Entrevista

VanDyck Silveira, CEO da Trevisan Escola de Negócios

Não existe dicotomia de salvar vida ou salvar a economia

Claudio Gatti

Não existe dicotomia de salvar vida ou salvar a economia

Para o economista VanDyck Silveira, uma depende da outra — e o Brasil pode sair arruinado da pandemia de Covid-19 caso a retração do PIB chegue a 5% e a taxa de desemprego a 20%. Liberal convicto, ele afirma que em um cenário assim “os estragos são ainda imensuráveis” e que é preciso “parar de brigar por situações espúrias” e formar, de verdade, um gabinete de guerra.

Edson Rossi
Edição 10/04/2020 - nº 1166


Para VanDyck Silveira, “o Brasil nunca experimentou o mercado de verdade” e por esse motivo não pode tomar uma decisão inconsequente em relação à crise provocada pelo coronavírus. “Caso o descontrole fiscal volte”, afirma o CEO da Trevisan Escola de Negócios, “quem pagará, e muito, será o mais pobre”. Nesta entrevista à DINHEIRO, ele diz que o presidente Bolsonaro tem três saídas: a renúncia, o impedimento ou virar uma espécie de Rainha da Inglaterra, transferindo poder para que terceiros decidam por ele.

DINHEIRO – Para o senhor, como o País tem conduzido a pauta econômica, em especial durante a crise de Covid-19?
VanDyck Silveira – O presidente Jair Bolsonaro erra demais na forma. Vejo apenas três saídas para ele: a renúncia, o impedimento [impeachment] ou se tornar uma espécie de Rainha da Inglaterra – transferindo poderes, decisões, a outros.

O quanto essa debilidade pode afetar a macroeconomia?
Os pacotes anunciados nos últimos dias e semanas podem aliviar os estragos, mas o País vai cair em recessão. Com a quarentena persistindo até segunda-feira [13] o PIB será negativo entre 2% e 2,5%. Caso se estenda por mais três semanas, calculo que a retração chegue a 5%.

Com crescimentos pífios, ou negativos, desde 2014…
A variação do PIB de 2017 [1,3%], 2018 (1,1%] e 2019 [1,1%] não foi suficiente para igualar a queda de apenas um ano [-3,3% de 2016]. Haverá mais desemprego.

Que não desce da casa dos 11% (está em 11,6%) e atinge 12,3 milhões de pessoas.
Existem 5 milhões de empregos já em risco na cadeia do varejo amplo, segmento que pega de restaurantes, vendinhas e lojas de bairro, até varejistas maiores. Todos em risco imediato. Formais, informais. Pior: para cada emprego no varejo amplo pode-se considerar até outros cinco em toda a ponta da cadeia [produtiva]. Se o corte atingir pelo menos mais uma [vaga], e eu acredito que seja mais de uma, estamos falando de 20% ou mais de taxa de desemprego.

Porcentual assustador…
Nenhum país vive com taxa desse nível sem explodir em confrontos, saques, protestos violentos.

Como quais?
Apenas em tempos recentes, mesmo em níveis diferentes de protestos, a Grécia e a Espanha. Mas aqui será pior.

Por quê?
Porque a Espanha fez coisas impensáveis por aqui como cortar empregos e salários de funcionários públicos. Além disso, a renda per capita espanhola, por exemplo, é muito superior à brasileira. Então o tecido social de lá se protege melhor do que aqui. O cara perdeu o emprego, a mulher perdeu o emprego, o sogro e a sogra ajudaram, seguraram as contas. Aqui, o cara perde o emprego, a mulher perde o emprego, o sogro e a sogra já eram dependentes. Fica todo mundo sem renda.

A solução seria encerrar o isolamento compulsório e retomar toda a atividade econômica, como o presidente propõe?
Não. Ele [Bolsonaro] afrontar a ciência, o [Luiz Henrique] Mandetta, os governadores… é um erro. Ao ser radical e entrincheirar-se, ele conseguiu o quê? Estar sozinho, ser o último dos moicanos. Está errado.

