerra comercial e para a alta dos juros nos EUA?

LEME – O Brasil está exposto. Pelo lado da guerra comercial, é um choque negativo. A fúria da guerra comercial não é necessariamente direcionada ao Brasil e o País é uma economia extremamente fechada, portanto, um choque externo via comércio internacional obviamente é negativo, mas não devastador. O que me preocupa muito mais é um aumento muito rápido dos juros, de uma reversão dos fluxos de capitais em direção aos EUA e, pior, se tiver eventualmente uma desaceleração da economia mundial, que vai encarecer o processo de ajuste necessário em 2019.

DINHEIRO – Perdemos a janela recente de calmaria no exterior?

LEME – Sim, se perdeu uma janela importantíssima, que nos deixa mais vulneráveis para 2019 e vai encarecer o processo de ajuste. Desde que haja disposição do governo, do Congresso e da população de topar um programa econômico sólido, os benefícios viriam suficientemente rápidos para compensar a dureza do curto prazo. A perspectiva poderia melhorar rapidamente.

“A maior ameaça à sustentabilidade ao crescimento americano é o próprio governo”O presidente Donald Trump exaltou crescimento de 4% no segundo trimestre (Crédito:AFP Photo)

DINHEIRO – Os assessores econômicos dos candidatos falam numa janela de seis meses para tocar o grosso do ajuste. É possível?

LEME – Acho difícil. Mesmo em situações extremas, como em 1999 e 2003 , em que teve ajustes concentrados, não se conseguiu fazer tanto em tão pouco tempo. Tem de pensar muito mais no médio e no longo prazo. A coerência e a persistência de um processo de ajuste é mais importante do que fazer de uma vez. O segredo é que os benefícios têm de vir relativamente rápidos para continuar com apoio. O ajuste que tem de fazer é da ordem de 4% do PIB. Não vai ser feito em seis meses ou um ano. Precisa de quatro anos, no mínimo. Saber dosar ajuste fiscal com retomada do crescimento vai ser a arte, mas sem apoio político, não vai funcionar. Se não tiver um debate claro e alertar a população, acho que será difícil fazer isso em 2019.

DINHEIRO – Na sua avaliação, quais são as principais medidas?

LEME – No ajuste fiscal, há uma necessidade de aumentar o esforço primário entre 4% e 4,5% do PIB. Parte disso vem através de corte de custos, principalmente no gasto com pessoal. A outra parte virá na medida em que reformas estruturais comecem a ser aprovadas, porque ajudam a balizar expectativas, atraem capital para investimentos e achatam a curva de juros. Quando se olha a curva de juros hoje, há um prêmio de risco brutal. Ou seja, o mercado financeiro acredita que vai ter um desequilíbrio fiscal crescente e uma dívida bruta explodindo para mais de 95% do PIB. Na medida em que tem um programa de ajuste, reduz esse prêmio de risco, a taxa de juros longa começa a cair e os investimentos começam a deslanchar. Outra parte importante é uma abertura comercial. Não tenho dúvida que parte do processo de retomada seria do setor externo brasileiro. Fazer uma reforma tributária também é fundamental.

DINHEIRO – Há um debate sobre a viabilidade do teto de gastos a partir de 2019. Ele se sustentará?

LEME – O teto é uma excelente medida inicial. É necessária, mas não suficiente. Se não corta o gasto primeiro, não adianta ter teto. Tem de ter uma política fiscal compatível com a geração de superávits primários e de corte de gasto para poder se enquadrar dentro do teto, se não ele desaba.

DINHEIRO – Dá tempo de tomar as medidas antes de desabar?

LEME – Dá sim, na medida em que tem um governo que arranca na direção correta em matéria fiscal. Não precisa fazer os 4% de ajuste em seis meses. A previsibilidade e o programa de médio prazo é tão importante quanto a implementação. Pode preservar o teto de gastos desde que tenha logo de cara um programa fiscal sólido. Outra coisa fundamental é incluir a parte de redução da fatia do Estado em todas as frentes. A privatização é importante não só pela produtividade como também para gerar receitas extraordinárias no curto prazo, que podem dar tempo de poder gerar superávit primário e ter uma situação fiscal viável.

  • Dólar Comercial
    R$3,94000 +0,61%
  • Euro Comercial
    R$4,50380 +0,51%
  • Dow Jones
    25.759,60 +0,35%
  • Nasdaq
    7.819,0000 +0,03%
  • Londres
    7.588,00 +0,39%
  • Frankfurt
    12.348,20 +1,13%
  • Paris
    5.381,09 +0,68%
  • Madrid
    9.464,80 +0,50%
  • Hong Kong
    27.598,00 +1,41%
  • CDI Anual
    6,39% 0,00%

Economia

Total de brasileiros inadimplentes equivale a quase 'uma Itália'


“A sinergia entre o Banco Inter e a MRV é intensa, mas no âmbito intelectual e do DNA ”

Entrevista

“A sinergia entre o Banco Inter e a MRV é intensa, mas no âmbito intelectual e do DNA ”

