Sustentabilidade

Na ‘linha de frente’ climática, cidades costeiras enfrentam sua mortalidade

Por milhares de anos, os povos construíram suas grandes metrópoles ao longo do contorno das costas, em estuários e deltas, confiantes no inofensivo vai-e-vem das marés.

A dominação dos mares permitiu muitas cidades costeiras a se tornarem caldeirões culturais e potências comerciais.

Mas agora, esta força está se tornando uma desvantagem enquanto as mudanças climáticas elevam o nível dos oceanos, redesenhando o mapa e colocando centenas de milhões de pessoas em risco.

Este é o alerta catastrófico de um relatório ainda não publicado pelo painel de conselheiros climáticos da ONU, ao qual a AFP teve acesso com exclusividade, e que esboça as vastas e urgentes ameaças climáticas que o planeta enfrenta.



Do alto, pode-se ver o problema.

Cidade após cidade, edifícios de escritórios, armazéns e residências se espremem às margens das águas como se se preparassem para um mergulho. Enquanto isso, grandes rodovias abraçam a costa, com suas faixas de rolamento próximas das ondas.

Estas cidades estão na “linha de frente” da crise climática, destaca o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

“Escolhas difíceis terão que ser feitas enquanto o nível do mar continuar a subir, inundações e tempestades ocorrerem com maior frequência e intensidade, o aquecimento aumentar a acidez dos oceanos e intensificar as ondas de calor”, enumera.

A elevação do nível do mar provavelmente provocará uma explosão da migração em massa e, eventualmente, forçará cidades inteiras a ser abandonadas por causa de inundações.

Mas consequências profundas para megacidades, pequenas ilhas, comunidades no Ártico e em deltas vão aparecer muito antes disso – no tempo de vida da maior parte das pessoas vivas hoje.

Em alguns lugares, as pessoas já conhecem bem o poder destrutivo da água.

“Eu era a noiva de uma família abastada”, conta à AFP Yasmin Begum no barraco de metal corrugado que ela agora divide com seus familiares em Daca, capital de Bangladesh.

“Meus sogros e meus pais tinham tudo: gado, uma bela casa, cultivos. Mas o rio levou tudo embora”, lembra.

A família tinha uma vida relativamente próspera no distrito de Bhola, no sul de Bangladesh, um pedaço de terra exposto nos limites externos de um dos deltas mais populosos do mundo.

Então, uma noite há 12 anos, a força do rio Meghna engoliu tudo o que eles tinham.

Agora com 30 anos e mãe de quatro filhos, Begum dá duro para sobreviver como empregada doméstica, enquanto seu marido conduz um ciclo-riquixá pelas ruas esfumaçadas da cidade.

Eles escaparam de uma inundação para se expor ao risco de outra. Sua casa nova fica na viela de uma favela superpopulosa que se amontoa precariamente perto de uma barreira para enchentes, a poucos metros da margem do rio.

– Cidades ‘mortais’ –

Aproximadamente um décimo da população e dos bens mundiais estão baseados menos de dez metros acima do nível do mar.

“Estruturalmente, muitas cidades ficam em quase todos os lugares errados para um mundo com mares em elevação”, diz Ben Strauss, diretor-executivo e cientista-chefe da Climate Central.

Portos e aeroportos são construídos nos terrenos os mais planos e baixos possíveis.

“O nível do mar costumava ser estável. Não mais”, explica Strauss.

Terras que atualmente abrigam 300 milhões de pessoas estarão vulneráveis a inundações até 2050, de acordo com um estudo seu.

Aqueles menos capazes de se proteger serão afetados mais duramente.

Todas as áreas urbanas são crescentemente sufocadas pela poluição do ar e pelo calor extremo, mas as que ficam ao largo da costa também são engolidas por enchentes intensificadas pelo aumento do nível das águas e varridas por tempestades mais violentas, devido ao aquecimento dos mares.

A água do mar invade terras cultiváveis como plantios de arroz, enquanto ecossistemas – cruciais para as economias, culturas e proteção climática – são seriamente degradados pelas atividades humanas.

Cidades como Veneza e Jacarta também submergem, enquanto nações insulares de baixa altitude, particularmente no Pacífico, correm o risco de desaparecer sob as ondas.

O relatório diz que reduzir as emissões à metade agora pode diminuir os riscos.

