Entrevista

Henrique Constantino, cofundador e sócio da Gol Linhas Aéreas

Não siga o meu exemplo ruim. Não aceite o que não é certo

Marcelo Lozanis

Não siga o meu exemplo ruim. Não aceite o que não é certo

Para ajudar outros empresários a não repetir os erros que ele admite ter cometido, sócio da Gol escreve livro de memórias que expõe os traumas gerados pelo envolvimento em casos de corrupção.

Hugo Cilo
Edição 01/04/2021 - nº 1216

Reconhecer os próprios erros não é uma prática recorrente no meio corporativo. Fazer mea culpa é, geralmente, visto como gesto de fraqueza, despreparo e amadorismo. Mas o empresário Henrique Constantino, cofundador da Gol Linhas Aéreas, decidiu imprimir, literalmente, um novo estilo de vida e de gestão. O filho caçula do polêmico Nenê Constantino, um dos principais empresários do setor de transporte do País, foi alvo da Operação Sépsis, que investigou esquema de propina na Caixa operado por Lúcio Funaro para beneficiar políticos — entre eles o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB-RJ). A ofensiva, em julho de 2016, resultou em busca e apreensão à casa de Constantino. Um acordo de leniência de R$ 70 milhões o livrou de condenação. “Não compensa ir pelo caminho mais fácil. Não siga o meu exemplo ruim. Não aceite o que não é certo”, afirmou. O relato abre o livro Desejo de Gol (editora Citadel, 256 págs., R$ 44,90), o empresário narra a trajetória para fazer da Gol uma das maiores na aviação do País e fala dos tropeços que o afastaram dos negócios.

Seu livro mostra o quanto você se arrepende do que fez de errado como empresário. Qual foi o momento mais difícil?
Henrique Constantino — Entre todos os dramas pessoais, a busca e apreensão na minha casa foi o pior. Depois disso, tive de sair do conselho da Gol e das empresas de capital aberto de que a minha família participa. Passei a me focar, dar todos os instrumentos para a minha defesa e colaborar com a Justiça para poder esclarecer a situação da forma mais adequada possível. Há quase cinco anos estou afastado da Gol. Aí me dediquei à terapia.

De onde veio a ideia de escrever o livro?
De uma conversa com meu psicanalista. Escrever seria uma forma libertadora dessa situação. Quero compartilhar isso com a sociedade da maneira mais transparente e verdadeira possível.

O livro ajuda a se conciliar com o passado?
De uma forma natural, estou cada vez me sentindo mais livre e feliz.

O Henrique Constantino de antes do livro é diferente do atual?
Com certeza. Hoje sou muito mais seguro, consciente, capaz de contribuir com a sociedade de uma forma ativa. Sou menos submisso, menos acuado e muito mais fácil, transparente, aberto, com a alma solta.

Qual a sua visão sobre os erros e acertos dos empresários brasileiros, em geral, e o que mudou após a Lava Jato?
É uma pergunta bastante delicada. Não quero ficar aqui medindo palavras, sem ter como responder da forma mais assertiva possível. Eu não diria que teve erro ou acerto, e nem que foi ruim ou bom. Acho que é uma evolução da sociedade. O Brasil é uma democracia nova. Temos 40 anos de democracia, nem isso. O que está acontecendo é uma evolução cada vez maior do meio empresarial, da relação entre poder público e poder privado. É uma evolução do ambiente político e empresarial.

“Se existe alguma analogia entre pandemia e acidente é a forma como devemos cuidar das vidas das pessoas. A gente precisa salvar vidas” (Crédito:Jorge Hely/FramePhoto)

Mas não há um legado positivo nas relações entre políticos e empresários?
Se houve coisas boas ou ruins, como você comentou, poderia resumir como mais transparência e fluidez.

Entre todos os relatos que você descreve no livro, um dos que mais chama a atenção é sobre o acidente aéreo com um avião da Gol que matou 154 pessoas em 2016. Aquele sentimento de luto é comparável com o que está acontecendo hoje na pandemia, com quase 4 mil pessoas morrendo por dia no Brasil?
Não. São coisas completamente diferentes. Aquilo que aconteceu naquele acidente aéreo no qual a Gol esteve envolvida, não é que a aeronave caiu, ela foi derrubada. Foi uma situação extremamente complexa e singular. Quem vive do meu negócio como eu, quem transporta pessoas, vive 24 horas do dia pensando segurança. A gente pensa o dia inteiro em como preservar vidas, cuidar das pessoas, como levá-las de um lugar a outro da forma mais segura. Se existe alguma analogia entre pandemia e acidente é a forma como devemos cuidar das vidas das pessoas. A gente precisa salvar vidas. No caso da vacinação, temos que fazer o que for possível, usar todo o investimento disponível, para preservar as pessoas.

A sua nova visão de compliance, com transparência e ética, não conflita com o estilo de gestão familiar, como é o caso da Gol?
Entendo que gestão familiar e transparência podem ser complementares. À medida que a empresa vai crescendo, todos os assuntos devem estar sob regras de conformidade necessárias de uma grande empresa. Mesmo assim, meus irmãos e eu, que somos sócios da Gol, temos o hábito de nos reunir toda quarta-feira para trocar ideias e, logicamente, levar isso para aprovação formal nos comitês, nos conselhos competentes. Mas eu sou favorável a essa gestão de dono, com a gestão profissionalizada integrada, onde há um sentimento de aguerrido, que é o dono do negócio e um executivo que está ali para transformar aquilo da melhor forma possível.