Apesar do dólar alto, cresce ‘poupança’ de brasileiros em pontos de fidelidade

Economia

Apesar do dólar alto, cresce ‘poupança’ de brasileiros em pontos de fidelidade

Entrevista

Prática do lobby deveria ser regulamentada no País, avalia pesquisadora

Crise venezuelana

Governo enviará 120 militares e 36 voluntários da saúde para Roraima

Acidente

Explosão atinge caldeira de refinaria da Petrobras em Paulínia


Negócios


Lucro da Caixa no 2º trimestre soma R$ 3,4 bi, alta de 33,9% em um ano

Balanço

Lucro da Caixa no 2º trimestre soma R$ 3,4 bi, alta de 33,9% em um ano

PepsiCo anuncia compra da israelense SodaStream, por US$ 3,2 bilhões

Aquisição

PepsiCo anuncia compra da israelense SodaStream, por US$ 3,2 bilhões


TV Dinheiro

Entenda a expansão do mercado de cafés especiais no Brasil

Negócios

Negócios

Entenda a expansão do mercado de cafés especiais no Brasil

O programa Dinheiro na Semana recebe Marco Kerkmeester, CEO e fundador da rede Santo Grão, para falar sobre o mercado de cafés especiais no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira de Cafés Especiais, o crescimento projetado para este ano é de 19%, entre cafés em grãos, torrado, moído e em cápsulas


Mundo


EUA rejeita oferta da Turquia para libertar pastor americano

Tensão

EUA rejeita oferta da Turquia para libertar pastor americano

Venezuela corta cinco zeros das notas de dinheiro e lança pacote

Economia

Economia

Venezuela corta cinco zeros das notas de dinheiro e lança pacote

Grécia deixa para trás planos de ajuda mas não as reformas

Europa

Europa

Grécia deixa para trás planos de ajuda mas não as reformas

Tiros contra embaixada dos Estados Unidos em Ancara

Turquia

Turquia

Tiros contra embaixada dos Estados Unidos em Ancara


Entrevista

GUILHERME BENCHIMOL, CEO DA XP INVESTIMENTOS

GUILHERME BENCHIMOL, CEO DA XP INVESTIMENTOS

"Hoje, 99,9% das fintechs no Brasil são deficitárias"

A XP passou de uma modesta corretora com quatro funcionários, em 2001, para a maior companhia independente de investimentos do País, com R$ 170 bilhões em custódia


Economia


As moedas no vermelho

Emergentes

As moedas no vermelho

Pressionada por um tuíte de Donald Trump, a Turquia mergulha em mais uma tormenta econômica e revive o temor de uma nova crise nos países emergentes

O Brasil que o PIB quer

Eleições

O Brasil que o PIB quer

Na eleição das reformas, entidades empresariais enxergam um espaço maior para influenciar a agenda do País. O esforço de atenção aos presidenciáveis está cada vez mais profissional


Mercado digital

No País do desemprego, sobram vagas em TI

Oásis

No País do desemprego, sobram vagas em TI

Num País com mais de 13 milhões de desempregados, startups que tentam revolucionar o mercado contam com milhares de vagas abertas. O que essas empresas querem e esperam de um profissional?

Elon Musk: o polêmico do Twitter

Rede social

Elon Musk: o polêmico do Twitter

O bilionário Elon Musk, fundador da Tesla, tem usado a rede social com a mesma intensidade que o presidente Donald Trump. Mas, para ele, as consequências podem ser mais sérias

A receita Internacional da Bematech

Grupo Totvs

A receita Internacional da Bematech


Finanças

O Brasil no banho turco

Investidores

Investidores

O Brasil no banho turco

Mercados balançam com turbulência internacional. Saiba o que pode acontecer com o dólar


Negócios


Falta molho no negócio da Kraft Heinz

Gestão

Falta molho no negócio da Kraft Heinz

A Kraft Heinz chegou ao topo com um estilo de gestão de cortar custos, aumentar a eficiência do negócio e adquirir um concorrente. Mas os resultados estão fracos e o mercado pede inovação. A empresa poderá entregar?

Grandes empresas puxam crescimento dos escritórios compartilhados no Brasil

Juntos e misturados

Grandes empresas puxam crescimento dos escritórios compartilhados no Brasil

Grandes empresas como Braskem, Unilever e EDP têm puxado o crescimento dos escritórios compartilhados no Brasil. O que elas ganham com essa mudança?


Colunas


O tsunami Erdogan

Editorial

O tsunami Erdogan

O avanço do Banco Inter

Moeda Forte

O avanço do Banco Inter

A derrota da Monsanto

Sustentabilidade

A derrota da Monsanto

Dados mais seguros

Dinheiro & Tecnologia

Dados mais seguros

O relógio do Rambo

Cobiça

O relógio do Rambo


Artigo

Suprema vergonha

Por Ralphe Manzoni Jr.

Por Ralphe Manzoni Jr.

Suprema vergonha

Por que, apesar de legal, o aumento de 13,86% nos salários dos ministros do STF é imoral

X

Copyright © 2018 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.