A pandemia causada pelo novo coronavírus é global, mas alguns fenômenos sociais ocorrem de maneira localizada. O negacionismo científico encontra diversos pretextos ao discurso antivacina, assim como surgem motivos diversos para a escolha dos imunizantes disponíveis, prática que tem ocorrido nas últimas semanas no Brasil. Contudo, autoridades de saúde comprometidas com o combate contra a covid-19 são unânimes em atestar a segurança e eficácia de todas as vacinas.

Ressaltando: autoridades sanitárias recomendam tomar qualquer vacina disponível e orientam que não há motivo para escolha entre os imunizantes. Países que vacinaram mais da metade de suas populações já sentem os efeitos da vacina no combate à pandemia. Confira as principais características das vacina disponíveis no Brasil, as dúvidas suscitadas por cada uma e os geradores de insegurança.

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Pfizer
Favorita do “sommelier de vacina” devido à alta eficácia, a vacina da Pfizer utiliza a inovadora tecnologia de imunização por RNA mensageiro (terceira geração de vacinas). Nas redes sociais, boatos e notícias falsas dizem que esse sistema poderia alterar o código genético ou ter efeitos colaterais a longo prazo.

Embora tenham feito sua estreia em larga escala na pandemia de covid-19, as vacinas de mRNA são pesquisadas há décadas e sim: são absolutamente seguras. A margem para más interpretações ocorre devido à falta de conhecimento sobre seu funcionamento. A vacina funciona a partir de uma informação genética para que nossas células sejam capazes de fabricar a proteína S, presente na espícula do coronavírus, justamente a estrutura que o permite conectar-se às células humanas. Uma vez produzidas, a proteína S deixa as células e é detectada pelo sistema imunológico, que gera anticorpos contra ela.

Para ficar claro: o RNA mensageiro da vacina é processado no ribossomo e não entra no núcleo celular e, portanto, não há como alterar o código genético (DNA). Essas proteínas acabam degradadas e não são mais encontradas no organismo entre dois a sete dias.

Eficácia: 95%
Dose: 2 doses entre o intervalo mínimo de 21 dias. O Ministério da Saúde, assim como no Reino Unido, a utiliza com intervalo de 3 meses.
Custo: US$ 20 a dose
Tecnologia: RNA mensageiro, o material genético sintético estimula resposta imunológica
Armazenamento: conservação em -75ºC, o que dificulta sua distribuição logística no interior de alguns estados brasileiros
Fabricação: EUA e Bélgica
Situação na Anvisa: registro definitivo em 23 de fevereiro

AstraZeneca
A vacina britânica é uma das maiores geradoras de polêmica na pandemia. Diversos países europeus chegaram a suspender o uso da AstraZeneca depois de serem constatados casos de trombose. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) estipulou um caso de trombose a cada 100 mil vacinações.

A prefeitura do Rio Janeiro e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) contrariaram, em maio, recomendações do Ministério da Saúde e do Programa Nacional de Imunização (PNI) e orientou que grávidas evitassem a AstraZeneca. A decisão foi feita após um óbito em decorrência de trombocitopenia associada à vacina. O Ministério da Saúde ressaltou que “a ocorrência de eventos adversos é extremamente rara e inferior ao risco apresentado pela covid-19”.

Embora dados preliminares apontem efetividade da vacinação cruzada, não há solidez científica para recomendar sua prática. O grande ponto desta questão é que o risco de trombose é muito maior a partir da infecção da covid-19 do que da vacina. Cientistas são unânimes em apontar que os benefícios da AstraZeneca superam em muito seus eventuais riscos e efeitos colaterais.

Eficácia: 76%
Dose: 2 doses entre 28 dias
Custo: US$ 4 a dose
Tecnologia: adenovírus que infecta chimpanzés manipulado geneticamente para ter a proteína “S” do Sars-CoV-2
Armazenamento: entre 2ºC e 8ºC
Fabricação: Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Reino Unido
Situação na Anvisa: registro definitivo em 12 março

CoronaVac
Principal alvo de preconceito ideológico, a CoronaVac é menosprezada no Brasil devido a uma suposta “baixa” eficácia e sobretudo pela origem chinesa. Criticada pelo governo Bolsonaro, o imunizante produzido no Instituto Butantan foi aprovado pela Anvisa com o percentual mínimo aceito pelo órgão. O primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi, disse que ela “não é adequada” para combater a pandemia. Outro pretexto utilizado por quem escolhe vacina é que a CoronaVac não seria aceita em outros países do mundo, caso queiram viajar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou no início deste mês o uso emergencial. Com isso, o imunizante da Sinovac Biotech pode ser incorporada ao consórcio Covax Facility para distribuição em escala global – portanto, quem está preocupado com o “passaporte de vacinação” não tem mais desculpas para evitar o imunizante.

Por fim, o argumento mais repetido desde o início das aplicações das vacinas: se uma vacina tem 50,38% (percentual de aprovação da CoronaVac na Anvisa) de eficácia, isso significa que ela conseguiu reduzir em 50,38% a quantidade de casos que ocorreriam sem a vacina. No entanto, a vacina possui eficácia muito alta: 78% em casos que precisariam de algum atendimento médico e 100% em casos considerados moderados ou graves. Ou seja, o risco é apenas de desenvolver uma forma leve da doença, o que não é pretexto para evitar a “vacina chinesa”.

Eficácia: 62,3% com intervalo mínimo de 21 dias entre as doses. Inicialmente, com intervalo de doses de 14 dias, a eficiência era de 50,38%, mínimo para aprovação pela Anvisa.
Aplicação: 2 doses entre 3 semanas
Custo: US$ 10,30
Tecnologia: vírus inativado
Armazenamento: entre 2ºC e 8ºC
Fabricação: Instituto Butantan e China
Situação na Anvisa: registro definitivo em 12 de março

Janssen
A vacina de dose única da Johnson & Johnson foi a última a chegar ao Brasil e, por ser ministrada com dose única, tem sido utilizada por algumas prefeituras para vacinar públicos que teriam dificuldade em tomar a segunda dose dentro do prazo, como moradores de rua, por exemplo. Autorizada em 44 países e também pela OMS, a Janssen é a mais procurada nos últimos dias – em Campo Grande, por exemplo, a vacina já acabou. Em São Paulo, a procura também é grande para se vacinar com apenas uma dose.

No entanto, ainda não há uma definição científica sobre se a Janssen protegeria contra a variante delta. O fabricante realiza testagens e admite a possibilidade de uma dose de reforço extra que cubra novas mutações do coronavírus.

Eficácia: 66%
Aplicação: dose única – o fabricante já estuda a possibilidade de doses de reforço
Custo: US$ 10
Tecnologia: adenovírus geneticamente modificado
Armazenamento: entre 2ºC e 8ºC
Fabricação: EUA
Situação na Anvisa: registro emergencial concedido em 31 de março