Negócios

Nasce uma nova Via

Dona da Casas Bahia muda de nome, compra Fintech e anuncia foco no marketplace com objetivo de ampliar operações para além do varejo.

Crédito: Rafa Von Zuben

VIRADA DE CHAVE Para Roberto Fulcherberguer, CEO da Via, companhia vive momento de aproximação com o consumidor. (Crédito: Rafa Von Zuben)

Mudanças bruscas costumam levar tempo. Principalmente quando há bilhões de reais em jogo. Mas nem sempre o calendário do mindo dos negócios combina com a cautela da espera. Esse foi exatamente o cenário vivido por Roberto Fulcherberguer em 2020. Em conversa com a DINHEIRO em março deste ano, o CEO da Via Varejo, dona das marcas Casas Bahia, Ponto Frio, Extra.com e da fábrica de móveis Bartira, reconheceu o atraso da companhia nas operações digitais e a evidente necessidade de aceleração durante o período de fechamento das mais de mil lojas físicas em decorrência do isolamento social.

Menos de dois meses depois daquela entrevista, o executivo mostrou que soube lidar bem com a pressão da mudança. O maior reflexo disso está nos anúncios feitos na última semana: até o nome do grupo foi trocada, para apenas Via. A nova estratégia é levar a companhia para um universo mais digital e que vá além do varejo. O executivo reafirmou essa estratégia na conferência com investidores na segunda-feira (26). “É uma virada de chave no nosso negócio”, disse o CEO. “Vamos ser uma plataforma de relacionamento com o consumidor”.

As mudanças englobam nova identidade visual, que levou também à alteração da marca Ponto Frio para Ponto :>. A empresa também anunciou a aquisição da Celer, fintech de soluções de pagamentos que deve, segundo a empresa, ampliar os serviços oferecidos aos sellers da plataforma marketplace. Com portfólio no segmento de Banking as a Service (BaaS), a Celer possui carteira com aproximadamente 200 fintechs e oferece serviços como contas digitais para mais de 24 mil estabelecimentos. A compra, que não teve o valor divulgado, aguarda aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Se aprovado, o pacote inclui adquirência e gateway para vendas físicas e on-line, ampliação da conta digital banQi, da Via, e uma plataforma de antecipação de recebíveis. “Estamos prontos para receber novos parceiros e investir em startups que ampliem e fortaleçam nosso ecossistema”, afirmou Fulcherberguer.

Essa virada de jogo com a entrada e consolidação no digital durante a pandemia garantiu à Via receita de R$ 34,4 bilhões no ano passado, alta de 15% em relação ao ano anterior. No período, as vendas digitais saltaram 143%, para
R$ 18 bilhões. Para este ano, a estratégia está direcionada ao marketplace. A expectativa da empresa é ampliar o número de sellers dos atuais 26 mil para algo entre 70 mil e 90 mil até o final do ano.

Para crescer duas vezes acima do mercado, segundo o executivo da Via, a empresa foca no aumento da base de clientes das duas marcas, Ponto Frio e Casas Bahia, que ainda não aderiram ao comércio eletrônico. “O aumento da penetração do brasileiro no e-commerce vai passar pela Via”, afirmou Fulcherberguer. Segundo o executivo, a perspectiva é de que a participação do e-commerce no varejo nacional salte dos atuais 8% para 19% em 2025.

NORTE E NORDESTE Para Fernando Bresciani, analista de varejo da Mirae Asset, seguir os passos de grandes concorrentes como o Magazine Luiza é o que se espera da Via. “O Magalu já fez esse caminho há muito tempo, mas a Via fez a lição de casa e conseguiu se recuperar”, afirmou. “Com a imunização e o controle da pandemia, as metas da empresa são possíveis de serem alcançadas”. Mas o crescimento não deve ficar somente no digital. Para este ano, a companhia planeja inaugurar 120 lojas, sendo 60 delas nas regiões Norte e Nordeste. Na capital paulista, a Via vai lançar uma Megaloja com 18 mil m2, na Marginal do Tietê. Essa expansão física, na opinião de Bresciani, pode ser um importante ponto de marketing em mercados pouco explorados. Mesmo com largada atrasada, a varejista parece agora estar na via certa.