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Não cai nem com roubo

Na tentativa de expor vulnerabilidades do blockchain, Hackers desviam US$ 600 milhões em criptomoedas. Mas voltam atrás — e as cotações seguem subindo.

Crédito: Istock

A melhor comparação é com uma casa que está à venda e acabou de ser invadida por ladrões. Apesar dos flagrantes sinais de arrombamento na porta, o proprietário aumenta o preço de venda e os compradores aceitam. Foi o que ocorreu com o mercado de criptomoedas na terça-feira (10). O mercado foi sacudido pelas notícias de que um ou vários hackers invadiram a Poly Network, desviando US$ 600 milhões, o equivalente a R$ 3,1 bilhões em diversas moedas. Foram roubados US$ 273 milhões em tokens da ethereum, US$ 250 milhões na Binance Smart Chain e US$ 85 milhões em US Dollar Coin. A Poly Network é uma plataforma de finanças descentralizadas. Em inglês “decentralized finance” ou DeFi, termo que engloba a estrutura de transações financeiras e de investimentos que não depende de governos nem de bancos centrais e que inclui as criptomoedas. Apesar dessa inquestionável prova de que a estrutura descentralizada oferece riscos, o bitcoin manteve a trajetória de alta iniciada no fim de julho. Na quarta-feira (11), ela encerrou a US$ 45,9 mil, acima dos US$ 41,7 mil do encerramento de julho. Apesar de estar abaixo do pico de US$ 58 mil registrado em abril, as cotações da criptomoeda mantêm uma trajetória de alta.

Parte da recuperação dos preços deveu-se aos detalhes insólitos do golpe. Changpeng Zhao, presidente-executivo da Binance, disse que sua empresa estava “ciente do furto” que drenou um quarto de milhão de dólares, mas acrescentou que “não havia muito o que fazer”. Os executivos da Poly recorreram aos bons sentimentos dos ladrões. A empresa chegou a publicar um apelo no Twitter para que os ladrões devolvessem os ativos. “A quantidade de dinheiro que vocês roubaram é uma das maiores da história da DeFi. A legislação de qualquer país vai considerar isso um grande crime econômico e vocês serão processados. (…) O dinheiro que vocês roubaram pertence a dezenas de milhares de membros da comunidade criptográfica, ou seja, pessoas.” O mais surpreendente é que essa estratégia pareceu funcionar. Já na quarta-feira, os hackers tinham devolvido parte do que havia sido desviado, afirmando que haviam cometido o furto por “diversão” e para mostrar as fragilidades dos ativos. “O plano sempre foi devolver os tokens, não tenho interesse em dinheiro”, disse o hacker em mensagens deixadas na blockchain do Ethereum, ainda na terça-feira (10).

SEGURANÇA Pedro Alexandre, da Wibx, criptomoeda brasileira que funciona como utilty token: estrutura impde fraudes e desvios. (Crédito:Claudio Gatti )

Acredite se quiser. Apesar da turbulência provocada no mercado, o resultado comprovou pelo menos um aspecto da segurança dessas moedas. Elas são totalmente rastreáveis. A Slowmist, empresa de segurança de blockchain, informou ter descoberto algumas informações sobre a identidade do hacker, o que pode ter apressado a devolução parcial. Para dificultar a vida dos hackers, executivos de várias empresas de criptomoedas se comprometeram a congelar valores relacionados ao roubo.

Os resultados do golpe na Poly indicam que o mercado de criptomoedas mudou de patamar. Após bater um recorde em abril e afundar em maio — devido, principalmente, a declarações do empresário Elon Musk, de que deixaria de aceitar pagamentos em bitcoin —, os preços iniciaram um movimento sistemático de recuperação no início do terceiro trimestre. Em parte porque Musk voltou atrás, e em parte porque plataformas de finanças descentralizadas, como a Poly, vêm crescendo aceleradamente. Elas permitem que os participantes do mercado façam negócios sem os intermediários tradicionais, como os bancos e as bolsas de valores. O setor tem crescido rapidamente e essas plataformas hoje administram mais de US$ 80 bilhões em moedas digitais. Na primeira semana de agosto, o valor de mercado combinado das dez criptomoedas mais populares — incluindo ethereum e dogecoin — avançou US$ 300 bilhões. Atualmente, a capitalização total de mercado desses ativos está estimada em US$ 1,6 trilhão, quase o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

MUDANDO DE IDEIA Elon Musk, da Tesla, pensou em deixar de aceitar pagamentos em bitcoins, mas voltou a atrás. (Crédito:Brendan Smialowski/AFP)

PROFUNDIDADE Isso mostra que o mercado ganhou profundidade. Indicadores como o Open Interest Bitcoin Futures, que mostra o número de contratos de compra e de venda em aberto, e o Number of Active Entities, que mostra o número de endereços ativos na rede, têm subido. Em 31 de julho, eles atingiram os mesmos valores de janeiro de 2021. Isso indica que há novos participantes no mercado, e que os participantes existentes estão fazendo mais negócios e assumindo mais posições. Ou seja, é possível perceber um crescimento tanto horizontal (mais participantes ativos no mercado) quanto vertical (os participantes que já estavam no mercado passam a fazer mais negócios do que faziam antes). Isso vale também para o Wibx, criptomoeda brasileira criada por Pedro Alexandre. O interesse do mercado, aliado à solidez das transações, garante uma trajetória de sucesso e mantêm as moedas digitais à prova de ataques.