Sustentabilidade

Nas Filipinas, vive-se sob a ameaça constante de tufões

Um ano depois que uma forte tempestade causou uma avalanche de rochas vulcânicas e de areia que soterrou sua casa, a filipina Florivic Baldosa, uma vendedora de quentinhas, ainda vive em um centro de acolhida.



Com o risco de fenômenos meteorológicos extremos aumentando devido à mudança climática, ela sente que “nenhum lugar é seguro”.

Nos povoados pobres que rodeiam o vulcão Mayon, na província de Albay, centenas de famílias esperam por uma nova casa, depois que o tufão Goni devastou esta região da ilha de Luzon, a mais populosa do arquipélago, em novembro passado.

“O mais forte que já vivi”, garante Baldoza, diante de uma montanha de areia escura que cobre o que um dia foi sua casa, onde morava com o marido e duas filhas adolescentes.

Centenas de milhares de pessoas fugiram quando o tufão Goni varreu este arquipélago do Sudeste Asiático, classificado como um dos mais vulneráveis do mundo aos impactos da mudança climática.



Alguns moradores da localidade de São Francisco, incluindo a família de Baldoza, ignoraram os avisos para se abrigarem em uma escola, confiantes em que a barragem construída em um rio há anos iria protegê-los de uma inundação.

À medida que a tempestade aumentava e que a água começou a transbordar os vários metros de altura da parede de cimento, Baldoza se deu conta de que sua família estava em perigo.

Fugiram correndo para a casa de sua mãe, do outro lado da estrada, quando uma avalanche de água, areia vulcânica e pedras quebrou o dique de contenção e se precipitou para a cidade.

“Estávamos presos dentro de casa”, lembra Baldoza.

“Estávamos chorando, meu marido havia se separado. A gente achou que ele estivesse morto”, conta.

Com sorte por estarem vivos, mas presos na lama, Baldoza e oito familiares, incluindo crianças, retorceram o corpo de um lado para o outro para escapar, saíram por uma janela e subiram no telhado. Seu marido, Alexandre, sobreviveu subindo os galhos de uma mangueira.

Segurando-se em um cabo de força para não serem levados pelos fortes ventos, a família escalou os telhados de várias casas até chegar a um prédio mais alto.

“Nossa casa estava sendo atingida por pedras, mas não podíamos fazer nada”, resigna-se Baldoza, que assistiu, impotente, à destruição.

“Se não tivéssemos saído de casa, teríamos morrido”, afirma.

– “Capital dos desastres” –

Não foi a primeira vez que esta mulher teve de mudar de casa por causa da chuva.

Há cerca de 20 anos, antes de se casar, sua mãe vendeu sua casa em uma área facilmente inundável da mesma cidade e se mudou para um terreno mais alto.

“Não esperávamos passar pela mesma coisa”, desabafa ela.

“Acho que não há mais lugar seguro. Aonde quer que a gente vá, sofremos inundações”, acrescentou.

Baldoza visita o local de sua antiga casa quase todos os dias, quando leva comida caseira e bebidas para os trabalhadores que consertam a barragem danificada.

“Tenho vontade de chorar, porque criei meus filhos aqui. Aqui nós os batizamos e aqui meu marido e eu nos casamos”, conta ela.

Agora, a família vive em uma sala de aula na escola Marcial O. Ranola Memorial. A instituição foi transformada em centro de evacuação de emergência, aproveitando-se do fato de que não há aulas presenciais nas Filipinas desde o início da pandemia da covid-19.

As famílias da província de Albay, apelidada de “capital dos desastres” do país, estão acostumadas a passarem vários dias em abrigos a cada estação chuvosa.

Cerca de 25% das 20 tempestades e tufões que assolam as Filipinas todos os anos passam por esta empobrecida região, destruindo plantações, casas e infraestruturas.

Um ano depois que a lama virou suas vidas dramaticamente de cabeça para baixo, em torno de 100 famílias continuam morando na escola, dormindo nas salas de aula e cozinhando em instalações improvisadas.

Baldoza tenta tornar a vida o mais normal possível para sua família. Seus cães e gatos vagam pela sala de aula, onde cortinas dividem o espaço entre a sala de estar e a área de dormir.

Recentemente, sua filha mais nova completou 18 anos e, para celebrar, todos vestiram roupas tradicionais. Baldoza não consegue, porém, deixar de se preocupar com o futuro de suas filhas.

“As tempestades estão ficando mais fortes. Como vão sobreviver, quando não estivermos mais aqui?”, questiona.

– “Não se pode parar os tufões” –

Muitas casas em São Francisco estão parcialmente soterradas pela areia e pelas rochas que arrasaram o povoado, elevaram o nível do solo e reduziram a altura dos coqueiros.

Os habitantes tiveram de cavar trincheiras ao redor de suas casas para conseguirem entrar. Alguns ainda retiram escombros.

O ativista climático desta província Bill Bontigao diz que Goni foi “um alerta” e que são necessárias ações urgentes para preparar a região para ciclones mais fortes.

“Estou preocupado com as gerações futuras. Minhas sobrinhas e sobrinhos não terão um bom futuro”, disse Bontigao, de 21 anos, à AFP.

Cerca de 170.000 pessoas estão expostas a deslizamentos de terra nas encostas do Mayon, o vulcão mais ativo do país, afirma o chefe da divisão de pesquisa do escritório de saúde pública e gestão de emergências de Albay, Eugene Escobar.

Os deslizamentos de terra são prováveis, porque a mudança climática esquentou o planeta e aumentou “a frequência e a intensidade dos tufões e das chuvas”, argumenta ele.

A “solução mais barata” é realocar os residentes vulneráveis para áreas seguras e oferecer-lhes apoio social e econômico, diz.

“Você não pode parar os tufões (…) Temos que aceitar o fato de que estamos em uma área sujeita a desastres”, acrescenta.

Baldoza insiste, no entanto, em que “nenhum lugar é seguro” no município de Guinobatan, inclusive no novo povoado onde sua família receberá uma casa de 25 metros quadrados.

Fica a meia hora de carro de São Francisco, onde seu marido trabalha como eletricista, mas não têm dinheiro para comprar, ou alugar, nada mais perto.

“Quando nos mudarmos, vou pedir que a abençoem para que tenhamos sorte lá”, diz Baldoza. “Esperamos que seja segura”.


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