“Mas a elevação do nível do mar está se acelerando e vai continuar assim por milênios”, continua.

Os gases de efeito estufa que estão na atmosfera essencialmente provocarão a elevação do nível das águas até cerca de 2050.

Até 2100, o IPCC prevê que os níveis das águas poderão aumentar mais 60 centímetros mesmo que o aquecimento global seja limitado bem abaixo de 2ºC – meta do Acordo de Paris de 2015.

Os prospectos de longo prazo para muitas cidades costeiras são “sombrios” sem profundos cortes de emissões, adverte.

Enquanto isso, a humanidade continua a lançar poluição na atmosfera, aprisionando um calor global que está derretendo mantos de gelo e geleiras, e provocando a expansão dos oceanos.

Em poucas décadas, podemos ter emitido o suficiente para submergir algumas das maiores cidades do mundo, diz Strauss.

“Vivemos as nossas vidas sabemos que vamos morrer, mas não acho que pensemos com frequência nas nossas cidades nestes termos”, afirma à AFP.

“A maioria das nossa cidades costeiras são mortais. Muitas delas vão acabar inundadas no longo prazo”, diz Strauss.

– Custos em cascata –

Os custos já estão subindo.

Em outubro de 2012, o furacão Sandy impactou a costa em torno de Nova York e Nova Jersey, causando dezenas de bilhões de dólares em danos.

O furacão também provocou impactos “em cascata”, diz o IPCC, produzindo apagões maciços, causando interrupções no abastecimento de água, gasolina e linhas de comunicação para centenas de milhares de pessoas.

Desastres como estes em cidades costeiras globais trazem “riscos para as sociedades e a economia global em geral”, diz o informe.

Uma projeção do pior cenário para as 136 maiores cidades costeiras do mundo estimou os danos esperados até meados do século com o aumento do nível do mar sem adaptação entre US$ 1,6 trilhão e US$ 3,2 trilhões.

Houve grandes variações entre as cidades, parcialmente devido à concentração de bens e pessoas, segundo a coautora do estudo Elisa Sainz de Murieta, do Centro Basco para as Mudanças Climáticas.

No topo da lista, Guangzhou teve danos estimados em cerca de US$ 330 bilhões até 2050 em um cenário de emissões pessimistas sem adaptação, e de quase US$ 1,4 trilhão em 2100.

Em segundo lugar apareceu Mumbai, que o relatório do IPCC descreveu como “não adaptável” – com pouco a ser feito para preparar as pessoas e as propriedades a desastres -, apesar das previsões de que trechos de área construída poderiam estar suscetíveis a alagamentos até 2100.

E as cidades continuam a se expandir, colocando outros milhões em risco, particularmente na Ásia e na África.

– Lições da ‘banheira’ –

Mas como as cidades podem se proteger?

As opções incluem proteções de engenharia “pesadas”, como diques e quebra-mares, que podem conter o risco de inundações em até alguns metros de elevação do nível do mar, mas podem causar danos a sistemas ambientais.

Reabilitar os ecossistemas costeiros também traz benefícios amplos.

Tempestades vão matar menos e causar menos em cidades costeiras protegidas por amplos amortecedores formados por mangues ou pântanos.

Campos de floresta marinha, manguezais, corais marinhos e marismas também sustentam a vida marinha e os setores econômicos correlatos, como pesca e turismo.

Não há “bala de prata”, destaca o esboço do relatório do IPCC, mas as escolhas só vão ganhar robustez à medida que os impactos se acumularem.

“Temos que agir agora porque já estamos muito atrasados”, diz Johan Verlinde, gestor do Plano de Adaptação Climática de Roterdã.

Mais da metade da Holanda é vulnerável a inundações costeiras e fluviais em larga escala e mais de um quarto do país está abaixo do nível do mar.

Após as inundações mortais de 1953, o país começou a construir uma rede de defesas de alta tecnologia.

A Holanda aloca atualmente um bilhão de euros por ano ao seu plano de adaptação “vivendo com água”.

Os dispositivos de infraestrutura flutuante de Roterdã incluem uma fazenda de gado.

Com 85% do território abaixo do nível do mar, Verlinde diz que a cidade é “realmente uma banheira”.

“Precisamos bombear cada gota d’água que cai na nossa cidade. Realmente precisamos ser inovadores para mantermos os pés secos”, afirma.