Empresas como Localiza e Itaú já não têm sobrenomes da família fundadora na gestão. Isso vai acontecer na Gol?
Na minha opinião, sem demérito nenhum de outro meio de atuação, unir gestão profissional com o sentimento de dono é a fórmula mais eficiente e vitoriosa possível. Seja dono ou não, temos que manter a disciplina do executivo, para que ninguém saia dos trilhos. Além dos dos nomes que você citou, acrescentaria a própria JSL. Quem conseguir unir a gestão familiar com uma gestão executiva eficiente, terá o melhor.

Dentro dessa visão, qual seu plano pessoal e profissional para os próximos anos?
Continuo focado naquilo que eu sei fazer, que é mobilidade, transportar pessoas. Sempre falo que meu negócio é aproximar pessoas, fazer com que elas consigam se encontrar da forma mais eficiente, rápida e segura possível. Quero continuar a minha vocação. E aí, a ideia do livro é também para compartilhar com a sociedade meus traumas, meus problemas, e tentar fazer com que a relação entre poder público e iniciativa privada seja mais forte. Que isso possa gerar nessa nova geração um sentimento de transparência, e de que vale a pena fazer bem-feito, construir juntos um
país melhor.

Como ficará o setor aéreo no mundo todo depois dessa pandemia?
A pandemia vai gerar nas pessoas a necessidade de viver mais e melhor. A qualidade de vida passa a ser fundamental. Todos vão querer ter experiências boas. Então, a demanda por viagens vai aumentar. Essa vontade de viver melhor vai fazer com que as pessoas utilizem ainda mais os meios de transporte, se encontrem, valorizem os momentos que estiverem com familiares e amigos.

Baseado na sua experiência pessoal, como você imagina será o mundo pós-pandemia?
Vamos valorizar mais a vida. Aproveitar mais a vida. Eu não vivi a Segunda Guerra mundial, mas esse momento se compara com o que aconteceu depois daquele período, quando houve um boom de consumo, um boom de viagens, de pessoas tentando se divertir ao máximo. Então eu penso muito numa vida ativa, valorizando mais as experiências, a vida pessoal, as amizades, do que um mundo mais sisudo ou fechado.

Se você pudesse voltar no tempo, qual erro você não cometeria de novo e qual você entende que valeu a pena ter cometido?
Essa pergunta é muito boa e eu me faço até hoje. Com certeza, eu seguiria muito mais a minha vontade, o meu coração, a minha cabeça, e talvez ouviria menos algumas pessoas ao meu redor, talvez algumas coisas que eu não concordava e acabei aceitando. Muitas vezes a gente não percebe que está entrando numa onda que está quebrando, quase no bolo da onda. Então, se eu pudesse voltar atrás seguiria meu coração.

“A pandemia vai gerar nas pessoas a necessidade de viver mais e melhor. Todos vão buscar experiências boas. Então, a demanda por viagens vai aumentar” (Crédito:Renato S. Cerqueira)

E o que teria feito de diferente?
Não aceitaria mais ouvir: “Vai lá e resolve”, “Todo mundo faz assim”, “É assim que se faz”, “É assim que funciona”. Eu acabei aceitando uma coisa que eu não concordava. Então, se pudesse voltar, não faria algo que não concorda. Esse foi o grande erro para mim. Precisamos aprender mais com os nossos próprios erros.

A postura do governo influencia o modo de atuação das empresas?
Acredito que haja uma interferência, sim. As empresas podem até caminhar, mas o exemplo dos governantes, da população, das empresas, é fundamental para a gente atingir esse objetivo de um mundo mais sustentável. Para nossos filhos, o exemplo vem de casa. Se a gente conseguir que, de dentro de casa, os governantes de países como os Estados Unidos, ou o Brasil, possam estimular cada vez mais isso, valorizando a transparência, eu entendo que é um ciclo positivo. E que a gente vai conseguir superar se tiver o exemplo, não só pelo poder público como pelas empresas.

Só assim será possível fazer negócios no Brasil sem se corromper?
É aquilo que comentei sobre evolução das tratativas, das relações interpessoais, empresariais. Estamos num processo de evolução. A Europa já tem isso há muito tempo. À medida que se implanta programa de conformidade, de transparência, de controles, você estimula a sociedade a ser mais aberta, mais fácil, mais clara possível. Eu acho que é uma constante evolução e a gente está chegando lá.

Você pensa em escrever um segundo livro? Tem algum tema em mente?
Com essa pergunta você me pegou, eu realmente não sei. Mas a intenção não é fazer manual de autoajuda. Quero que o livro seja, realmente, algo que traga a mensagem: “Gente, vamos lá. Vocês são capazes, nós somos capazes”. A ideia de compartilhar minhas experiências é de estimular o pensamento, estimular as alternativas que melhor convenham para a sua cabeça.

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