“Há 5 milhões de empregos já em risco na cadeia do varejo amplo — de restaurantes, vendinhas e lojas de bairro até varejistas maiores. Para cada um deles pode-se considerar até outros cinco em toda a ponta” (Crédito:Jorge Hely)

O preço tem sido alto.
Das reformas estruturantes, só uma foi aprovada. Agora, com a crise de Covid-19, tudo saiu da pauta. Isso tem muito a ver com essa mistura de arrogância, empáfia e enfrentamento. Era desnecessário esse tipo de barulho. É muito importante que na política haja profissionais que consigam trabalhar de maneira equilibrada.

Então qual seria a saída?
Um plano B. Um plano C. Sentar quem pode e contribuir. Pensar quais setores econômicos podem voltar, em que medida, em quais cidades pode haver relaxamento… Sem jamais deixar de preservar ao máximo os mais vulneráveis. Se estamos numa situação de guerra, há que se avaliar os riscos e as perdas menores. É preciso lembrar que os estragos de uma retração de 5% no PIB ou desemprego a 20% são ainda imensuráv

Qual o fôlego das empresas com a manutenção da quarentena?
Pequenas e médias têm espaço de liquidez reduzido. As pequenas [faturamento anual de até R$ 10 milhões], entre 27 e 30 dias de caixa, no máximo. Empresas grandes, listadas em Bolsa, têm três meses. Em média.

Num momento excepcional, como a crise do coronavírus, não cabe ao Estado dotar medidas excepcionais?
Cabe, e eu as defendo. Mas não a qualquer preço.

O preço é o desajuste fiscal?
Há um porcentual cabalístico para a relação dívida pública-PIB, de 80%. Hoje no Brasil está em 77%. Próximo demais do teto, mas chegou a 95% no governo Dilma. É a maior conquista de Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes – conquista que começou com Temer. Mas o governo não soube nem vender isso. Endividamos muito o País e de maneira rápida e, mesmo tendo mudado a curva, continuamos no limite. Essa relação na Índia está em 69%, em Israel nos 59%, no México com 54%, na Colômbia nos 49%…

A questão fiscal vai assombrar o País até quando?
Esse descarrilamento fiscal foi acirrado no governo Dilma, mas já vinha de Lula, com campeãs nacionais, subsídio a empresas, a compra de carros, casas, viagens – por favor, não tirem de contexto a questão da empregada doméstica. Mas estávamos subsidiando uma qualidade de vida que não tínhamos. Não havia aumento na produtividade [no Ranking Global o Brasil está na posição 78, entre Tailândia e
Sri Lanka]. Em dez anos o fomos o único país em que o valor da unidade de trabalho salário subiu mais rápido que a produtividade real do trabalho.

Mas isso era parte de uma política de Estado. Para minimizar um pedaço de mundo desigual como o Brasil, não?
Salário mínimo não é desejo de Deus. É estipulado por uma fração da produtividade apropriada por ele mesmo.

No caso da crise do coronavírus não seria preferível o endividamento?
Desde o Plano Real pagamos US$ 100 bilhões por ano de juro da dívida. É um Plano Marshall por ano. Os R$ 600 a autônomos, o auxílio a empresas, tudo tem sido adotado porque o grau de endividamento em relação ao PIB permitiu. E isso vem do equilíbrio fiscal.

Então há margem. Mesmo no limite.
Não muita porque há agravantes. A credibilidade do presidente está morta. É triste ter dois presidentes eleitos, em seguida, não terminando o mandato. Os gringos que querem investir perdem a confiança, pensam: não é sério.

