Economia

Nem sempre é a economia que derruba presidente

Na América do Sul, tradicionalmente, destituições de líderes estão atreladas a problemas econômicos, fator que não foi decisivo para a situação que a Bolívia vive hoje

Crédito: Daniel Walker / AFP

Enquanto Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Venezuela enfrentam problemas na economia e lidam, em diferentes graus, com críticas aos seus modelos econômicos – fator decisivo para o Indicador de Clima Econômico (ICE) da América Latina ir de -26,4 pontos para -28,2 entre o segundo e o terceiro trimestre do ano – a Bolívia parecia estar à margem: com pobreza extrema reduzida à metade no governo Evo Morales e Produto Interno Bruto crescendo anualmente na casa dos 4% tudo parecia correr bem. Mas era só aparência. Provando que nem sempre são os problemas financeiros que derrubam um presidente, a população boliviana se dividiu e isso culminou na renúncia abrupta do presidente Evo Morales (no poder desde 2006), que havia ganhado a eleição em outubro para cumprir seu quarto mandato.

E a causa está exatamente aí. Para seus adversários, as últimas eleições foram marcadas por fraudes e manipulação de resultados. A avaliação é a mesma dos observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA). A insatisfação teve origem em 2016, quando a possibilidade de Evo se canditar mais uma vez foi rechaçada num referendo. Mas a corte suprema do país, vinculada ao presidente, aceitou mudança nas regras em 2017, permitindo que ele esticasse sua presidência até 2025. Parte da população perdeu a fé no presidente e, mesmo com a economia indo bem, afirmava que o mandatário queria se perpetuar no poder. Essa divisão no país formou uma espécie de bomba relógio, e era uma questão de tempo até que estourasse.

BARBÁRIE Aliada de Evo, prefeita Patricia Arce, da cidade do Vinto, na Bolívia, foi hostilizada, pintada e obrigada a caminhar descalça (Crédito:STR / AFP)

INSTABILIDADE Para Ricardo Ritoletto, pesquisador e chefe de estudos da América da Universidade de Coimbra, em Portugal, as tensões na América do Sul, não apenas enfraquecem a região, como chamam atenção do mundo. “Essa instabilidade não passa despercebida. Há muito interesse na região, tanto na parte econômica quando ambiental”, diz. “A região precisa agir em conjunto para se fortalecer e não perder a soberania.”

No Chile, os protestos têm raízes eminentemente econômicas e se tornaram mais intensos a partir do dia 18 de outubro – entram na quarta semana, com 19 mortos e quase 600 feridos. Como estopim, o aumento de passagens de transporte público. No Equador, os protestos também se iniciaram com o anúncio de um pacote de austeridade, que incluía corte ao subsídio de combustíveis, e duraram duas semanas. O presidente Lenín Moreno trocou o chefe das forças armadas, para dar fim às manifestações, mas voltou atrás no fim dos subsídios.

ESTOPIM: FIM DE SUBSÍDIO No Equador, a possibilidade de eliminar subsídio a combustíveis levou à onda de protestos. Presidente Lenín Moreno recuou (Crédito:Rodrigo Buendia / AFP e Martin Bernetti / AFP)

Entidades internacionais passaram a monitorar mais de perto o cenário. A professora de relações internacionais e consultora executiva da embaixada argentina no Brasil, Sueli Castanheri, diz que para os dirigentes da Organização das Nações Unidas (ONU), a questão é que as tensões (comerciais) entre China e Estados Unidos e os alertas constantes de conflitos no Oriente Médio já são problemas grandes demais. “E um novo vetor de estresse seria muito ruim”, diz ela. Outro fator apontado por Castanheri é que a saída de Evo – que se divide entre os que chamam de golpe e os que chamam de renúncia – pode fortalecer a polarização nos outros países da região. “Prova disso é que, por um lado, o governo brasileiro foi o primeiro país a reconhecer a senadora Jeanine Añez, segunda vice-presidente do Senado e opositora de Evo Morales, como presidente, enquanto o ex-presidente Lula afirma que o foi golpe”, diz.

Outro problema é a volta da intromissão militar nas questões políticas dos países. No caso da Bolívia, ficou evidente o posicionamento do alto escalão militar – de quem partiu a sugestão para que Evo renunciasse – no desencadeamento dos fatos. E a própria polícia do país ostesivamente passou a ser oposição ao então presidente. Ricardo Ritoletto diz que as chances são maiores de conflitos e mortes ando quando os problemas envolvem forças armadas. “Isso não apenas causa tensão nos países vizinhos, mas chama atenção de forças militares de outros continentes”, afirma Ritoletto.

PROTESTOS SEGUEM Manifestações contra a política econômica de Sebastián Piñera (Chile) entram na quinta semana e já deixaram 19 mortos e quase 600 feridos (Crédito:Claudio Reyes / AFP e Martin Bernetti / AFP)

Para um diplomata boliviano, que falou sob condição de anonimato, “é sabido que a inteligência norte-americana recebia informações sobre a Bolívia por meio da ala militar. O que a força nacional não imaginava é que a renúncia aconteceria tão cedo”, diz ele. Nesse sentido, a imagem que fica para o mundo é que a fragilidade dos países, e governos, da América do Sul pode resultar em um efeito dominó e desestabilizar ainda mais nações que enfrentam fraco crescimento. Para o doutor em relações exteriores pela Universidade de São Paulo (USP) Cristiano Ficco, as revoluções não devem ser progressistas. “O que vemos é que a força militar nos países da América do Sul estão alinhadas com conservadores e fundamentalistas religiosos”, diz. Na Bolívia, é um fato. A figura em destaque é Luis Fernando Camacho, católico fervoroso que ganhou holofotes ao dizer que iria levar “Deus de volta ao governo boliviano”. Com um discurso radical e conservador, ele tem 40 anos e faz parte da elite do país.