Entrevista

João Galassi, presidente da Associação Brasileira de Supermercados

Não há a mínima condição de ficarmos sem o auxílio emergencial

Gabriel Reis

Não há a mínima condição de ficarmos sem o auxílio emergencial

Os supermercados se tornaram uma extensão da casa de grande parte dos brasileiros durante o período de maior isolamento da pandemia. O setor agora enfrenta a disparada da inflação — enquanto faz os ajustes para atender novas demandas ligadas ao ESG.O Brasil é o terceiro maior produtor e o segundo maior exportador de alimentos do mundo, mas voltou ao Mapa da Fome, de onde havia saído desde 2014. O País também ocupa a 10ª posição das nações que mais desperdiçam alimentos no mundo. Esse injusto paradoxo foi discutido durante o 1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, organizado pela Abras neste mês. Na entrevista a seguir, o presidente da entidade fala sobre os desafios do setor.

Victoria Ghiraldi
Edição 25/06/2021 - nº 1228

O Brasil é o terceiro maior produtor e o segundo maior exportador de alimentos do mundo, mas voltou ao Mapa da Fome, de onde havia saído desde 2014. O País também ocupa a 10ª posição das nações que mais desperdiçam alimentos no mundo. Esse injusto paradoxo foi discutido durante o 1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, organizado pela Abras neste mês. Na entrevista a seguir, o presidente da entidade fala sobre os desafios do setor.

DINHEIRO – A inflação dos alimentos registrou níveis históricos em 2020 e, neste ano, os preços continuam subindo. Qual é o impacto disso para o setor?
JOÃO GALASSI— A experiência do aumento abrupto do preço do arroz no ano passado me marcou muito. Olhando do ponto de vista macro, temos o contexto internacional com uma balança comercial muito favorável ao mercado brasileiro, exportações fortes, alta do dólar, o momento de destaque do agronegócio nacional, além de toda a composição geopolítica mundial que se relaciona com as commodities. Uma hora Estados Unidos e China têm problemas e temos a solução aqui no Brasil. Isso, de um lado, beneficia as exportações e nossa balança comercial. Em contrapartida, traz desafios internos. Esse é o nosso problema.

Bom para quem exporta, péssimo para quem consome somente aqui. Como reverter esse problema?
Podemos passar todo mês informando o que subiu, o que não subiu e por que subiu. E faremos isso. Mas também podemos ir atrás de soluções. Foi o que começamos a fazer neste ano. Escolhemos 12 produtos de extrema importância da cesta básica e estamos aprofundando um estudo detalhado de cada item, identificando quais são as maiores causas que afetam os preços. Levaremos os resultados ao governo federal e mostraremos qual é o problema, quais são os desafios enfrentados e as propostas de soluções. Não adianta ficarmos só falando que a inflação de alimentos subiu ou caiu. Os motivos já sabemos que não estão no varejo.

Mas somente na ponta final, da venda ao consumidor, já será possível reverter?
A Abras possui uma cadeia muito diversificada, com 91 mil lojas. É um contexto de competição macro extraordinário que nos traz tranquilidade em dizer que o problema não está na ponta. Nos estudos relacionados sobre o arroz nós identificamos que o consumo não está crescendo como o esperado. Estamos com menos de 40 quilos consumidos per capita, o mundo está em torno de 70 quilos. Sabemos que os instrumentos de baixar os impostos de importação também movem a situação. De repente, uma saída é mantermos o abastecimento interno e ampliar a produção para facilitar as exportações. Para a formação da cesta básica você tem uma inflação que é causada por aqueles produtos que compõe boa parte dos itens que são exportados, automaticamente há um impacto. Então é preciso tratar item por item. É isso que estamos fazendo.

“Abastecer a população é nosso papel, mas temos que utilizar a tecnologia para fazer esse abastecimento com uma eficiência ainda maior” (Crédito:Istock)

Quando os resultados do estudo serão levados ao governo federal?
Provavelmente terminaremos esse estudo no final de julho. Então, devemos marcar o encontro para o começo de agosto.

Novas formas de pagamento vêm surgindo, como o uso do Pix e do reconhecimento facial. Como está o setor supermercadista em relação a essas tecnologias?
O setor de varejo alimentar é moderno e vem se atualizando com muita frequência. Posso te dizer com muita segurança que temos lojas no Brasil que estão iguais ou acima de qualquer loja no mundo. A questão é ampliar ainda mais o uso da tecnologia para garantir a melhor experiência do consumidor, seja na redução de custos, seja na redução do atrito na hora da venda, ou seja, é importante deixar a compra fluir. Abastecer a população é nosso papel, mas temos que utilizar a tecnologia para fazer esse abastecimento com uma eficiência ainda maior.

Um dos principais pleitos da sua gestão é referente à Reforma Tributária. De que maneira a demora do governo para colocar essa medida em prática afeta o setor?
Esse é um desafio da cadeia e não somente do setor de supermercados. Eu entendo que o País tem duas situações referentes à Reforma. Uma é encarar o desafio da burocracia. Um produto tem um imposto, depois não tem mais esse imposto e passa a ter outro tipo de imposto. Todo esse debate gera custos. Temos de levar essa bandeira com muita força exatamente porque ela vai trazer uma redução de custos só pela redução da burocracia. Outra discussão são os pleitos de cada setor. Acho muito difícil reduzir a carga tributária no Brasil, mas o governo deveria ampliar a justiça social. Ainda temos uma carga tributária muito alta na cesta de alimentos, de higiene e de limpeza.

