Mudanças climáticas, racismo ambiental e investidores

Crédito: Life Matters Pexels

Não será possível a humanidade enfrentar as mudanças climáticas sem tratar das suas questões mais viscerais, como a desigualdade, racismo, gênero e moradia (Crédito: Life Matters Pexels)



As mudanças climáticas, pandemia, crises econômicas, catástrofes, atingem com muito mais força as pessoas que já se encontram em estado de vulnerabilidade.

Aqueles que habitam áreas irregulares, muitas vezes privados do saneamento básico ou de qualquer estrutura publica de apoio, são as vítimas imediatas, mas os efeitos do descaso com as questões hídricas da cidade, por exemplo, as quais em um primeiro momento afeta a parcela mais vulnerável da população, mais dia menos dia cobrará o preço de todos, causando no mínimo enormes prejuízos econômicos.

A população vulnerável tem um padrão, são os negros, pobres, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, principalmente.

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Entretanto, nos últimos dois anos assistimos à popularização no Brasil, tanto da agenda climática, quanto da agenda ESG ou ASG em português (Ambiental, Social e Governança). O tema é complexo e chegou ao mainstream com extrema superficialidade.

Entretanto, de todas as agendas possíveis, o principal tema tratado, discutido e encaminhado é o carbono. De um lado a redução de sua emissão, e, principalmente, de outro, a sua compensação. Não que seja indevida a atenção, mas por vezes resume-se a agenda apenas ao carbono ou ao carbono zero, sendo que sabidamente essa é apenas uma das frentes tratadas.

Então, por que essa esmagadora ênfase?


Em uma entrevista sobre sustentabilidade, Fabio Alperowitch, um defensor da agenda ESG, co-fundador e gestor da Fama Investimentos apontou acertadamente que nós temos um problema muito grande com empresas querendo agradar investidores, mas como o foco dos investidores está em carbono as empresas tentam se comunicar ou fazer alguma coisa relativo a carbono, mas não estão querendo resolver o problema das suas externalidades elas querem resolver aos olhos do investidor.

O termo racismo ambiental, ao contrário do carbono, por exemplo, passa longe da discussão de qualquer agenda no Brasil.

Nos ambientes urbanos, as pessoas encontram como opção de moradia, seja por vontade própria ou por imposição pública em consequência à desapropriação por problemas estruturais, locais afastados dos grandes centros, precários e sem estrutura sanitária, por exemplo, que dificulta o acesso a oportunidades de trabalho melhores e expõe essa população a ambientes críticos.

A negligência da saúde ambiental e saneamento básico da população negra das periferias e favelas do Brasil é considerada uma forma institucionalizada de racismo ambiental.

O termo foi cunhado em contexto americano, por Benjamin Franklin Chavis Jr., sendo que tendo definido racismo ambiental como a discriminação racial no direcionamento deliberado de comunidades étnicas e minoritárias para exposição a locais e instalações de resíduos tóxicos e perigosos, juntamente com a exclusão sistemática de minorias na formulação, aplicação e remediação de políticas ambientais.

Um exemplo disso são as favelas ou as construções em regiões periféricas, que são, não coincidentemente, regiões racializadas e marcadas por uma série de violações de direitos historicamente registrados, porém, desconsiderados.

Não será possível a humanidade enfrentar as mudanças climáticas sem tratar das suas questões mais viscerais, como a desigualdade, racismo, gênero, moradia, entre outros.

A beira do colapso nós insistimos em produzir ótimos discursos e refutamos o problema, mas dessa vez caso falhemos de novo, choraremos todos juntos, inclusive os investidores, o leite que sequer precisaria ter sido derramado.







Sobre o autor

Raphael Vicente é Diretor Geral da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial. Advogado, Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP. Professor e Coordenador Geral da Universidade Zumbi dos Palmares.


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