Economia

Nem economia, nem saúde

Mergulho de 9,7% no PIB brasileiro no segundo trimestre mostra que, ao ficar no meio do caminho entre salvar vidas ou o mercado, o governo conseguiu prejudicar os dois.

Crédito: Lidianne Andrade

RUAS VAZIAS Com atividade fraca, o Brasil perdeu R$ 130 bilhões. (Crédito: Lidianne Andrade)

Desde que o mundo é mundo, sempre coube aos líderes políticos tomar decisões difíceis em tempos críticos. Ao tentar criar uma fórmula para ter mais assertividade no caminho a ser seguido, o filósofo grego Aristóteles definiu, em 300 a.C., que ao líder cabe deliberar, escolher e agir. As três etapas seriam seguidas, invariavelmente, pela responsabilidade moral do tomador da decisão. No caso do Brasil e o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, faltou ao presidente Jair Bolsonaro e ao seu líder da economia, Paulo Guedes, transitar em todas as etapas que antecedem a tomada de decisão. A queda de 9,7% no PIB não reflete apenas um mergulho esperado na economia, mas um tombo que se deu enquanto a vida dos brasileiros, em função da pandemia, não foi preservada.

Nessa dinâmica “nem, nem” (nem salva a economia, nem a vida humana), o País entrou em um terreno inóspito de desenvolvimento social e econômico, com problemas em ambos os lados. Com uma quarentena estendida, mas mal feita, e uma economia estimulada com baixa voltagem, o saldo da pandemia, até aqui, foi um encolhimento de R$ 130 bilhões nas riquezas do País no primeiro semestre deste ano e 124 mil mortes provocadas pela Covid-19. Para tentar minimizar o impacto do tombo no PIB, Guedes chegou a dizer que a forte retração é como “ouvir o barulho de um trovão”, fazendo menção ao som ser percebido depois que o raio já caiu.

HOSPITAIS LOTADOS Sem isolamento eficiente, o País já perdeu 120 mil vidas. (Crédito:Jorge Hely)

A analogia, no entanto, não considera a condição do terreno em que caiu o raio, nem as medidas tomadas para evitar que outro desastre similar aconteça. Para o economista Carlos Kawall, diretor do Asa Investments, o principal problema futuro – ainda que a economia dê leve sinais de melhora já no terceiro trimestre – é a falta de capacidade de renda do brasileiro. “A redução da população ocupada ainda não foi revertida e a taxa de desemprego ainda deve subir nos próximos meses quando as pessoas voltarão a procurar emprego no Brasil”, disse Kawall.

Como resultado, o PIB de 2019 só seria alcançado em 2023, colocando o País, no primeiro semestre de 2020, no mesmo patamar de riquezas de 2009. “Será uma retomada lenta”. Professor de economia do programa de pós-graduação em Matemática Aplicada da Universidade de São Paulo, Michel Lopreto ressalta que o problema brasileiro antecede o vírus. “A revisão do PIB do primeiro trimestre passou de uma retração de 1,5% para 2,5%. Isso foi antes da Covid”, afirmou. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), em valores correntes, o PIB totalizou R$ 1,6 trilhão entre abril e junho, e parte desse movimento está relacionado ao auxílio emergencial. “Com o corte pela metade no valor pago, a economia precisaria reagir em tempo recorde para compensar a perda de renda”, disse Lopreto. Ao apostar que a economia reagirá em V e decidir cortar o auxílio pela metade, o governo toma outra decisão difícil, e (seguindo ou não as sugestões de Aristóteles) será o responsável moral por ela.

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