Os engenheiros holandeses viajam pelo mundo compartilhando sua experiência de resiliência a inundações, embora muitos países e comunidades mais pobres não possam pagar pelas grandes infraestruturas de defesa, mais eficientes.

Mas as razões porque alguns estão protegidos e outros, não, vão além dos orçamentos nacionais.

– ‘Afundar ou nadar’ –

A Cidade do Cabo é uma “adaptável extensiva”, segundo o relatório do IPCC, com infraestrutura de proteção a inundações, bem como sistemas de alerta precoces.

Mas cerca de 100 mil residências estão expostas a inundações em uma cidade marcada pela pobreza extrema e o legado do apartheid.

Em direção à costa, o tranquilo Lago Michelle é um complexo residencial de ponta, rodeado por uma cerca de segurança.

Do lado de fora, uma faixa de terra arborizada a separa de Masiphumelele, onde casas informais cobrem o terreno alagado.

O contraste é um exemplo das gritantes desigualdades que tornam muito mais difícil encontrar um consenso sobre uma resposta às mudanças climáticas, afirma Anton Cartwright, do Centro Africano para as Cidades.

“Finalmente, todos nós vamos ter que afundar ou nadar juntos – literalmente neste caso”, diz.

– ‘Morte por afogamento’ –

No fim, inclusive as cidades adaptáveis mais inovadoras, que fizerem mais investimentos não conseguirão evitar a solução extrema: a retirada.

A Indonésia já reuniu planos para mudar sua capital de Jacarta, que está afundando, para Bornéu.

Em Bangladesh, a migração provocada pelo clima já se iniciou. Mas este é apenas o começo.

Estudos preveem que a elevação do nível do mar poderá deslocar cerca de um milhão de pessoas no país até 2050 e mais de dois milhões até o fim do século.

Daca provavelmente se tornará o destino daqueles expulsos de suas casas em outras regiões costeiras baixas.

Mas a cidade-delta, onde cerca de 40% das pessoas vivem em assetamentos informais vulneráveis, também deve enfrentar inundações.

Por mais simples que sua casa alugada seja, Begum diz que não pode perdê-la. Sua família não tem para onde ir.

“Então, provavelmente teremos que morrer afogados”, diz ela à AFP. “Não temos outra opção”.

Assim como Begrum, algumas comunidades não vão conseguir ou querer se mover mesmo que suas casas estejam em risco.

E alguns lugares são insubstituíveis.

– ‘Rainha dos Mares’ –

A Unesco descreve Veneza como uma “obra-prima extraordinária de arquitetura”, onde mesmo os menores prédios contêm trabalhos de alguns dos maiores artistas mundiais, como Ticiano e Tintoretto.

A cidade foi fundada no século 5, embora só no século 10 a chamada “Rainha dos Mares” tenha se tornado uma potência marítima.

No século 21, Veneza é o local do patrimônio mundial mais ameaçado do Mediterrâneo.

Cerca de 90% da cidade são vulneráveis a inundações.

Veneza instalou barreiras móveis capazes de fechar válvulas durante tempestades.

Mas se o nível do mar subir 30 centímetros, as águas das inundações poderiam alcançar o entorno dos ‘palazzi’ por várias semanas. Com 75 centímetros, os alagamentos poderiam durar seis meses.

A previsão mais pessimista do IPCC para 2100 é de 1,1 metro.

O oceanógrafo Georg Umgiesser diz que por causa dos efeitos da subsidência (afundamento brusco do terreno), até meio metro poderia ser “catastrófico” para a cidade.

A praça de São Marcos nunca ficaria seca.

E Veneza não está sozinha – até 140 locais do patrimônio mundial estão em risco de inundação costeira mesmo com um aquecimento global de 2ºC, a maioria no Mediterrâneo.

– O que nós perdemos –

Os seres humanos contam há séculos histórias de cidades e civilizações engolidas pelo mar.

No passado, não havia evidências vinculando comportamentos ao dilúvio, mas agora nossas escolhas estão criando verdadeiras Atlântidas do futuro, diz Strauss.

“Nossos esforços para conter as mudanças climáticas são para proteger as vidas que temos hoje, mas elas também vão moldar as histórias que nossos descendentes vão contar sobre nós”, diz Strauss.

“E eu acho que haverá muitas histórias sobre o que nós perdemos, sobre as coisas que nós falhamos em proteger”.

klm-burs/mh/pg/mvv

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