Mas o presidente não saiu…
Sim. Porém a economia vive justamente da confiança futura. Economistas e agentes econômicos formam expectativa. Essa perspectiva e a formação das expectativas são feitas de maneira irracional, até, e nesse sentido Bolsonaro estaria mais errado na forma que na essência. Mas sem credibilidade ele não conseguirá. Aí passa a ter empresários começando a se revoltar.

Para Bolsonaro, ter a economia reativada é praticamente a única chance de resgatar se não a governabilidade seu destino. Por isso o tom dele para que o isolamento se encerre.
Não existe dicotomia de salvar vida ou salvar a economia. Um depende do outro.

Muitos economistas defendem a excepcionalidade, um Estado mais ativo para reanimar a economia. Países como os Estados Unidos seguem esse caminho.
O Brasil não pode ser comparado aos Estados Unidos. Olha a situação que a gente tem. Fiscalmente, o Brasil é como o alcoólatra. Se tomar o primeiro copo de cerveja, tomará a garrafa de Dreher. Não abre a torneira sem ser irresponsável, sem que todos queiram mais [no dia seguinte à entrevista VanDyck comenta a reportagem da Folha de S. Paulo sobre empresários qu querem manter benefícios mesmo após a crise de Covid-19]. A isso se soma a instabilidade política, Congresso versus governo, relação dívida PIB, presidente mandando sair de casa…

“A credibilidade do Bolsonaro está morta. É triste ter dois presidentes eleitos, em seguida não terminando o mandato. Os gringos que querem investir perdem a confiança, pensam que não é sério” (Crédito:Marcos Corrêa)

O que é preciso para estancar a bagunça?
Liderança e planejamento. Mas esbarra num cabo de guerra entre políticos pensando na reeleição, em 2022. É preciso parar de brigar por situações espúrias e formar, de verdade, um gabinete de guerra.

E o que faltaria para isso?
Falta um FHC. Nem sou fã dele. Como presidente, ele teve a maior chance de aprovar reformas estruturais e não seguiu com a agenda por causa da reeleição. Mas quando houve um problema em comum, na época a inflação, ele pegou um País dividido e resolveu. Houve consenso para aquilo.

Há um mês, o economista André Lara Resende – aliás, um dos pais do Plano Real – disse que a política econômica de Guedes está baseada num liberalismo primitivo.
Discordo, com todo respeito. Mas discordo. A razão pela qual temos hoje um juro civilizado vem da política atual. Há spread bancário elevadíssimo? Sim. Mas o spread se deve a um setor concentrado, em que cinco instituições dominam 80% do mercado. Igual, só na China. Discordo totalmente dessa nova onda, os new keynesianos, de que o endividamento do Estado não tem impacto econômico. Para mim é uma conversa nem para boi dormir, para galinha dormir. Abra a torneira e saia jorrando dinheiro na rua de um helicóptero e veja o que acontece.

O quê?
O descontrole, o desequilíbrio, a desigualdade. Liderar por chavão não dá. Se for assim, pega parte dos R$ 4 bilhões do fundo eleitoral e joga na saúde. Só dizer que
não pode demitir não adianta. O empresário responde. ‘Tá, mas aí eu quebro, é isso?’

Há ainda muito intervencionismo?
O Brasil nunca experimentou o mercado de verdade. O Brasil já teve sistema baseado em governo, mas nunca baseado em mercado. Vamos experimentar o mercado? Sou um liberal convicto, mas a verdade é que há muitas viúvas da renda fixa, gente que precisa tomar risco de verdade investindo no setor produtivo. É como se dissessem: ‘Queremos mercado para parte da população, mas não para toda a população’. Porque no mercado o cara tem de ser muito bom, não ganha dinheiro facilmente.

Com tantas visões e interesses conflitantes, sem uma liderança de País, o que fazer?
As partes precisam buscar o equilíbrio. Sem o consenso todos precisam saber que não é jogo de soma zero, é de soma negativa. Todos perdem sem a busca por um equilíbrio nesse momento. E um perderá mais: o pobre.

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