O Brasil é o terceiro maior produtor de alimentos no mundo, mas voltou ao Mapa da Fome. O que está sendo feito de errado?
Em um contexto geral, a pandemia foi a grande propulsora dessa situação calamitosa. O que nós temos consciência é que a vacinação em massa é o caminho. Não há outra opção para que possamos rapidamente voltar aos níveis econômicos em todos os segmentos, mantendo a geração de empregos para que as pessoas possam ter renda.

Mas onde estaria a solução?
Temos de continuar gerando uma renda passiva para as pessoas que mais precisam por meio de programas sociais. Não há como fugir dessa premissa. Isso inclui o auxílio emergencial que, em tese, terá data para acabar. Vamos ter que continuar com um programa social forte. Não podemos abrir mão do que contribui com a redução da desigualdade, evitando a fome e contribuindo com a sociedade nesse momento de dificuldade. Se é uma ampliação do Bolsa Família, um complemento do auxílio emergencial, não saberia te dizer, mas sei que é necessário porque vamos levar um tempo para sair dessa situação.

Qual é a perspectiva?
Depende da vacinação. Não há futuro próspero sem vacinação em massa. Acredito que com o crescimento da economia vamos ter um pouco mais de fôlego inclusive para manter os programas sociais. Então não há a mínima condição de que daqui três meses, sem a vacinação em massa, haja o retorno de 100% das atividades, voltando a gerar empregos e renda. Não há a mínima condição de ficarmos sem o auxílio emergencial. Não consigo ver outra alternativa.

Ironicamente, o Brasil também está entre os dez países que mais desperdiçam alimentos no mundo. Quem está errando?
Há uma proposta bastante interessante de mapear o desperdício com o Mapa da Fome e tentar cruzar esses movimentos formando os foodbanks (bancos de alimentos). Uma das propostas foi levantada pelo presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), João Dornellas, que é o conceito do best before, relacionado a uma mudança de abordagem em relação aos prazos de validade. De toda a mercadoria que se perde, segundo ele, mais de 40% são por data de validade.

No fórum organizado pela Abras, o ministro Paulo Guedes propôs alimentar pessoas ‘fragilizadas, mendigos, desamparados’ com as sobras de restaurantes. O senhor concorda?
Eu não conheço a operação de restaurantes. Sei que depois o ministro se justificou dizendo que houve um mal-entendido na comunicação e que ele estava falando das sobras limpas. Eu não entendo se seria o que está na área de exposição do restaurante ou ainda na cozinha, no preparo do alimento que não foi vendido no dia. Não sei exatamente pontuar onde ele se expressou com a proposta então não tenho como opinar nessa posição dele. Mas parece que ele se esclareceu e ficou melhor entendido.

“Em que momento se perde mais? No transporte, na colheita? Esse mapeamento é um dos nossos maiores desafios para enfrentar o desperdício” (Crédito:Eduardo Anizelli)

Já a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, se propôs a rever a legislação relacionada à validade dos alimentos e a criar um grupo interministerial para discutir o tema de desperdício. Quais são as expectativas para esse retorno?
Acho importante porque tem uma contextualização muito clara sobre a lógica do best before. Você tem números de produtos com um tempo de validade que talvez não esteja com os mesmos componentes de qualidade, mas que ainda é um produto pronto para consumo. E hoje estamos jogando tudo no lixo. Mas é uma discussão que precisa ser muito bem pautada porque às vezes boas propostas não acontecem por uma má comunicação. Do ponto de vista do setor de supermercados nada muda financeiramente.

As boas práticas de ESG estão cada vez mais em evidência. De que forma o setor supermercadista pode colaborar nessas pautas?
Primeiro, temos que ajudar o empresariado supermercadista a se qualificar ainda mais. A Abras montou um plano que se inicia com um amplo programa de treinamento de governança corporativa e familiar. Outro movimento foi dar luz, força e visibilidade para a pauta ESG através do Fórum da Cadeia Nacional de Abaste-cimento. Resumindo o contexto geral, é entregar para o meu filho o que eu recebi do meu pai de uma forma protegida como ele me entregou. Eu acredito que esse é o gancho. Movimentar o setor para que se qualifique, abra capital na bolsa e, ao mesmo tempo, levar essa agenda para o pequeno, para o médio, para que eles possam reduzir os custos, mitigar o impacto ambiental e social dentro das lojas, trabalhar a governança do ponto de vista de modernidade, segurança, como também atuar em pautas como a diversidade, a equidade racial e de gênero.

Como a Abras participa dessa mudança?
Somos um setor que atende 28 milhões de pessoas por dia. Nosso papel como entidade é contribuir nessa demanda que o próprio consumidor está nos exigindo: a digitalização, a facilidade de entregas, a tecnologia. Inclusive, estamos desenvolvendo um marketplace para o próprio setor, englobando todos os supermercados. Ainda estamos em fase de aprovação interna, mas há uma grande possibilidade de que ele seja aprovado. A partir daí, a previsão é de três a quatro meses para colocá-lo em ação.

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