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Não deixem a economia entrar nos quartéis

Ato de fragilidade do comandante do Exército mostra que rasgar a norma virou a regra. E isso é ruim para todo o ambiente de negócios.

Não deixem a economia entrar nos quartéis

Parece que faz anos. Mas não faz dez dias. Na quinta-feira (3), o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, principal nome à frente do Exército, cometeu aquele erro que custa a solidez necessária à liderança e estraga currículos. Ao deixar de punir um de seus quadros de ponta (o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello) por uma infração evidente – assim considerada até por outro militar, o vice-presidente Hamilton Mourão –, o Exército ajuda a desconstruir a narrativa (que nunca coube, aliás) de um corpo coeso, consequente e coerente. Pior. Mostra que se trata de um órgão a serviço de Bolsonaro (“Meu Exército”) e não do Brasil. Por tabela, deixou insustentável a lenda de seu antecessor, Edson Pujol, de que não deixaria a “política entrar nos quartéis”. Isso é ruim para Nogueira de Oliveira. Ruim para a imagem das Forças Armadas. Ruim para o ambiente de negócios. Que o comandante de uma organização estrague a imagem de sua instituição é um problema dele, do chefe dele e dos comandados dele. Quando isso transborda para o mundo produtivo passa a ser um problema de todos.

As Forças Armadas são os maiores empregadores do País. Mais que JBS, Carrefour ou qualquer gigante do teleatendimento. De Aarão Carajás Dias dos Santos (primeiro-tenente) a Zyndya Rosa de Aspiazu Schlee (tenente-coronel) há mais de 350 mil fardados, de acordo com o cadastro federal de militares da ativa. Quem está no topo recebe até R$ 51.391,86. Apenas no contingente que ganha acima de R$ 20 mil há 11 mil nomes. Se o corte for nos R$ 10 mil para cima, por mês, a legião salta para 77 mil pessoas. Não é pouco. Reitero: só os da ativa.

Se pularmos para a Reserva, números de absurda grandeza ajudam a jogar luz (talvez fosse melhor dizer sombras) nessa ‘estatal’. Somente com pensões e aposentadorias são mais de R$ 20 bilhões anualmente. Este ano, devem ser R$ 22,3 bi. Quando vamos para a linha “Defesa Aérea” os gastos estão na casa dos R$ 4,2 bilhões. E na “Defesa Naval” batem em R$ 2,2 bilhões. Seria de rir. É de chorar. Mas é isso mesmo. No ano passado gastou-se cinco vezes mais com o pessoal do pijama do que com Defesa Aérea. E quase dez vezes mais na comparação com a Defesa Naval. Aí entram armas para o crime organizado ou saem aviões com cocaína para a Espanha e a gente não entende.

Até aqui, a opinião pública e o mundo dos negócios deram uma ignorada nisso tudo. Vocês, militares, aparentemente não eram problema. Havia o desastre Dilma Rousseff para dominar o noticiário. Ou o caminho das reformas de Temer. Quem sabe a verdadeira agenda liberal sob a batuta espetacular de Paulo Guedes. No entanto, o que temos é um governo sob comando militar da pior espécie (e a Covid-19 será a prova da História).

Se isso ficasse restrito ao silêncio comportamental militar pós-redemocratização dos últimos 35 anos, tudo bem. Num País cuja última guerra nas fronteiras aconteceu antes de existir a República, há mais de 150 anos, as Forças Armadas podiam ser vistas com benevolência. Mas até isso tem mudado. Em 2019, 42% dos brasileiros diziam “confiar muito” nelas. No ano passado, o porcentual baixou para 29%. Não estão na conta atitudes inimagináveis como a de negar leitos vagos em hospitais militares a civis durante a Covid-19 em pelo menos três estados.

Assim, ao se eximir de seu papel, Nogueira de Oliveira deveria olhar melhor para a nova fotografia. E a gente, o mundo civil, deve olhar sobre qual o papel deles. O comandante do Exército precisa temer mais pelo branding de sua instituição do que por seu cargo. Ao não cumprir um ato inevitável e tendo como chefe uma pessoa que faz da mentira o modus operandi, e que desqualifica o sistema eleitoral desde que foi eleito, o que as Forças Armadas vão criar é um estágio mais aprofundado do que a temida insegurança jurídica que tanto atrapalha os negócios.

O que se molda nessas profundezas é um cenário assustador de insegurança institucional – que começou com Eduardo Villas Bôas tuitando na cadeira que ocupava, é fato. Esse grande composto pode jogar para o lixo a subida do PIB, da Bolsa e até uma possível inflexão no assustador número de mais de 14 milhões de desempregados. Fazer lambanças na caserna e gastar seus bilhões com ativos e inativos a gente do lado de cá ignorou. Mas já que vocês não foram capazes de impedir que a política entrasse nos quartéis, pelo menos se esforcem mais e impeçam que isso ocorra também com a economia.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.