Estilo

Muito além do carvalho

Sob a direção do enólogo Giovanni Ferrari, vinícola Arte Viva usa barricas de acácia e jequitibá-rosa para estagiar seus vinhos.

Crédito: Divulgação

O uso da madeira se tornou há tempos um dos temas mais sensíveis no mundo do vinho — seja para quem produz ou avalia. A origem do carvalho (se francês, americano ou do leste europeu), o tempo em que a bebida estagia, se a barrica é nova ou de segundo uso… cada um desses detalhes passou a fazer parte da lista de perguntas obrigatórias a que críticos submetem enólogos durante as degustações. Sejam quais forem as respostas, seguem-se vaticínios sobre os resultados das escolhas. Pois agora uma questão inédita pode ganhar espaço nos escrutínios: “que madeiras você usou?”.

Antes impensável ante a hegemonia do carvalho, a indagação faz sentido se o produtor do vinho for Giovanni Ferrari, 34 anos, enólogo e proprietário da Arte Viva, em Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha. Na vinícola que montou sozinho após ter trabalhado para Alma Única, Chandon e Salton, ele utiliza barricas feitas sob encomenda com madeiras até agora só exploradas por cachaçarias. Um exemplo é o jequitibá-rosa, maior árvore nativa do Brasil (chega a 50 metros de altura). A madeira é usada na elaboração do rótulo Juju (R$ 107), nome que homenageia a filha Júlia, de 3 anos. Na safra 2020, todo o blend desse rosé elaborado com as variedades Marselan (70%), Chardonnay (10%) e Riesling (20%) permaneceu dois meses em tonéis de jequitibá com capacidade para 700 litros. Para o enólogo, a madeira nativa aporta aromas doces, com “traços de anis, açúcar caramelizado e melado, que interagem diretamente com a fruta vermelha da Marselan”.

MODERAÇÃO Giovanni Ferrari em meio às barricas de sua vinícola e uma garrafa do rosé Juju. “A madeira talvez seja a maior ferramenta tecnológica do enólogo”, afirmou. Mas é preciso saber dosá-la. (Crédito:Divulgação)

O jequitibá-rosa também foi usado no excelente Elementar Merlot 2020 (R$ 149). “A madeira talvez seja a maior ferramenta tecnológica do enólogo”, afirmou Ferrari, que já trabalhou em vinícolas no Douro (Portugal) e de Champagne (França). Prova disso é ele ter usado barricas não apenas para amadurecer esse tinto e sim desde os processos iniciais de maceração e fermentação.

EXÓTICA Árvore originária da Oceania, a acácia foi usada pela Tanoaria Mezacasa, também sediada em Monte Belo do Sul, para a barrica encomendada por Ferrari para estagiar por três meses o rótulo Sinônimos Riesling 2021 (R$ 71). “A madeira equilibra o aspecto olfativo do Riesling, diminuindo sua intensidade floral, o que permite que os aromas frutados e minerais apareçam, aumentando a paleta aromática”, disse o enólogo. É possível notar no nariz um toque de castanha-do-pará. Ainda segundo Ferrari, essa madeira exótica “deixa o vinho completo, respeitando a sua tipicidade”. Que as experiências da Arte Viva inspirem outros produtores a irem além do carvalho.